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Rants literários: o problema dos cookies de diversidade

13:55neo

por mariannewiththesteadyhands

Quem acompanha o blog há algum - ou quem me vê metida em discussões pelo Facebook - já deve ter percebido que representatividade é muito importante pra mim. Comento sobre isso aqui direto, e geralmente abordo várias coisas: sexismo e o modo como mulheres são retratadas em livros, racismo e personagens de cor, homofobia, transfobia e lesbofobia e personagens LGBTQ+, e por aí vai. Sempre comentei a falta dessas minorias (e de mulheres) em livros e provavelmente continuarei a fazer isso enquanto resenhar, assim como o resto da comunidade que se importa com esses assuntos, mas muita coisa ruim pode surgir dessa conversa, e uma das que mais me dá vontade de cometer um assassinato é bem simples: os cookies da diversidade.

Começa assim: um autor, geralmente branco e hétero, podendo ser homem ou mulher, vê a conversa sobre diversidade, observa as pessoas que querem representatividade porque é algo importante pra elas - pessoas negras, pessoas LGBTQ, etc - e tem a maravilhosa ideia de colocar um personagem gay/negro/etc na sua história. Assim, esse autor pensa, se achando o esperto, seu livro achará audiência nessas pessoas, não é mesmo? E então ele se acha tão bom, tão generoso, por ter decidido incluí-las em seu trabalho que quase se coroa o novo messias.

Mas quando o livro é lançado, uma surpresa: aquelas pessoas não gostaram do personagem gay/negro/etc dele. Na verdade, elas o odiaram, o chamaram de estereotipado e ofensivo, de má representação. O autor-messias, ultrajado, choraminga, “mas eu coloquei um personagem gay/negro/etc na minha história! Olha o quão subversivo eu sou, o favor que estou fazendo!”

Traduzindo: “onde estão os meus cookies de diversidade?”

Autores assim não são novidade, nem mesmo aqui no Brasil, onde personagem LGBTQ e/ou de cor é quase impossível de se achar (isso em um país mestiço como o nosso. Reflitamos). Os escritores que querem os cookies de diversidade não se importam com diversidade/representatividade de fato; eles querem é lucrar em cima do “movimento”, em cima das pessoas que clamam por algo diferente do garoto-branco-cis-hétero de sempre. Pior: eles se acham incríveis por terem tomado esse “risco”, mesmo que seus personagens gays/negros/etc sejam super secundários. 

Não é raro que os personagens diversos dessas pessoas acabem odiados pelas pessoas que eles deveriam representar, no entanto, e o motivo é bem simples: como não se importa com representatividade, o autor-messias não se esforça para fazer um bom personagem diverso. Seus personagens negros são caricaturas, seus personagens gays, estereótipos; em resumo, a diversidade da história dele é uma diversidade falsa, mentirosa, que serve apenas para que ele levante a bandeira de mente aberta, de aliado, e com isso, então, ganhar dinheiro. O autor-messias não gasta tempo pesquisando as tropes ofensivas, falando com pessoas do grupo a qual o personagem pertence ou estudando sobre o papel do personagem na história, mas quando as pessoas ofendidas por esses erros reclamam, seu próprio ego é atacado: afinal, ele saiu do caminho dele para colocar esses personagens na história enquanto boa parte dos outros escritores sequer se importa com isso. Como ousam essas pessoas acharem isso ruim? 

O autor-messias nunca reconhece que está errado. Ele está tão imerso na sua própria importância e na bondade que ele supostamente teve ao criar esses personagens que qualquer tentativa de mostrar o quão ofensivo eles são é vista por ele como inveja. Ou falta do que fazer. Ou mimimi de politicamente correto. E a indústria não está nem aí; enquanto o livro do autor-messias continuar vendendo, ninguém dirá um pio sobre o personagem mega estereotipado e danoso nele.

Mas o autor-messias não é o único a querer os cookies não. Existem outros, que talvez sejam um tanto menos danosos, mas que igualmente querem ser vistos como bastiões do movimento pró-diversidade, de um jeito ou de outro. Os autores-messias eu desprezo; esses outros me deixam chateada mesmo, porque geralmente são pessoas que aprecio e que de cujo trabalho eu gosto.

J.K. Rowling é um deles.

A internet explodiu nesses últimos dias com a notícia que uma atriz negra seria Hermione na peça que contará a história do trio bem mais velho (lá com seus 40 anos) e do filho mais novo de Harry, Albus. Muitos argumentaram que Hermione nunca é descrita como branca ou negra nos livros, o que é verdade, então escalar uma atriz negra para representá-la não é nada demais. Eu concordo. A ideia de uma Hermione negra não é, nem de longe, nova; o fandom vem fazendo fanfics e fanarts com ela há anos. Logo, Rowling não criou a Hermione negra; o fandom sim. 

Foi ótimo ela ter dado o positivo para a interpretação? Claro. Óbvio. Mas achar que era ideia dela que a Hermione fosse originalmente negra é muita inocência. Hermione foi criada branca. Harry Potter explodiu como uma série que contava a história de um menino branco e seus amigos brancos. A diversidade da série é mínima, e por mínima eu quero dizer quase inexistente. Não estou dizendo isso para menosprezar a história ou coisa do tipo. HP foi, afinal de contas, o que me fez amar ler e, mais tarde, escrever, e até hoje é uma das minhas sagas favoritas (na verdade, provavelmente a lerei de novo em 2016). 

Mas dizendo que a Hermione pode ser lida como negra quando todo seu império foi construído em cima dela sendo branca, comentando que há sim, judeus e pessoas gays em Hogwarts sem nunca mostrar nenhuma delas no texto e clamando que Dumbledore é gay depois do fim da série, Rowling utiliza o caminho mais fácil, mais simples, para ser vista como o tal bastião da representatividade. Não há nada que confirme essas coisas no livro; logo, o leitor mais preconceituoso pode ignorar a existência dessas informações com tranquilidade, e continuar lendo todo mundo como hétero/sem-religião ou cristão/branco. 

Lembro que na época em que ela anunciou que Dumbledore era gay eu tive uma conversa com um dos meus amigos. Ele estava... confuso, vamos dizer, sobre a coisa toda. “E o que é que isso vai acrescentar aos livros?” ele me perguntou, porque obviamente você só pode ser gay em uma história se esse fato a influenciar de algum modo. Heterossexualidade é a única sexualidade que não precisa de justificativa, aparentemente. “De onde veio isso?” ele continuou. “Que nada a ver, Dumbledore ser gay...” Eu, meio desconfortável, dei de ombros. “Não é como se isso fosse mudar algo na história agora,” respondi, e ele acenou, concordando, e puf, mudamos de assunto (felizmente). Para aquele amigo que era sim homofóbico, mesmo que não “ativamente”, a informação de que Dumbledore era gay era só uma nota de rodapé fácil de ignorar, um detalhe que ele não queria ver e que, graças à Rowling, ele não precisava ver. Para ele, Dumbledore continuou completamente hétero, já que era assim que ele foi apresentado nos livros e filmes.

Ou seja, essa “diversidade” ambígua, sempre implícita (isso quando não literalmente tirada do nada), é para não assustar, para não afastar o público mais conservador enquanto tenta atrair o mais liberal, as pessoas que estão supostamente sendo representadas. É o meio-termo, que dá autorização para que os autores se sintam bem consigo mesmos por serem tão mente-aberta enquanto não arriscam nadica de nada. Enquanto isso, vários autores que colocam a diversidade de seus personagens de modo explícito em suas obras são barrados da indústria, como comentei nesse outro post

Não acho que a Rowling esteja atrás de mais dinheiro (quero dizer, ela provavelmente já é rica, pra que mais dinheiro?), mas a mídia e boa parte de seus fãs já a tratam como o já citado bastião de representatividade. Essa tentativa dela de tornar HP mais diverso, na minha opinião, vem do fato de que ela só percebeu a falta de diversidade da série quando já era tarde demais para fazer alguma coisa, e agora anda meio que tentando remediar a situação. Só que não funciona. Se ela quer mesmo apresentar algo mais diverso, que o faça em seu próximo livro. HP não é diverso. O fandom já está lidando muito bem (kinda?) com isso há anos. Hora de mover em frente. 

Rowling não é a única a tentar fazer isso, claro. Muitos autores não descrevem a cor de pele de seus personagens com a ideia de que os leitores vão preencher o vazio com a informação que quiserem, o que é, novamente, muita inocência. Hermione não teve sua cor de pele especificada e o mundo inteiro a viu como branca. Branco é o padrão, a norma. Se você ler a descrição de uma mulher alta, magra, de cabelos e olhos castanhos, é muito provável que você a imagine como branca, mas cabelos e olhos castanhos podem ser aplicados a qualquer raça do planeta. Não especificar raça de personagem e se dar dois tapinhas no ombro porque, aparentemente, isso conta como diversidade é risível. 

Há outros autores que percebem que sua série não é nada diversa e tentam mudar isso enquanto ainda a estão escrevendo, mas bem, o resultado também não é lá muito bom. Um exemplo bem claro disso, na minha opinião, é a Sarah J. Maas e a Sara Raasch, autoras de série O Trono de Vidro e Snow Like Ashes respectivamente.

Nos primeiros dois volumes de O Trono de Vidro, nenhum personagem LGBTQ é apresentado. Nenhum. Nem de passagem, nem de relance, nem implícito, nem por boato. Eles não existem. Ponto. Mas no terceiro volume, Herdeira de Fogo, a protagonista conhece um casal gay. Ela não acha nada estranho e age como se uniões homo afetivas fossem completamente comuns na terra onde vive, algo que não nos foi mostrado até agora. Eu, inocente, como sou, pensei que isso significaria uma melhora no quesito representatividade na série, mas quando o quarto livro veio... nada. O casal gay era tão insignificante (tipo, personagem quaternário, se é que isso existe) que obviamente não apareceram de novo, e apesar da autora introduzir um monte de personagem novo, todos se mostraram muitíssimo hétero. 

Ao terminar esse quarto livro (que eu adorei, vale frisar), fiquei me perguntando porque diabos a autora tinha se incomodado em colocar aquela casal gay no livro 3. Seria uma tentativa de mostrar que os reinos desse mundo são okay com pessoas queer? Se sim, por que isso não foi mostrado desde o início? Estaria ela querendo introduzir um pouco mais de diversidade na história? Se sim, por que não fazer o continente da protagonista homofóbico, o que justificaria a falta de visibilidade das pessoas queer lá, e fazer o que ela está visitando okay com uniões homo afetivas? Não seria mais interessante mostrar uma diferença de culturas do que enfiar uma coisa que torna o worldbuilding algo completamente sem sentido no meio da história? E se a autora está mesmo tentando introduzir um pouco mais de diversidade na história, por que literalmente todos os personagens principais, os secundários e até mesmo os terciários são héteros e brancos?* 

O segundo volume de Snow Like Ashes, Ice Like Fire (que eu estarei resenhando eventualmente aqui pro blog), faz algo parecido. Nenhuma pessoa LGBTQ foi mostrada na história até agora. Não há pista alguma que a série irá reconhecer que elas existem. Então, nesse segundo livro (que a autora disse que ia ser mais diverso, e que realmente é, do ponto de vista racial), um cara que é amigo de uma personagem secundária (saca o nível) menciona que tem um marido. 

E é só isso. Ninguém acha estranho, ninguém diz nada, é tratado como algo comum, que todo mundo vê toda hora.

Exceto que não, em momento algum do livro anterior foi estabelecido se os reinos do continente são homofóbicos ou não. Todos os casais apresentados eram formados por um homem e uma mulher. O próprio texto era extremamente heteronormativo. Introduzir um personagem queer que é casado (o que denota que a sociedade vê casais gays do mesmo modo que vê casais héteros, ou pelo menos os dá os mesmos direitos) do nada e esperar que todo mundo engula é muito bizarro.

Além de ser uma diversidade empurrada de qualquer jeito na história, esses exemplos (de séries que eu gosto, para não acharem que estou falando só por achá-las ruins ou algo do tipo) mostram falha de worldbuilding. Eles não fazem sentido dentro do mundo introduzido aos leitores no primeiro volume (e no caso de O Trono de Vidro, no segundo também). É uma ruptura com o que já foi dito e mostrado. É escrita ruim, do ponto de vista mais técnico. Simplesmente não faz sentido.

Mas estão lá de qualquer jeito. Por causa dos cookies? Talvez. Por que as autoras passaram a se importar com representatividade? De novo, talvez (eu acredito que a Sara Raasch se importe sim, pelo que vejo dela no Twitter; já a Maas eu não faço ideia, mas vendo que a outra série dela, A Court of Thorns and Roses, é igualmente branca, cis e hétero, não tenho muitas esperanças). Mas a pseudo tentativa de diversificar a história está lá, por mais desajeitada que seja. 

Ou seja, no fim das contas, muito autor quer aproveitar a onda, quer ser considerado mente aberta, gente boa, etc, sem querer realmente colocar a mão na massa ou se arriscar. E quando faz o mínimo e não faz bem-feito, se acha no direito de se colocar acima de qualquer reclamação apenas pelo fato de ter tentado. Como dizem, de boa intenção o inferno está cheio; não é porque você nunca quis fazer um personagem negro ofensivo que todos os seus personagens negros serão excelentes. 

E os personagens queer (e os de cor), perceba, são extremamente insignificantes para a trama, sempre. Os brancos e héteros sempre serão os principais e os secundários, mas esse tipo de autor não hesitará antes de se vangloriar por ter escrito personagens diversos, alegremente ignorando o fato de que esses personagens são insignificantes para a trama. A diversidade desses autores é “sanitizada”, limpa, fácil para o leitor mais preconceituoso. Não incomoda, não causa desconforto. É fácil de ignorar.

Mas eles ainda querem os benditos cookies. 

E muita gente não hesita nem um pouquinho antes de dar os biscoitos pra eles.

*A representação de personagens de cor em Trono de Vidro já é outro pepino enorme. Talvez algum dia eu fale disso aqui.

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3 comentários

  1. Interessante. Não sabia dessa polêmica, até porque nem acompanho muito esse universo do HP, mas sabe que algo parecido, embora mais relativo a um crosscasting mesmo, é a possbilidade do Idris Elba ser o Roland Deschain em uma adaptação da série A Torre Negra do Stephen King, que já se pronunciou a favor da escalação do ator. A questão é que tem um monte de gente enchendo, pq o Roland é de fato branco. Mas sabe o que é estranho? É que tem leitor que acha que o Idris poderia fazer o vilão, que também, olha só, é descrito como um cara branco, ou seja, tudo bem um ator negro viver um personagem branco em uma adaptação desde que seja o vilão e não o protagonista. Pode isso?

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    1. Isso de imaginar o negro como vilão mas não como herói me lembra a Rue - um monte de gente (branca) disse que não conseguiria mais sentir pena dela se ela fosse negra ou que tinham pensado nela como "pura". Ou seja, uma Rue negra não inspiraria pena e não seria pura pra eles. Assim como esses comentários do Idris Ela, as pessoas são extremamente racistas e nem se tocam. É revoltante.

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    2. Pois é e quando você esclarece isso a elas, acabam se sentindo extremamente ofendidas, mas esquecem que preconceito não é opinião. Eita povinho!

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