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Dicas de Escrita: estrutura 3 - ato I: personagens e riscos

12:56neo



Como mencionei na última matéria, o primeiro ato toma, mais ou menos, 25% do livro e nele podemos encontrar o gancho - as primeiras linhas/parágrafos da sua história, que servem para “capturar” o leitor -, o primeiro plot point (incidente instigante ou cena chave) e o que é talvez mais importante, os personagens e o que eles têm a perder. 

E é sobre isso que falarei hoje: personagens e o que exatamente esses personagens têm a perder durante a história.

Já falei mil vezes aqui que são os personagens que carregam a história. O plot é importante, claro, assim como a escrita, mas se seus personagens forem mais ou menos ou ruins, muitos leitores simplesmente não vão se importar muito com seu livro. Eles podem até gostar, claro, mas sem personagens marcantes fica difícil “convencê-los” a ler o próximo volume, por exemplo, ou um outro livro seu. 

E é nesses primeiros 25% da sua história que você deve apresentar os personagens principais para o leitor, estabelecendo quem eles são, o que eles querem e o que eles têm a perder.

  • Quem seu personagem é?

No que seu personagem acredita? O que ele teme? Quem são seus amigos? Inimigos? Qual a aparência física dele? Qual sua ocupação? Qual sua maior fraqueza? Seus defeitos, qualidades? Enfim, quem seu personagem é? Eu já escrevi uma matéria sobre como criar personagens que pode ser de alguma ajuda, mas nesses primeiros 25% de história você deve mostrar ao leitor seu personagem em seu estágio inicial. Lembre-se: todo bom personagem muda durante a história, para melhor ou para o pior. O primeiro ato é momento de mostrar exatamente quais crenças vão ser questionadas, quais as características que vão ser desafiadas para que seu personagem possa crescer (ou não). 

Exemplo: Fulano é uma pessoa cabeça quente. Logo no primeiro ato você, o escritor, mostra uma ou mais cenas em que Fulano se irrita facilmente ou reage de modo exagerado. O leitor percebe logo que isso é uma parte fundamental da personalidade de Fulano. Durante a história, portanto, esse temperamento dele será desafiado e trará consequências - talvez Fulano acabe falando a coisa errada na hora errada e isso estrague tudo o que Fulano e seus amigos estavam tentando alcançar ou talvez sua falta de paciência finalmente faça com ditos amigos se afastem. Como Fulano reage a isso? Ele aprende a controlar seu gênio forte, se tornando uma pessoa mais calma e mudando assim para melhor? Ou ele se ressente e culpa seus amigos pelo acontecido, se tornando amargo e raivoso e mudando para pior?

Outro exemplo: Beltrano viveu sua vida inteira acreditando que o dever de um guerreiro é proteger o povo e após sonhar muito em ser um também, ele vai para o lugar onde guerreiros são treinados. Lá, no entanto, ele descobre que boa parte de seus futuros colegas de profissão são simplesmente pessoas más e cruéis, e que muita corrupção permeia toda essa organização de guerreiros. A crença de Beltrano, portanto, é desafiada e também traz consequências; talvez os guerreiros zombem dele por ser tão ingênuo ou o excluam, ou ainda tentem se aproveitar dele. Como Beltrano reage a isso? Ele admite que sim, alguns guerreiros são uns babacas, mas ainda há alguns que são bons e ele vai ser um deles, se tornando assim mais maduro e menos ingênuo? Ou ele se deixará afundar na decepção, perderá toda fé que tinha na ordem e desistirá, se tornando assim uma pessoa desconfiada e cínica? 

Isso é desenvolvimento, e você só consegue desenvolver bem seu personagem se estabelecer uma boa base no início da história. Ou seja, se mostrar ao leitor que existe algo a ser mudado. Mesmo que você tente desenvolver um personagem vazio, sem uma personalidade definida, o resultado não será bom; se não havia quase nada com o que trabalhar no início, com que material você poderia construir algo no final?

Mas como você pode mostrar quem seu personagem é nesses 25% de história? Simples: através de cenas que ilustrem suas principais características, medos ou crenças. Fulano perdendo a cabeça após uma mínima provocação de um rival faria isso e Beltrano ficando maravilhado diante de um guerreiro dessa tal ordem também. Desenvolvimento é algo que só tem impacto se for mostrado, e não contado. Não adianta de nada a narrativa me dizer que Fulano é cabeça quente e que Beltrano acredita piamente que todo guerreiro nesta terra é uma pessoa boa se eu não puder comprovar isso com meus próprios olhos, por assim dizer. Muito do impacto, daquilo que faz o leitor se importar, se perde ao apenas contar e não mostrar ao leitor. 

  • O que seu personagem quer?

Nos meus posts sobre planejamento de plot (1 e 2) eu comentei que é o objetivo de seu personagem que move a história. Um protagonista que não age e apenas reage a acontecimentos está fadado ao fracasso; afinal de contas, ninguém gosta de ler sobre uma pessoa passiva (nota: seu personagem pode ser passivo, claro, mas é uma boa ideia comentar isso de um modo ou de outro na história). Logo, é muito importante apresentar o objetivo de seu personagem o mais cedo possível. É a vontade do personagem de alcançar esse objetivo que atrai o leitor e faz com que ele queira saber como a história vai terminar. E com o objetivo, claro, vem o que quer que esteja impedindo seu personagem de alcançá-lo. Afinal, se não tivesse nada dificultando a vida do seu protagonista não haveria história. 

Peguemos Fulano e Beltrano de novo, e agora os dois estão na mesma ordem de guerreiros. Digamos também que algo está ameaçando o mundo/reino/cidade/idk deles e que as pessoas que vão lidar com essa ameaça vão vir dessa ordem de guerreiros. Então, Fulano está ali porque esses guerreiros são poderosos e respeitados, e ele quer muito ser poderoso e respeitado, e Beltrano quer ser um guerreiro porque quer ajudar as pessoas e ser um herói. Esses são objetivos bons, mas de certo modo vazios. Por que Fulano quer tanto ser poderoso e respeitado? Talvez algo em seu passado explique isso - ele foi extremamente humilhado por um grupo de pessoas e tem que viver com as zombarias até hoje? (Isso explicaria querer ser respeitado). Ele esteve em uma situação em que foi fraco demais para se salvar, ou para salvar uma pessoa com quem se importava? (Isso explicaria querer ser poderoso). E Beltrano, por que ele quer ajudar as pessoas e ser um heróis? Se for apenas por ter lido/escutado muitas histórias de guerreiros como heróis, pode ser que essa vontade suma quando ele perceber que os guerreiros são uns babacas. Logo, tem que ter algo mais: talvez ele queira ser útil para o reino/cidade/mundo deles de algum modo e ser um guerreiro é um jeito de fazer isso? Se sim, por que ele quer tanto ser útil para o reino/cidade/mundo? Talvez ele tenha sido criado pra isso e sua família espera que ele seja útil ou importante? Talvez ele acredite que se não se tornar um guerreiro sua família vai ficar muito desapontada?

Não vou me aprofundar muito em objetivos nessa matéria, mas veja como os principais objetivos de um personagem sempre nascem de um medo que ele tem: Fulano tem medo de ser humilhado e de ser fraco demais -> desejo de ser respeitado e ter poder -> ter como objetivo se tornar um guerreiro, já que guerreiros são poderosos e respeitados. Beltrano tem medo de decepcionar a família e/ou de ser inútil -> desejo de agradar a família e ajudar as pessoas -> ter como objetivo se tornar um guerreiro, já que ser um guerreiro deixaria sua família orgulhosa e tornaria possível ajudar as pessoas de um modo mais significativo. 

Logo, seus objetivos dizem muito sobre seus personagens, e apresentá-los no início da história não só dá ao leitor um pouco sobre eles como também move o plot da história. E, é claro, ver o personagem ultrapassar obstáculos para alcançar esses objetivos faz com que o leitor invista na história; como seres humanos, sempre acabamos atraídos por pessoas que não desistem e que continuam tentando, e é por isso que o objetivo de seu personagem deve ser algo que ele quer muito mesmo. 

No primeiro ato você deve apenas mostrar o que impede o personagem de alcançar o que ele quer - é no resto da história que o veremos lutando contra essa coisa e tentando tirá-la de seu caminho. Usando Fulano e Beltrano de novo: talvez o que impeça Fulano de se tornar um guerreiro é justamente entrar na ordem. Talvez a coisa pelo qual ele foi humilhado no passado ainda esteja na mente das pessoas, e ninguém o considere digno de entrar na ordem (mesmo a ordem sendo podre, né). Um bom jeito de mostrar isso é mostrar ele tentando se inscrever para entrar na ordem, por exemplo, e então sendo recusado. Se a narrativa for esperta, vai conseguir deixar subtendido o motivo da recusa, e assim o leitor saberá rapidamente o que está impedindo Fulano de alcançar seu objetivo. 

(Seria uma boa se o temperamento difícil de Fulano acabasse com o resto de chance que ele tem aqui também, já que mostraria que os defeitos dele têm consequência).

Já com Beltrano as coisas seriam diferentes. Talvez ele consiga entrar facilmente na ordem e seus problemas só comecem lá dentro. Ao ver que seus colegas são babacas e não os heróis que ele esperava encontrar, talvez Beltrano não consiga trabalhar com eles ou só se meta em discussões que acabam o excluindo do resto do grupo. Essa incapacidade de trabalhar em conjunto poderia prejudica-lo dentro da ordem, e mostrar isso através de cenas onde ele questiona seus colegas e acaba hostilizado seria fácil. 

Com esse punhado de cenas já apresentamos ao leitor quem são os personagens, o que eles querem e o que os está impedindo de alcançar esses objetivos. Falta, é claro, o que eles têm a perder.

  • O que seu personagem tem a perder?

O que seu personagem tem a perder é o que faz a história parecer real. É basicamente o que faz os leitores ficarem grudados nas páginas, esperando para ver o que vai acontecer. É o que acontece se seu personagem falhar, se ele não conseguir alcançar o objetivo. E, é claro, tal acontecimento deve ser algo que o leitor (e o personagem, óbvio) não quer que aconteça de jeito nenhum. É a pior coisa que pode acometer seu protagonista (e talvez o mundo dele).

Claro que essa coisa não precisa ser algo enorme. Ou seja, não precisa ser o fim do mundo ou uma invasão alienígena. Antes de tudo, essa coisa horrível deve ser horrível para seu personagem - é nele que os leitores estão investidos, no fim das contas, e sim, o mundo acabar é algo terrível, mas não é pessoal. É por isso que boa parte das histórias sobre desastres ou fim de mundo ou coisas grandes assim (se não todas) sempre possuem algo menor que está errado para o protagonista. Percy Jackson, por exemplo: sim, os deuses estão para começar uma guerra que poderia acabar com o mundo, mas não é com isso que Percy está realmente preocupado; é com sua mãe. Em The Witcher 3, o mundo pode está prestes a ser invadido por seres de outro mundo e uma guerra está devastando o continente, mas Geralt, o protagonista, está bem mais preocupado com sua filha adotiva, que ele está tentando achar. 

Resumindo, é o que seu personagem tem a perder em nível pessoal que importa de verdade, que faz com que o leitor torça para dar tudo certo. Não é necessário que um desastre esteja em risco de acontecer para que a história seja interessante. 

Usando Fulano e Beltrano mais uma vez. O que eles têm a perder? Para Fulano, as coisas são um pouco complicadas; se ele não se tornar um guerreiro e com isso conseguir o respeito do seu povo e o poder que ele precisa, ele vai continuar exilado e vulnerável o resto da vida… mas é isso que vem acontecendo desde sempre. Ele já é exilado e vulnerável. Para tornar o risco que ele corre algo mais real, é preciso que algo muito pior aconteça de imediato se ele falhar, e pra descobrir o que isso é, é só fazer uma pergunta: qual a pior coisa que poderia acontecer com Fulano?

Nós já sabemos que Fulano é cabeça quente e que isso provavelmente afasta as pessoas dele, o que o torna uma pessoa um tanto solitária. Sabemos também que ele tem medo de ser fraco e de ser humilhado. A pior coisa que pode acontecer com Fulano, portanto, é ser visto como fraco e inferior novamente. Então só precisamos de algo de torne esse medo realidade - talvez as pessoas no lugar onde Fulano vivem precisem de um ofício antes de fazerem x anos, e Fulano já é quase dessa idade, mas não tem ofício nenhum. E as pessoas que não conseguem um são imediatamente expulsas da comunidade e marcadas - talvez literalmente - como desnecessárias para a sociedade deles. Ser marcado como uma dessas pessoas, portanto, seria o ápice da humilhação para Fulano - algo que ele não quer que aconteça nunca. 

Com Beltrano as coisas ficam um tanto mais fáceis; ele é muito ligado a família e quer agradá-la, então o que ele tem a perder é sua aprovação (e assumindo que Beltrano também não tenha ofício, ele poderia acabar exilado também, mas não é isso que ele teme de verdade). Mas a desaprovação da família não é algo forte o bastante se não soubermos até onde ela vai - se Beltrano falhar, sua família vai expulsá-lo? Vai cortá-lo inteiramente de seu convívio, fingir que ele não existe? Se sim, essa seria uma boa coisa para perder (well, em termos de narrativa, claro). Se essa forte ligação com entre Beltrano e sua família for mostrada nesse primeiro ato, os leitores com certeza vão torcer para que ele não a decepcione e se o risco de isso acontecer se tornar real durante a história, vão temer por Beltrano. O medo dele + o que poder acontecer se ele falhar muito provavelmente o transformarão em um personagem interessante de se acompanhar.

Em resumo, ao apresentar os personagens e os riscos você deve:

  • Mostrar as principais características, medos, fraquezas e crenças dos principais personagens e estabelecê-las como base para que sejam questionadas e tragam consequências durante a história, ajudando assim no desenvolvimento do personagem.
  • Mostrar o objetivo do personagem e o que está impedindo-o de alcançá-lo.
  • Mostrar o que o personagem tem a perder se não conseguir alcançar seu objetivo.
Apresentar essas coisas no primeiro ato fará com o leitor se importe ou pelo menos se interesse pelo seu personagem, o que por sua vez fará com que ele queira ler o resto da história. E com todas as peças no campo, vem a hora da história mostrar a que veio de verdade com o primeiro plot point.

Mas isso já é assunto para a próxima matéria. Espero que tenham gostado e qualquer coisa é só deixar um comentário! 

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