4 estrelas fantasia fantasia grimdark

Resenha: The Steel Remains, Richard Morgan

15:35neo
A Land Fit for Heroes: The Steel Remains | The Cold Commands | The Dark Defiles
Richard Morgan
Gollancz
★★★★

Um lorde das trevas vai se erguer. Essa é a profecia que segue Ringil Eskiath - ou Gil - um mercenário experiente e um herói de guerra de uma única vez cujo cinismo é superado apenas pela velocidade da sua espada. Gil é distante de sua família aristocrática, mas quando sua mãe pede sua ajuda para libertar uma prima vendida como escrava, Gil sai para localizá-la. Mas logo se torna evidente de que há mais em jogo do que o destino de uma jovem mulher. Feitiçarias sombrias estão despertando na terra. Alguns falam em sussurros do retorno dos Aldrain, uma raça amplamente temida, demônios cruéis, mas bonitos. Agora Gil e dois velhos companheiros são tudo que se interpõem no caminho de uma profecia cuja realização afogará o mundo inteiro em sangue. Mas com heróis como estes, a cura pode se mostrar pior do que a doença.

Acho que vocês já sabem que eu estava no mínimo curiosa sobre esse livro quando o coloquei na minha lista de leitura alguns meses atrás. Uma coisa que geralmente me incomoda muito nas obras de fantasia grimdark que leio é o fato do personagem principal nunca sofrer realmente com a violência usada como acessório para dar algum pseudo-realismo aos mundos onde essas histórias se passam. Mulheres são estupradas, claro, e há racismo e homofobia, mas o protagonista nunca é alvo de nada disso (sendo o homem branco e hétero de sempre) e mesmo assim é meio esperado do leitor que ele se senta mal pelo protagonista ou pelo menos que concorde quando ele, em um ataque de cinismo, fala sobre como o mundo é uma merda mesmo sem ter sentido muito do que faz o mundo ser uma merda de verdade. Enfim, grimdark sempre me pareceu o gênero onde homens brancos e héteros podem choramingar sobre como a vida é ruim usando o sofrimento dos outros para justificar essa "vida ruim", e isso meio que não me interessa porque zZzZzzzZZzz

colunas fantasia grimdark homofobia

Rants literários: o problema com a fantasia grimdark

14:55neo

Sim, eu estou fazendo um rant sobre fantasia grimdark. Aposto que ninguém está muito surpreso, já que estou constantemente expressando o quanto odeio a fantasia grimdark em resenhas por aí. Ontem, por acaso, enquanto matava tempo na hora em que devia estar estudando para minha prova na segunda, acabei em um post que falava justamente sobre a fantasia grimdark e sobre qual, na opinião da autora, era seu problema. Ler esse post foi como finalmente enxergar após ter ficado muito tempo cega. Veja bem, eu já sabia que odiava fantasia grimdark, mas sempre atribuí esse desprezo todo à forma com que vários livros do gênero usam a violência apenas para chocar. Agora, no entanto, percebo que odeio esse tipo de obra por vários outros motivos que até então eu sentia que existia, mas não sabia exatamente quais eram.

Para quem não sabe, a fantasia grimdark é um subgênero da fantasia que abrange livros mais pesados, livros que são famosos por serem mais "realistas", sendo assim considerados por possuírem sexo, violência, drogas, xingamentos, sujeira, morte e personagens cinzentos em suas histórias. Gostaria de deixar claro que não acho que a existência desses elementos seja um problema (personagens cinzentos, aliás, são uma dádiva para o gênero), mas sim o que eles geralmente trazem. E o que eles trazem é justamente o motivo de eu odiar tanto esse subgênero, motivo esse que é estupidamente simples, tão simples que eu não faço ideia do porquê não o notei antes: a fantasia grimdark não é escrita para mim.

Na verdade, a fantasia grimdark não é escrita para você se for ou mulher ou não-branco ou não-heterossexual. Fantasia grimdark é escrita para homens heterossexuais brancos. Simples assim.

Bem, fantasia como um todo sempre foi escrita por homens heterossexuais brancos para homens heterossexuais brancos, mas isso, na minha opinião, se deve ao fato de que até pouco tempo atrás era visto como normal colocar a mulher como um ser inferior nas histórias, ou ignorar totalmente a existência de não-brancos e não-heterossexuais, porque, bem, mulheres eram vistas como inferiores na sociedade, e não-brancos e não-heterossexuais eram completamente invisíveis (e muitas vezes ainda são). Fantasia (e ficção científica também) nasceu sendo escrita por homens heterossexuais brancos para homens heterossexuais brancos porque antigamente eles eram vistos como os únicos que importavam. E nem preciso dizer que hoje em dia as coisas não são mais assim, certo? Foi preciso muita luta e muito murro em ponta de faca para fazer o público geral entender que sim, mulheres, não-brancos e não-heterossexuais precisam e merecem ser representados em tudo, não só na literatura. As coisas finalmente começaram a mudar. Sim, ainda aos poucos, mais para as mulheres (geralmente brancas) do que para não-brancos e não heterossexuais, mas as coisas estavam mudando. Havíamos enfim saído da inércia.

Mas aí a fantasia grimdark ganhou força e de uma hora para outra estávamos mais uma vez de volta à estaca zero. E é por isso que eu a odeio tanto.

Como exatamente a fantasia grimdark nos levou de volta à estaca zero? é o que você pode estar se perguntando, e a resposta é simples. A fantasia grimdark se caracteriza por sua violência, sexo, drogas, xingamentos, sujeira, morte e personagens cinzentos, certo? E, como eu disse, esses elementos não são o problema. O problema é que, na fantasia grimdark, (na maior parte das vezes) a violência significa violência contra a mulher/não-branco/não-heterossexual, sexo significa estupro, xingamentos significa xingamentos contra a mulher/não-branco/não-heterossexual, sujeira, drogas e morte estão presentes apenas para chocar e personagens cinzentos significam apenas personagens amargos e/ou raivosos. Ou seja, esses elementos trazem basicamente sexismo, homofobia, racismo e escrita pobre, e ao invés de colocar a mulher como ser inferior e ignorar não-brancos e não-heterossexuais por influência da sociedade sexista, homofóbica e racista da época, agora o fazemos porque isso é, supostamente, ser realista.

Mas isso é ser realista onde?

Segundo escritores e fãs da fantasia grimdark, na idade média. Mas, ao contrário do que eles pensam, havia sim não-brancos na idade média (prestem atenção na aula de história de vocês, fazendo o favor) e mulheres eram vistas como seres inferiores por culpa da nossa querida Igreja Católica. Ser não-heterossexual era um pecado terrível também por culpa da já citada Igreja Católica. Mas nas fantasias grimdak não existe uma Igreja Católica. Na verdade, nos livros do tipo que eu li, quase nunca há a presença forte de qualquer tipo de igreja.

Ou seja, esses livros são sexistas, racistas e homofóbicos sem ter uma explicação plausível. Esses autores estão tomando emprestado coisas da nossa idade medieval para colocar na história deles sem pensar duas vezes em qualquer tipo de explicação ou justificativa, sem refletir sobre causa e consequência, apenas porque ser sexista, racista e homofóbico é supostamente "realista". Ironicamente, o único livro grimdark que eu conheço com uma presença forte da igreja é o que estou lendo agora, A Canção do Sangue, e até o momento as (poucas) mulheres apresentadas foram bem retratadas. Em conclusão: o já batido argumento de "as coisas eram assim na idade média, então nós estamos apenas sendo realistas" não é válido. E, pelo amor de todos os deuses, existentes ou não, por que diabos sempre querem basear tudo na idade média? Eu só consigo ver um motivo: preguiça e zona de conforto. Sem mais.

E é por isso que fantasia grimdark não é escrita para mim. Eu, como mulher e pessoa provavelmente não-heterossexual, não tenho espaço algum em histórias desse tipo. Quando vou contra meu sexto sentido e pego uma fantasia grimdark para ler, eu já a começo sabendo que as mulheres ali provavelmente só servirão para serem estupradas, objetificadas e deixadas de lado, e sei também que terei que aguentar homens (brancos e heterossexuais em 99% das vezes) fazendo piadinhas obscenas e degradantes sobre mulheres o tempo todo. E isso enche o saco. Já cheguei ao ponto de me sentir fisicamente cansada ao ler um livro de fantasia grimdark de tão frustrada que já estou com o subgênero a essa altura do campeonato.

E o mais frustrante ainda é saber que esse tipo de coisa continua acontecendo não por causa de uma coisa difícil de se mudar como a visão de uma sociedade de certa Ã©poca, mas sim porque esses autores (em sua esmagadora maioria homens brancos heterossexuais) decidiram que é "realista" ser homofóbico, racista e sexista. Mas, surpresa!, não é.

Outro argumento que já vi um autor de fantasia grimdark usar para defender obras assim é que "às vezes o mundo é uma merda mesmo", e desculpe, mas é uma merda para quem? Para seu protagonista homem branco e heterossexual que escolheu ser um mercenário sanguinário e acabou perdendo a família? Sério? Porque pra mim ele é uma merda mesmo para as mulheres que seu mercenário sanguinário e colegas estupraram, para os não-brancos que na maioria das vezes sequer existem, e que quando existem são tratados como selvagens estúpidos, e também para os não-heterossexuais, que estão em um estado ainda pior de não existência. E quando existem, principalmente se forem mulheres lésbicas, é quase certeza de que acabarão estuprados e mortos.

Ou seja, o mundo é uma grande merda para todo mundo, menos para o protagonista branco heterossexual, que vive em estado de angst por causa muitos menores. Por que será, me pergunto, que isso não me surpreende nem um pouco?

E é por isso que acredito que a fantasia grimdark nos levou de volta à estaca zero. Não mais temos sexismo, racismo e homofobia em livros de fantasia por questões externas, mas sim porque se tornou regra. E quem não obedece essa regra é imediatamente colocado como inferior por ser "irreal". Já perdi a conta de quantas vezes vi um fã de fantasia grimdark zombando dos outros tipos de fantasia porque, na opinião deles, esses outros tipos de fantasia não são "sérios". São fracos, são livros para crianças. Fortes mesmo, sérios mesmo, são aqueles que leem fantasia grimdark, porque ela mostra o mundo como ele realmente é, e isso obviamente inclui racismo, sexismo e homofobia sem causa ou explicação. Bônus se tiver escrita pobre, já que agora todo personagem é um babaca, e aqueles que não são acabam vistos como idiotas.

Sinceramente? Me poupem. Sério. Bleh.

Mas Lynx, você pode estar se perguntando, por que esses autores querem tanto continuar considerando racismo, homofobia e sexismo como realismo?

Na minha opinião, sendo bem sincera: porque não os atinge e nem à maioria dos seus personagens principais. Veja essa lista aqui, a lista de grimdarks segundo o Goodreads. Veja quantos tem protagonistas femininas. Ou não-brancos, ou não-heterossexuais. Praticamente nenhum, né? É por isso que racismo, homofobia e sexismo vão continuar como a norma na fantasia atual, porque racismo, homofobia e sexismo garantem que o homem heterossexual branco vai continuar como protagonista. E obviamente é isso que homens heterossexuais brancos querem.

E gostaria de lembrar que a maioria esmagadora de escritores de fantasia, grimdark ou não, é formada por homens brancos heterossexuais. Interessante, né? Ha.

Não direi mais nada. Acho que nem preciso. A verdade está aí para quem quiser ver.

(texto que li ontem e me motivou a fazer esse post - em inglês).

fantasia fantasia grimdark literatura estrangeira

Resenha: O Poder da Espada, Joe Abercrombie

17:45neo
A Primeira Lei: O Poder da Espada | Antes da Forca | Duelo de Reis
Joe Abercrombie
Arqueiro
★½
Sand dan Glokta é um carrasco implacável a serviço da Inquisição de Sua Majestade. Nas mãos dele, os supostos traidores da Coroa admitem crimes, apontam comparsas e assinam confissões – sejam eles culpados ou não. Por ironia, Glokta é um ex-prisioneiro de guerra que passou dois anos sob tortura.
Mas isso nunca teria acontecido se dependesse de Logen Nove Dedos. Ele jamais deixaria um inimigo viver tanto tempo. Só que isso foi antes. Agora ele está decidido a mudar. Não quer ser lembrado apenas por seus feitos cruéis e pelos muitos inimigos que se alegrarão com sua morte.
Já a felicidade do jovem e mulherengo Jezal dan Luthar seria alcançar fama e glória vencendo o Campeonato de esgrima, para depois ser recompensado com um alto cargo no governo que lhe permitisse jamais ter um dia de trabalho pesado na vida. Mas há uma guerra iminente e ele pode ser convocado a qualquer momento. Luthar sabe que, nos campos do Norte gelado, o embate segue regras muito menos civilizadas que as do esporte.
Enquanto a União mobiliza seus exércitos para combater os inimigos externos, internamente se formam conspirações sanguinárias e um homem se apresenta como o lendário Bayaz, o Primeiro dos Magos, retornando do exílio depois de séculos. Quem quer que ele seja, sua presença tornará as vidas de Glokta, Jezal e Logen muito mais difíceis. Agora a linha que separa o herói do vilão pode ficar tênue demais.
Esse livro estava acumulando pó aqui em casa há quase um ano. Lembro de tê-lo comprado porque falavam muito bem dele e do escritor, o Abercrombie. Aliás, eu via "Abercrombie" sendo citado a torto e a direito como praticamente um gênero novo: uma fantasia mais realista, sombria e tão crua que fazia alguns leitores se sentirem até desconfortáveis. Quando o comecei a ler, porém, há alguns meses atrás, não passei da página 150 e o coloquei de lado por outro livro qualquer. Não foi exatamente porque o achei ruim (lembro-me de ter até mencionado para vocês aqui [do tumblr, já que o blog foi criado bem depois dessa época] que não o tinha achado ruim, mas que também não tinha me sentido muito disposta a continuar), então resolvi dar a Abercrombie uma nova chance de me mostrar essa fantasia sombria e, segundo muitos, maravilhosa.

Dessa vez não precisei nem chegar à página 100 para perceber que meu santo provavelmente não bate com o do Abercrombie.

Livro, me peguei dizendo para o dito cujo. Livro, você vai me fazer parecer a leitora chata mais uma vez. Você é supostamente um novo clássico da literatura fantástica, o debut de uma nova voz do gênero. Por que você não é bom?Tinha esperança de que as coisas iriam melhorar, então continuei, mas lá pela página 250 eu já estava prestes a arrancar meus olhos. Por sua culpa, livro, pensei, vou acabar sendo a do contra de novo. De novo!

Dito e feito. Aqui estou eu, sendo a do contra de novo. A essa altura do campeonato eu nem me sinto mais culpada em não gostar de algo tão bem falado, mas não gostar tantas vezes de livros considerados tão bons vai acabar me rendendo fama de megera. Well.

¯_(ツ)_/¯

Enfim, tive tantos problemas com esse livro que nem sei por onde começar, tantos que acho que essa vai ser uma das resenhas mais longas que já fiz, então vamos por partes.

Primeiro, a escrita. Nas descrições e nas cenas de ação (Abercrombie é tão bem falado para cenas de ação que se elas não fossem boas eu perderia minha fé no GoodReads) ela era até mesmo ótima, e é exatamente por isso que não dei apenas uma estrela para esse livro. A segunda está aí apenas por esses poucos momentos em que pude ler sem revirar os olhos. Mas os diálogos... Gente, os diálogos foram horríveis. Eu nunca vou entender porque usar tantas exclamações o tempo todo (na verdade eu entendo. Acho que já comentei isso em uma resenha de O Espadachim de Carvão, mas exclamações em excesso, itálicos em demasia e caps lock a todo momento são atalhos, sinais de que o autor não quis gastar tempo ou esforço caracterizando o personagem e/ou descrevendo a cena, então né, lazy writing oops), porque o Abercrombie não passa uma fala sem usar pelo menos três. Passei o livro todo imaginando personagens se esgoelando uns pros outros em situações em que isso não fazia o menor sentido. E isso irrita demais! Olha só! Como parece que estou desesperada te gritando! Quando na verdade não há motivo algum para isso! Uma exclamação de vez em quando é suficiente! Alguém por favor diga isso ao Abercrombie!

Segundo, esse livro não tem propósito nenhum. Nenhummesmo.

Acho que já mencionei aqui no tumblr [no blog não falei nada], mas logo quando comecei a procurar dicas de escrita, isso há uns dois anos atrás, uma que eu vi sendo repetida a todo momento foi a que dizia que o plot de um livro é feito, entre outras coisas, pelos objetivos dos personagens principais, e que fazer personagens que são apenas guiados pelo plot de um lado para o outro é receita para o fracasso. O Poder da Espada, no entanto, é uma obra cheia desses personagens passivos (e faz sucesso, né), e por isso mesmo tem um dos plots mais vagos e soltos que eu já vi na vida. Os personagens não querem nada e quando querem não é mais do que por dois capítulos, que é basicamente o tempo que eles levam para alcançar esse objetivo. Vejamos: Jezal quer, supostamente, vencer o campeonato lá, certo? Mas ele não quer de verdade. Quem quer é o pai dele, quem exige é a sociedade em que ele vive, e não ele. E quando ele passa a querer (graças a um plot device pra lá de ridículo, vale frisar), é por apenas um ou dois capítulos e acabou. O Glokta só faz alguma coisa porque seus superiores o mandam (salvo uma única ocasião, que é logo deixada de lado depois), ele literalmente não quer nada e só responde as ordens de Glokta, faça isso, Glokta, faça aquilo lá, etc, etc, etc. O Logen então é ainda pior; ele escapa dos shankas e encontra o Primeiro dos Magos, que estava procurando por ele, e depois passa a segui-lo por aí sem sequer perguntar o porquê do Primeiro dos Magos querer levar ele para sei lá onde. Joe Abercrombie, isso é conveniente demais, pelo amor de Deus.

Esse livro só serviu para colocar os personagens no lugar certo para o volume dois, onde a história aparentemente começa de verdade, e é por isso que O Poder da Espada não passa de um grande prólogo. Um grande, tedioso e irritante prólogo. Teria sido muito mais fácil resumir o pseudo-enredo todo em dois parágrafos e lançar o volume 2 como 1. Garanto que teria me poupado muita coisa.

Terceiro, o livro tem uma plotline de romance que é basicamente um YA desses que todo mundo odeia, só que para garotos.

Conheçamos nosso casal: Jezal, um nobre arrogante, mimado e um babaca de marca maior que se acha a última bolacha do pacote, popular com as garotas, mas que é um espadachim habilidoso e por isso todo mundo meio que tolera ele, já que se espera que ele vença o tal campeonato e consiga uma grande promoção depois. Isso é literalmente tudo que se pode dizer sobre ele (cadê os personagens complexos do Abercrombie, hm?). Deixa eu YAzificar (?) ele para você: Jezal, um garoto rico arrogante, mimado e um babaca de marca maior que se acha a última bolacha do pacote, popular com as garotas, mas que é um ótimo jogador de futebol/baseball/whatever e por isso todo mundo meio que tolera ele, já que se espera que ele ganhe o campeonato de futebol/baseball/whatever e ganhe uma bolsa para alguma faculdade famosa por aí.

O que o Jezal é em ambos universos? O garanhão popular com uma personalidade horrível que dorme com muitas garotas e acha que amor é uma besteira, certo?

Agora a outra metade: Ardee, uma plebeia do norte distante, que ao contrário de todas as damas da capital, fala o que pensa e é inteligente. Além disso, obviamente não é um palito como as já citadas damas da capital, mas tem um corpo lindo e é, no geral, estonteante. YAzificando: Ardee, uma garota do interior, que ao contrário das meninas populares não é "fútil" e nem burra. Além disso, obviamente não é uma loira oxigenada e nem passa dez horas por dia em uma academia e nem se esforça o máximo para pegar aquele bronzeado, mas tem um corpo lindo e é, no geral, estonteante.

O que Ardee é em ambos universos? A famosa Garota Que Não é Como Todas As Outras e Que Por Isso Vale a Pena, oras. Para aqueles que não leem YA, isso é basicamente toda protagonista do gênero. Tada.

E o que acontece quando você junta o Garoto Garanhão Rico com a Garota Que Não É Como Todas As Outras?

Ele muda!

De uma hora para outra, todas aquelas garotas com quem ele fazia a farra antes não têm mais graça. Agora elas são pálidas se em comparação com a Garota Que Não é Como Todas as Outras, fúteis e sem sal, sem brilho. O amor passa a existir! (╮(. ❛ á´— ❛.)╭) O Garoto Garanhão Rico se apaixona tanto por ela que até mesmo ouvir outros caras falarem coisas indecentes sobre ela, como ele fez sua vida toda sobre outras garotas, o irrita a ponto de fazê-lo explodir de raiva! Ele se torna basicamente um cachorro babão atrás dela, porque é isso que o amor faz!

Romântico, não é?

Ora, faça-me o favor. (;¬_¬)

Enfim, quarto, O Poder da Espada é cheio de clichés. Sim, clichés. Por favor espere um minuto antes de me jogar pedra, certo? Certo.

Antigamente, clichés no gênero de fantasia eram bem simples: O mestre, geralmente um mago, sábio e velho. O guerreiro nobre e honrado. A donzela em perigo. Os elfos como seres superiores. Todos os nobres sendo cavaleiros incríveis e bons, ajudando assim os pobres. O escolhido, geralmente um garoto pobre e/ou de fazenda. A profecia. O Lorde das Trevas/Escuridão. Blá blá blá.

Mas, surpresa, isso mudou. E acho que podemos culpar o Martin por essa mudança; ele tem algum crédito, ao menos.

Agora os clichés são outros: a nobreza toda não presta. O mundo é ruim, muito ruim, e usar pseudo-violência o tempo todo é o jeito mais fail eficiente de mostrar isso. A guria agora pode até ser uma donzela, mas tem pseudo-personalidade (lê-se: não é completamente dócil). Quando não é uma donzela, ela é completamente experiente e controla o herói facilmente, transformando-o no famoso cachorro babão. Quase nunca há mestre mais; os personagens já são todos bem crescidinhos e são guerreiros/mercenários formidáveis com um passado negro e sombrio. Bonus point se eles já tiverem matado muita gente. Bonus point em dobro se agora eles se arrependem por isso. Os pobres, quando não mercenários/ladrões, são gente decente e honesta castigada pelos maus tratos da nobreza. Agora todo mundo tem falhas (yay!), mas infelizmente muitos autores frequentemente se esquecem de que falha =/= personagem complexo.

Tada.

O Poder da Espada tem muitos desses clichés, mas o que mais me irritou foi o da nobreza toda não prestar. Principalmente se tratando das mulheres. Aqui, mais uma vez, Abercrombie deu uma de escritor de YA para garotas, só que como é fantasia a gente diz que é para garotos, certo? Todas as damas apresentadas no livro (não foram muitas, mas né) são colocadas pra baixo por usarem roupas bonitas e maquiagem, e todas são consideradas cabeças ocas que não pensam e só se viram com a ajuda de a) um homem b) uma governanta (que obviamente pensa, já que não é rica e nem uma dama). YAzificando: todas as garotas do colégio são patricinhas que só querem saber das fofocas e de roubas de marca, e que vivem se arrumando ao máximo para ir para as aulas. Porque é um crime se maquiar. E gostar de fofoca. Ou de roupa de marca. Sentença de morte se você ousar acompanhar revistas para garotas, porque estas são obviamente fúteis e você consequentemente se torna fútil. Boa mesmo é a Garota Que Não É Como Todas As Outras, que não usa maquiagem e gosta de roupas largas (ela não seria que nem essas garotas que mostram o corpo por aí!), joga video game e lê HQs ou mangás. Lembre-se: ser feminina é um crime e a punição é ser chutada para sempre para o canto das Garotas Fúteis. Cuidado!

Homens também não escapam. Todos da nobreza são egoístas que só pensam em si mesmo (e em dinheiro) e que não fariam nada pelo reino nem em mil anos. O único a ocupar um cargo de importância que é bom e honesto, surpresa!, é de nascimento plebeu! Ha!

눈_눈

(Uma petição para o Abercrombie escrever """"YA para garotas"""", que tal? Ele com certeza tem talento.)

Quinto, não há personagens femininas dignas (na verdade não há personagens dignos, mas duas mulheres apenas, então prossigamos). A Ardee só serve para (tentar) desenvolver o Jezal. A Ferro quer vingança e está com raiva. E só.

Sexto, que diabos foi aquilo no fim do livro? Era literalmente três parágrafos para um personagem e puf!, mudança de POV, mais três parágrafos para outro personagem e puf!, mudança de POV, e assim por diante. Irritante demais e sem propósito demais. E o clímax do livro foi uma piada, até porque o livro não tinha plot pra ter clímax. Triste.

Concluindo, O Poder da Espada foi um livro arrastado, sem personagens bons, com uma escrita razoável se você ignorar os diálogos, cheio de clichés e com um dos romances mais mimizentos que já li (e eu pensando que isso era exclusividade de YAs). Nada acontece nunca, o plot é inexistente, o clímax é inexistente, a mudança de POVs em vários momentos quebra o ritmo, e enfim, a coisa não presta, na minha opinião. Se quer ler uma ~fantasia realista~, recomendo qualquer outro livro, menos esse.

E depois dessa Bíblia percebi que duas estrelas é demais para O Poder da Espada. 1.5 então. E que venham as pedras (ou não).
fantasia fantasia grimdark literatura estrangeira

Resenha: Prince of Thorns, Mark Lawrence

16:20neo
Trilogia dos Espinhos: Prince of Thorns | King of Thorns | Emperor of Thorns
Mark Lawrence
DarkSide Books


Tem início a Trilogia dos Espinhos: Ainda criança, o príncipe Honório Jorg Ancrath testemunhou o brutal assassinato da Rainha mãe e de o seu irmão caçula, William. Jorg não conseguiu defender sua família, nem tampouco fugir do horror. Jogado à sorte num arbusto de roseira-brava, ele permaneceu imobilizado pelos espinhos que rasgavam profundamente sua pele, e sua alma. O príncipe dos espinhos se vê, então, obrigado a amadurecer para saciar o seu desejo de vingança e poder. Vagando pelas estradas do Império Destruído, Jorg Ancrath lidera uma irmandade de assassinos, e sua única intenção é vencer o jogo. O jogo que os espinhos lhe ensinaram. 





Essa é a segunda resenha que faço desse livro. Na primeira não consegui expressar muito bem o porquê dessa história me dar nos nervos, mas agora, depois de um ano desde que a li, posso finalmente colocar em palavras o meu, hm, desprezo, pela obra de Mark Lawrence.

Vou logo dizendo que eu esperava muito desse livro. Tipo, muito mesmo. Foi o primeiro (e até agora infelizmente o único) livro da editora DarkSide Books que comprei, e a edição é simplesmente maravilhosa. Acho que já devem ter lido isto em outras resenhas, mas só para reforçar: a editora fez um trabalho excelente com Prince of Thorns. Pena que a história não chega nem perto de ser tão boa quanto a embalagem em que ela é vendida.

Meu problema com Prince of Thorns foi a cena de estupro. Sim, tem uma cena de estupro. Na verdade ela não passa de um parágrafo, se eu me recordo bem, e acontece bem no início. Acho que Lawrence deu um tiro no próprio pé quando a colocou nos primeiros capítulos, falando nisso; depois dela, qualquer conexão minha com a história foi cortada sem dor nem piedade.

Eu já li várias e várias entrevistas com o autor e ele sempre diz que seu protagonista, Jorg Ancrath, irá chocar muitos e que "não é para qualquer um". Sendo bem sincera, acho que ele usa a desculpa de que o Jorg é um anti-herói para tornar tudo o que ele faz "aceitável" ou, no mínimo, esperável. E, me desculpe, mas isso não cola comigo não. Eu adoro muitos e muitos anti-heróis, principalmente em animes (Lelouch de Code Geass, Vincent de Pandora Hearts, Alone de The Lost Canvas são apenas alguns exemplos), então não foram as morais meio distorcidas do Jorg que me fizeram odiá-lo. Quem conhece o Lelouch, o Vincent e o Alone sabem muito bem que eles matam a torto e a direito, e que muitas vezes são pura e simplesmente cruéis, mas ainda assim acho-os personagens fascinantes e torço por eles. Mas com Jorg eu não consegui fazer isso, e o problema todo foi o uso de plot devices ridículos que tentavam, desesperadamente, transformá-lo em um personagem cruel e sem escrúpulos, mas interessante. Lawrence, para mim, falhou miseravelmente nesse quesito.

Eu não sou contra o uso de estupro, assassinato e outras coisas "feias" em uma história (afinal, histórias refletem o nosso mundo e nosso mundo é assim, certo?), mas o uso do estupro em especial tem que ser feito com muito cuidado. Eu sou mulher e digo sem hesitar que preferiria morrer a ser estrupada e, acredite, não sou nem de longe a única a pensar desse jeito. Então ler um protagonista - um pirralho de 13 ou 14 anos se não me engano - estuprar garotas de fazenda antes de atear fogo nelas foi uma das minhas experiências mais frustrantes como leitora. Não exatamente pela ação em si (o protagonista é seu e você faz o que quiser com ele, Lawrence), mas sim pelo pouco caso com que a coisa toda foi tratada. Foi como colocar letras garrafais em neon brilhante apontadas para o Jorg formando as palavras, esse é meu protagonista cruel, diferente e que choca as pessoas com sua maldade!!! Olha como ele é terrível!!! Todos devem se chocar com meu anti-herói!!!

Resumindo, caracterização pobre, barata e inconsequente. Sabe por que inconsequente? Porque eu já perdi a conta de quantas vezes vi alguém que tenha lido Prince of Thorns dizendo coisas como, o Jorg é foda! ou o Jorg é badass! e isso sinceramente me faz questionar a fé que tenho na humanidade. Porque essas pessoas estão chamando um estuprador de "foda" e "badass" com admiração, e isso faz meu estômago revirar.

Mas então, você deve estar pensando, você está dizendo que matar está liberado, mas estuprar não?, e sim eu estou dizendo basicamente isso, sendo bem sincera. Sabe por quê? Porque ao matar alguém você, bem, acaba com a pessoa. Ela já era, já foi, não pode sentir ou fazer mais nada. Quem sofre não é quem morre; é quem fica, são os amigos e família da pessoa que morreu, não ela. Mas quando você estupra alguém a pessoa continua viva, e muitas vezes se arrepende disso. Estupro, para mim, é pior que a morte porque ser estuprada pode fazer você querer estar morta, e há pouquíssimas coisas que eu considero piores do que desejar acabar com sua própria vida. Estupro pode te matar por dentro e, por isso, para mim é mil vezes pior do que morrer de verdade.

Acho que posso concluir então que meu problema com Prince of Thorns não é sequer a cena de estupro. É a ideia que a obra passa; a de que é normal você admirar alguém que cometeu tal ato, que é normal você torcer por essa pessoa simplesmente porque ela é a protagonista. Acredito que o autor poderia ter evitado isso se ele tivesse se esforçado um pouco mais, até porque não é crime nenhum contar a história de um pirralho babaca que se acha demais e que estupra garotas de fazenda. O que deveria ser crime é implicar que isso tudo é explicável pelo fato de que o tal garoto babaca é um anti-herói. Ou usar violência a torto e a direito para chocar simplesmente porque você não consegue caracterizar bem seu garoto babaca que estupra garotas de fazenda.

Então resumindo mais uma vez: não me importo com violência em livros, filmes, animes ou o diabo que for, desde que ela não seja usada para substituir uma caracterização séria e eficiente (ou seja, desde que não seja usada apenas para chocar), ou quando o autor/diretor/whatever tenta justificar sua presença dizendo que o personagem é assim mesmo (o que mais uma vez indica uma caracterização fracassada, já que você não deveria ter que me dizer que tal personagem é um anti-herói com morais distorcidas se tivesse feito um bom trabalho na sua obra). Simples assim.

Acho que eu até poderia ter continuado a ler a Trilogia dos Espinhos se a história fosse interessante. Sabe quando você lê algo mesmo odiando o protagonista porque o resto vale a pena? Então, essa poderia ter sido minha relação com essa história. Mas não pude continuar porque o resto, surpresa!, não vale a pena. Os personagens secundários são unidimensionais e chatos, a escrita é rasa, o final tem um senhor deux ex machina e mesmo que o Jorg não fosse um pirralho estuprador ele seria, bem, um pirralho (não, não me desce um garoto de 13/14 anos comandando bandidos cruéis e blá blá blá) que se acha muito esperto e que se tem em alta conta, mas que na verdade não passa de um moleque sendo o manda-chuva porque o plot said so. Triste, de verdade. A ideia geral de Prince of Thorns é maravilhosa, mas a execução não lhe faz justiça.

E conte quantas mulheres existem nessa história. Me lembro de apenas dessas: a rainha mãe (morta, provavelmente sofreu todo tipo de coisa antes de morrer), as garotas de fazenda (estupradas e mortas) e a guria que provavelmente vai ser um projeto de interesse romântico do Jorg, a Catherine/Catherina or something (Jorg meio que quase estrangula ela lá mais pro fim do livo) e a feiticeira (obviamente linda e/ou sexy, também acaba morta se me lembro bem). Acho que são só essas e bem, alguém além de mim vê algo de errado nisso?

E antes que alguém venha com mimimi a história se passa em um mundo medieval onde as mulheres eram tratadas como lixo mesmo mimimi porque eu sei que isso é verdade, e ao contrário de muita gente por aí acho meio desconexo querer retratar mulheres sendo iguais aos homens em histórias baseadas na Europa medieval, até porque as mulheres não eram tratadas bem nessa época e mudar isso meio que nega o que elas passaram para mim (mas é maravilhoso criar culturas diferentes onde mulheres são tratadas iguais aos homens e eu desesperadamente quero ver mais disso em livros de fantasia - mas a maioria dos autores, infelizmente, estão acomodados demais na Europa medieval e nas mulheres submissas para realmente fazerem algo), então o problema é não fazer nada na história que mostre que essa concepção (mulher = lixo) está errada. Esse "fazer algo na história" pode ser criar um personagem (de preferência uma mulher) que desafie essas normas ou ter um país com uma cultura diferente que valorize as mulheres do mesmo modo que valoriza os homens e mostrar como essa cultura de mulheres como seres inferiores é estúpida. Mas isso não acontece em 90% dos livros de fantasia ambientados em um mundo parecido com a Europa medieval porque os autores pensam que só porque a coisa era assim eles podem continuar escrevendo como se fosse certo ou normal. E não podem, me desculpem. É um saco - um saco! [sinta minha frustração] - ser mulher e ler fantasia apenas para ver a maior parte das mulheres serem tratadas como objetos sexuais e/ou seres inferiores sem que o autor faça o menor esforço para mostrar que esse tipo de visão e comportamento é errado. E olha que fantasia é meu gênero preferido, mas há momentos em que considero me mudar de vez para o paranormal/sobrenatural mesmo que a coisa por lá não seja a oitava maravilha do mundo, já que pelo menos é melhor do que na fantasia.

Então após essa Bíblia aqui está o porque de eu desprezar Prince of Thorns tanto de modo resumido: essa história contém praticamente tudo de ruim que um livro de fantasia é capaz de ter. Ou seja, violência apenas para chocar/substituir caracterização, personagens unidimensionais, um único personagem não branco que é basicamente uma trope, nenhum personagem LGBT+, mulheres sem importância alguma para a história, escrita fraca e um dos deux ex machina mais descarados que já tive a infelicidade de ler. Então é, Prince of Thorns é um dos piores livros que já li. 1,0 estrela.

Formulário de contato