elitismo rants literários

Rant literário: elitismo

18:03neo



OBS: Vou generalizar nesse rant para não ter que ficar interrompendo o texto a toda hora para deixar claro que não são todos do grupo em questão que agem de determinado jeito. Ou seja: sei que tem gente que não é assim em cada um dos grupos aqui mencionados.

Se tem uma coisa que eu odeio é o elitismo.

Não só na literatura, mas em qualquer lugar; no mundo do cinema, da música e até da televisão em geral. Odeio-o quando ele é escancarado, exposto na fala de alguém e impossível de se ignorar, mas o odeio ainda mais quando ele vem diluído e disfarçado em um discurso supostamente respeitoso que na verdade é condescendente. Acredito que boa parte de quem lê esse blog gosta ou de fantasia ou de YA ou de romance (ou desses todos), então acho que é seguro dizer que todo mundo aqui já deu de cara com o elitismo alguma vez na vida. 

Eu, por muito tempo, tive sorte nesse sentido. Nenhum dos meus amigos nunca se importou muito com o fato de que gosto de fantasia e na minha família o único que ainda tenta me convencer a ler outras coisas é meu avô e mesmo ele já desistiu de me oferecer livros de fantasia/mistério como prêmios se eu lesse esse ou aquele clássico porque ele (enfim) percebeu que eu simplesmente não consigo, na maioria das vezes, vencer 200 páginas de um livro clássico sem querer enfiar minha cabeça em um balde de ácido. Acho que foi justamente por eu ter começado a ler muito bem cedo que ninguém disse nada por vários anos, já que todo mundo meio que esperava que eu "cansasse" de fantasia e "evoluísse" para os clássicos. Coisa que eu nunca fiz e que provavelmente nunca vou fazer.

Não gostar dos clássicos e ler muito é cair na área dos que "não gostam de literatura de verdade e se contentam com livrinhos de mercado", livrinhos de mercado esses que são geralmente os YAs adaptados para o cinema ou que se tornam febre. Estranhamente, não sou fã de YA (apesar de ler vários de vez em quando), mas ninguém nunca perdeu muito tempo perguntando o que eu realmente gosto. No caso, fantasia.

Fantasia essa que é mal vista a torto e a direito. Os que gostam dos livros clássicos a desprezam e alguns fãs de ficção científica (gênero também desprezado pelos já citados leitores de livros clássicos) também não perdem tempo antes de colocá-la pra baixo. Mas, ironicamente, há elitismo até mesmo dentro da fantasia, onde fãs da fantasia grimdark e fãs da fantasia mais tradicional trocam farpas de vez em quando, cada um tentando convencer o outro de que a sua fantasia é a verdadeira ou a melhor. E como se isso não bastasse, fãs de fantasia não pensam duas vezes antes de falar mal dos já citados livros YA e dos seus leitores, que também não hesitam muito antes de torcer o nariz para a literatura erótica.

Esse "fenômeno" me lembra muito o modo como o povo do sul/sudeste brasileiro está pronto para reclamar dos estrangeiros rotulando a nossa cultura e nosso povo, mas no segundo seguinte já está na internet fazendo piada de nordestino. Ou como o nordestino reclama do sul/sudeste e dos estrangeiros, mas também não perde tempo na hora de zombar do norte (e principalmente do Acre). Ou ainda como o brasileiro rotula a África como selva e como continente pobre, e fica todo ofendido quando o Brasil ou a América do Sul é considerada uma imensa Amazônia selvagem e violenta. Esse tipo de comportamento é praticamente a confirmação de que o "oprimido" pode muito bem ser estupidamente agressivo se lhe for dada a oportunidade de ser o "opressor" (transportando esses conceitos para a literatura, claro).

Alguns meses atrás li um post em um blog literário famoso (cujo nome prefiro não revelar) falando justamente sobre a suposta literatura de mercado e a suposta literatura de verdade. Apesar do post em si ter (aparentemente) boas intenções, o texto todo foi extremamente condescendente; segundo o autor, a literatura de mercado era boa porque fazia o pessoal mais jovem começar a ler e ele defendia sua existência porque ela levaria os leitores à literatura de verdade eventualmente. Isso me fez revirar os olhos com tanta força que quase temi que eles fossem parar na minha nuca. A própria suposição de que há uma literatura de mercado e uma de verdade já me soa pra lá de estúpida. Esses "livrinhos de mercado" vendem porque eles são capazes de conquistar um grande número pessoas, coisa que a "literatura de verdade" não é muito capaz de fazer. Ou seja, a coisa toda é sobre um grupo de pessoas que gostam de um certo tipo de livro se julgando superior a outro grupo de pessoas que gostam de um outro certo tipo de livro porque o deles é (na sua opinião) melhor. E, é claro, eles também acham que as pessoas do outro verão a razão, cedo ou tarde, e trocarão de grupo. Óbvio.

Há pessoas que começaram a ler com livros YA e depois passaram para a fantasia/ficção científica/clássicos? Sim, claro. Do mesmo modo com que há pessoas que começaram com fantasia e/ou ficção científica e passaram para os clássicos ou para os YAs. E há quem tenha começado com fantasia que vai terminar com fantasia (ou com qualquer outro gênero). Criar uma espécie de pirâmide de qualidade na literatura é um pensamento puramente elitista e na minha opinião francamente estúpido. Não me entenda mal; não gostar do que um gênero propõe é perfeitamente normal porque gêneros servem justamente para agrupar histórias que compartilham alguns aspectos que podem ou não agradar a você, mas desprezar e considerar um gênero como inferior ao outro é estupidez. Há livros bons e ruins em todos os gêneros, e mesmo essa divisão entre bom e ruim é subjetiva.

Já perdi a conta de quantas vezes já vi leitores de um gênero que não é o YA reclamando de como sempre adaptam livros YA para o cinema ao invés de "livros bons" e como isso tudo é "feito por dinheiro" porque YA obviamente vende. Aí eu pergunto: se tocar de que um livro bom para você pode ser ruim para outro pra quê? Cair na real e perceber que Hollywood faz tudo por dinheiro pra quê? Aceitar que seu gênero, obviamente tão incrível para você, não é o que faz mais sucesso no mundo pra quê? É muito mais fácil continuar pensando que seu grupo é um grupinho exclusivo de pessoas com gosto refinado e que o resto da humanidade engole qualquer merda mesmo, não é?

Há até sexismo no modo com que o gênero YA é tão desprezado por esses grupinhos exclusivos de pessoas com gosto refinado. Veja bem, a maior parte (não todos) dos YAs que chegam ao cinema são agora voltados para garotas, como por exemplo Crepúsculo, Os Instrumentos Mortais e Jogos Vorazes. Há sempre aqueles que consideram essas três histórias como "farinha do mesmo saco" sendo que uma é de romance, a outra é de fantasia urbana e a última é de distopia. E o que essas histórias têm em comum? Ora, são protagonizadas por garotas que acabam se apaixonando por alguém. Sim, isso é literalmente tudo o que há em comum entre os três livros, que se passam em "mundos" completamente diferentes e possuem plots completamente diferentes. O engraçado é que quase nunca vejo os grupinhos exclusivos apontando que Batman, Homem de Ferro e Arqueiro Verde são muito mais semelhantes entre si do que Crepúsculo, Os Instrumentos Mortais e Jogos Vorazes jamais serão.

(E, não, não gosto nem de Jogos Vorazes e nem de Crepúsculo ou Os Instrumentos Mortais. Antigamente gostava bastante de Os Instrumentos Mortais, mas a série me decepcionou demais no livro 4, então desisti dela.)

(Esse sexismo também pode ser visto na música, aliás. É só uma banda ou cantor/a ter fãs garotas em sua maioria que está decidido: a banda ou cantor/a não pode ser levada a sério.)

Concluindo, o que muitos precisam entender é que opiniões diferem. Sim, eu sei que na teoria há isso de respeitar a opinião de outra pessoa, mas na realidade poucos são os que hesitam antes de considerar os livros YA, a fantasia, a ficção científica ou qualquer outro gênero como inferior apenas porque não é o tipo de história que você gosta. Às vezes eu tenho a impressão de que só é algo cair na boca do povo que os grupinhos exclusivos passam a não curtir esse algo, mesmo que antes de sua popularidade eles tenham ou gostado do algo ou ter sido impassível a ele. Há essa ideia bizarra na nossa sociedade de que tudo - livros, músicas, filmes, programas - que se torna popular é ruim, e que um número maior de pessoas curte a tal coisa por "não saberem melhor" ou por "terem preguiça de pensar". Sim, você pode não gostar da coisa em questão, mas se você realmente considera alguém inferior e o vê como menos inteligente e mais preguiçoso por algo que esse alguém goste, me desculpe, mas você só está tentando desesperadamente se sentir especial. E nem preciso dizer que se você tentar tanto ser único e diferente essa é, na verdade, a última coisa que você vai ser.

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