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Dicas de Escrita: estrutura 2 - ato I: o gancho

15:06neo


No segundo post da série (e basicamente o primeiro com conteúdo de verdade), falarei um pouco sobre algo que estressa bastante nós escritores: o gancho.

O gancho é um dos elementos que deve estar presente no primeiro ato da história. O primeiro ato ocupa mais ou menos 25% da história e, como eu mostrei no primeiro post, nele temos:
  • O gancho
  • Personagens sendo apresentados
  • Riscos/coisas a se perder sendo apresentados
  • Primeiro plot point (incidente instigante ou cena chave)
O gancho é, como seu nome deixa implícito, aquilo que fisga os leitores. É o que faz com que eles fiquem interessados na sua história e curiosos sobre o que vai acontecer e com quem tais coisas vão acontecer. Obviamente, o gancho vem nas primeiras páginas do livro e é por isso que o primeiro capítulo - ou o prólogo - é tão importante. Sem um bom gancho nele, é bem difícil que continuem lendo sua história. Ou que sua história seja publicada.

Lá nos EUA, por exemplo, é comum ouvir agentes literários dizendo que pela primeira página decidem se pedem ou não o livro completo do autor para ler (geralmente os agentes pedem as primeiras 50 páginas ou os primeiros três capítulos ou algo assim, e só se gostarem que pedem o resto) e, quem sabe, representar. Logo, ter um bom início é essencial para conseguir ser escolhido por uma editora/agente ou, se você quer publicar de modo independente, atrair leitores.

Mas o que exatamente faz um bom início? Bem, isso é difícil de responder com certeza. O que faz um bom início pra mim pode ser muito diferente do que faz um bom início para você, por exemplo, mas há algumas coisas que a maior parte dos leitores e escritores concorda que não funciona. Entre elas:
  • Apresentar muitos personagens. Isso deixar o leitor confuso e já que ele não se importa com ninguém fica bem mais fácil deixar o livro de lado.
  • Pouco diálogo. Começar sua história com uma parede de texto pode ser desencorajador para o leitor.
  • Diálogo demais. Sim, encontrar o equilíbrio não é fácil, mas muito diálogo acaba tomando o espaço que deveria ser dedicado à apresentação dos personagens e do conflito. 
  • Muito backstory ou explicações. O leitor geralmente tem que se importar com seu personagem (ou pelo menos achá-lo interessante) para continuar lendo sua história, sim, mas enchê-lo de informação sobre o protagonista e/ou o mundo é uma péssima ideia justamente porque ele não se importa (ainda). 
  • Cena desinteressante. Essa é meio óbvia, mas sim, não comece sua história com uma cena que não vai interessar em nada ao leitor. Não importa se ela é natural para o seu personagem (ou seja, é algo que acontece todo dia pra ele ou que faz sentido na sua história/mundo), se ela não for interessante não comece com ela.

Para mais exemplos de como não começar uma história, há algum tempo escrevi essa matéria aqui.

Os inícios que apresentam essas “falhas” apontadas aí em cima não funcionam justamente porque o gancho deles não é forte o bastante. É muito difícil construir um bom gancho com personagens demais, diálogo demais ou de menos, muita explicação ou em uma cena chata. Como eu disse lá em cima, o papel do gancho é deixar seus leitores curiosos e fazê-los se perguntar o que vai acontecer em seguida..

E essa é, na verdade, a chave: seu leitor tem que fazer perguntas.

Mas não qualquer pergunta. E certamente não uma pergunta que vem da confusão (“mas o que diabos está acontecendo nessa história?” é uma que você decididamente não quer). Ela tem que ser uma pergunta mais específica e que, portanto, tenha a ver com a própria história, seus personagens ou trama. 

O início de Um tom mais escuro de magia da V.E. Schwab ilustra isso perfeitamente. Traduzindo-o, temos:
Kell usava um casaco muito peculiar.
Ele não tinha um único lado, o que seria convencional, e nem dois, o que seria inesperado, mas vários, o que era, é claro, impossível.
Só com esse trecho já temos várias perguntas: se um casaco ter vários lados é impossível, como é que Kell tem um? E como esse casaco funciona? E quem Kell é e por que ele tem esse casaco bizarro? 

Claro que tem um enfim, o que está acontecendo? embutido nessas perguntas, mas elas são bem mais pertinentes e específicas, e o leitor não se encontra perdido. Ele está, muito provavelmente, interessado e curioso, exatamente como o escritor quer. O gancho, pelo menos para a maioria, funciona. 

Logo, não importa se você começa com ação ou não, já que existe essa debate enorme entre começar com ela ou tentar algo mais “calmo”. Você tem que começar de um jeito que te permite inserir um bom gancho, que faça com que seu leitor pergunte as coisas certas, e não as erradas. 

Características de bons ganchos são:
  • Eles apresentam um personagem (geralmente o principal).
  • Eles apresentam o lugar onde a história se passa.
  • Eles fazem o leitor fazer perguntas sobre o que foi apresentado. 
  • Eles apresentam o tom da história.

Claro que seu gancho não precisa fazer tudo isso. O de Um tom mais escuro de magia não apresenta o lugar onde a história se passa, por exemplo, e outro que gosto, o de O Nome do Vento, não apresenta o personagem. Veja: 
Noite outra vez. A Pousada Marco do Percurso estava em silêncio, e era um silêncio em três partes.
Essa abertura, esse gancho, apresenta apenas o tom, o lugar onde (parte d)a história se passa e dá a ideia para algumas perguntas (como um silêncio pode ser de três partes? Por que é noite outra vez se essa é a introdução da história?). O personagem só vem alguns parágrafos depois. Pra mim, a parte que não pode ser tirada de forma alguma é a das perguntas: o resto é opcional (mas fica difícil provocar perguntas sem esse resto, convenhamos). 

Não tem problema se você responde as perguntas do gancho já nas primeiras páginas. Em Um tom mais escuro de magia, por exemplo, logo descobrimos porque Kell tem aquele casaco, e o prólogo de O Nome do Vento é basicamente uma explicação das partes do silêncio, mas isso apenas se você provocar mais perguntas. Em O Nome do Vento, o autor Patrick Rothfuss termina o prólogo com o seguinte parágrafo: 
Dele era a Pousada Marco do Percurso, como dele era também o terceiro silêncio. Era apropriado que assim fosse, pois esse era o maior silêncio dos três, englobando os outros dentro de si. Era profundo e amplo como o fim do outono. Pesado como um pedregulho alisado pelo rio. Era o som paciente ― som de flor colhida ― do homem que espera a morte. 
Ou seja, a pergunta do gancho foi respondia - o leitor tem seus três silêncios - mas outras podem ser feitas agora: quem é esse homem? Por que ele está esperando a morte? O que aconteceu com ele?

Mas Neo, você pode estar se perguntando. Isso quer dizer que eu vou ter que arranjar perguntas o tempo todo? E bem... mais ou menos. Elas não terão que ser tão imediatas quanto essas do início, ou mesmo tão específicas, mas o leitor sempre estará se perguntando alguma coisa. Nos primeiros capítulos de O Nome do Vento nós logo descobrimos quem o homem é (Kvothe ou Kote, o protagonista), mas ainda não sabemos porque ele está esperando a morte ou o que aconteceu com ele. Na verdade, durante a história nos é contado (literalmente) várias das coisas que aconteceram com ele, mas ao fim dela ainda não sabemos tudo. E é isso que faz com que o leitor queira ler o próximo livro. 

Durante toda a história ficamos nos perguntando o que vai acontecer agora ou como tal personagem vai resolver tal coisa ou ainda como que é fulano vai sobreviver isso, e etc. Ou seja, as perguntas estão sempre presentes. Se você conseguir escrever uma boa história, será justamente por ter balanceado o número de perguntas que você cria com o número de respostas que você dá. É esse fluxo que faz com que o leitor continue lendo, afinal de contas. 

Mas três (ou mais) linhas de gancho não fazem um primeiro capítulo, claro. Com seus primeiros parágrafos você começa a deixar o leitor interessado, mas ainda no capítulo um (ou no prólogo) você deve começar a apresentar a história para ele, convencê-lo de que continuar lendo é uma boa ideia. No gancho você já apresenta algo, já dá os indícios, por assim dizer, mas a informação contida ali é muito pouca e muita incompleta. Para realmente conquistar o leitor, você deve construir seu personagem (o protagonista geralmente) diante dele e lhe mostrar o conflito (o que o protagonista quer? E o que o impede de conseguir essa coisa agora? O que ele tem a perder?).

Mas isso já é assunto para o próximo post. Espero que tenha ajudado e qualquer coisa é só deixar um comentário.

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