3.0 estrelas fantasia histórica fantasia lgbtq

Resenha: A Canção de Aquiles, Madeline Miller

12:06neo
A Canção de Aquiles
Madeline Miller
Bloomsbury Publishing
★★★

Greece in the age of heroes. Patroclus, an awkward young prince, has been exiled to the court of King Peleus and his perfect son Achilles. Despite their difference, Achilles befriends the shamed prince, and as they grow into young men skilled in the arts of war and medicine, their bond blossoms into something deeper - despite the displeasure of Achilles' mother Thetis, a cruel sea goddess.
But when word comes that Helen of Sparta has been kidnapped, Achilles must go to war in distant Troy and fulfill his destiny. Torn between love and fear for his friend, Patroclus goes with him, little knowing that the years that follow will test everything they hold dear. 

Acredito que não seja segredo nenhum que eu esperava muito desse livro. Sempre gostei da história da guerra de Troia, e uma versão dela como personagens LGBTQ parecia perfeita pra mim. Mas não funcionou. The Song of Achilles foi decepcionante.

4 estrelas fantasia fantasia grimdark

Resenha: The Steel Remains, Richard Morgan

15:35neo
A Land Fit for Heroes: The Steel Remains | The Cold Commands | The Dark Defiles
Richard Morgan
Gollancz
★★★★

Um lorde das trevas vai se erguer. Essa é a profecia que segue Ringil Eskiath - ou Gil - um mercenário experiente e um herói de guerra de uma única vez cujo cinismo é superado apenas pela velocidade da sua espada. Gil é distante de sua família aristocrática, mas quando sua mãe pede sua ajuda para libertar uma prima vendida como escrava, Gil sai para localizá-la. Mas logo se torna evidente de que há mais em jogo do que o destino de uma jovem mulher. Feitiçarias sombrias estão despertando na terra. Alguns falam em sussurros do retorno dos Aldrain, uma raça amplamente temida, demônios cruéis, mas bonitos. Agora Gil e dois velhos companheiros são tudo que se interpõem no caminho de uma profecia cuja realização afogará o mundo inteiro em sangue. Mas com heróis como estes, a cura pode se mostrar pior do que a doença.

Acho que vocês já sabem que eu estava no mínimo curiosa sobre esse livro quando o coloquei na minha lista de leitura alguns meses atrás. Uma coisa que geralmente me incomoda muito nas obras de fantasia grimdark que leio é o fato do personagem principal nunca sofrer realmente com a violência usada como acessório para dar algum pseudo-realismo aos mundos onde essas histórias se passam. Mulheres são estupradas, claro, e há racismo e homofobia, mas o protagonista nunca é alvo de nada disso (sendo o homem branco e hétero de sempre) e mesmo assim é meio esperado do leitor que ele se senta mal pelo protagonista ou pelo menos que concorde quando ele, em um ataque de cinismo, fala sobre como o mundo é uma merda mesmo sem ter sentido muito do que faz o mundo ser uma merda de verdade. Enfim, grimdark sempre me pareceu o gênero onde homens brancos e héteros podem choramingar sobre como a vida é ruim usando o sofrimento dos outros para justificar essa "vida ruim", e isso meio que não me interessa porque zZzZzzzZZzz

4.5 estrelas fantasia fantasia lgbtq

Resenha: The Mirror Empire, Kameron Hurley

22:33neo
The Worldbreaker Saga: The Mirror Empire | Empire Ascendant | +?
Kameron Hurley
Angry Robot
★★★★½
Nas vésperas de um evento catastrófico recorrente conhecido por extinguir nações e remodelar continentes, uma órfã problemático escapa da morte e da escravidão para descobrir seu próprio passado sangrento... Enquanto um mundo vai para a guerra contra si mesmo.
No reino congelado de Saiduan, invasores de outro reino estão dizimando cidades inteiras, deixando para trás nada além de cinzas e ruínas.
À medida que a estrela negra do cataclismo surge, um governante ilegítimo tem a tarefa de manter unido um país fraturado pela guerra civil, um jovem lutador precoce é convidado a trair sua família e uma general meio-Dhai tem que decidir entre a erradicação do povo de seu pai e a lealdade para com sua Imperatriz alienígena.
Através de alianças tensas e traições devastadoras, os Dhai e seus aliados tentam se manter contra uma força aparentemente imparável enquanto nações inimigas se preparam para um encontro de mundos tão antigo quanto o próprio universo.
O final, um mundo se erguerá - e muitos perecerão.

Antes de dizer o que achei de The Mirror Empire, devo informar que tenho a mania de seguir autores de livros que não li ainda no Twitter, e que geralmente vou movendo suas obras pra cima (ou pra baixo) na minha lista de leitura a depender da impressão que eles me causam. Apressei-me para ler The Mirror Empire justamente porque a Hurley conseguiu colocá-lo lá em cima na lista e o principal motivo foi simples: o fato de que ela sabia sobre e parecia disposta a desafiar o que hoje considero o maior defeito da fantasia atual, que, é claro, é a insistência do gênero em apagar mulheres, pessoas de cor e pessoas LGBTQ de suas histórias.

5 estrelas fantasia fantasia lgbtq

Resenha: Captive Prince, C.S. Pacat

17:58neo
The Captive Prince Trilogy: Captive Prince | Prince's Gambit | Captive Prince #03
C.S. Pacat
Penguin Books
★★★★★
Damen é um herói para seu povo e o verdadeiro herdeiro do trono de Akielos, mas quando seu meio-irmão toma o poder, Damen é capturado, despojado de sua identidade e enviado para servir o príncipe de uma nação inimiga como um escravo de prazer.Bonito, manipulador e mortal, seu novo mestre príncipe Laurent simboliza o pior da corte de Vere. Mas na teia política letal da corte veretiana nada é o que parece, e quando Damen se vê preso em um jogo pelo trono, ele deve trabalhar em conjunto com Laurent para sobreviver e salvar seu país.Para Damen, há apenas uma única regra: nunca, jamais, revelar sua verdadeira identidade. Porque o homem que Damen precisa para escapar é o único com mais motivos para odiá-lo do que qualquer outra pessoa…*

Eu estava tão pronta para odiar esse livro.

É sério. Encontrei-o no Goodreads na mesma ocasião em que achei Luck in the Shadows, quando estava procurando por livros de fantasia com diversidade (tanto de sexualidade quanto de raça), e a sinopse me fez ficar meio ew. Veja bem, como comentei na resenha de Luck in the Shadows, a literatura de fantasia LGBTQ é voltada principalmente para o romance, coisa que eu não aprecio muito por não gostar de livros só de romance, mas outro aspecto também contribui para esse “desgosto” meu: o fato de que a maior parte desses livros sempre acaba sendo de erótica.

Nope, eu não tenho nada contra quem lê ou escreve histórias assim, mas quando 90% dos livros de fantasia LGBTQ (mais os que falam de romance entre homens) é assim isso é sinal de que há um problema, e esse problema se chama fetish. Sabe a cena lésbica protagonizada por mulheres heterossexuais em O Festim dos Corvos, quarto livro de ASOIAF? Aquilo é um presente para os homens heterossexuais que leem esses livros. É fetish, e é banalizar e rotular esse tipo relacionamento apenas para satisfazer um grupo entre os leitores, porque, bem, alguns homens acham mulheres lésbicas sexy (mas apenas se forem bonitas, do contrário é feio e repugnante). E isso também acontece com algumas mulheres, que também acham homens gays sexy (novamente, apenas se forem bonitos). Como são os homens que mandam na mídia mainstream, a “fetishzação” (?) de relacionamentos lésbicos aparece na TV e nos livros de sucesso, e como mulheres geralmente não têm vez, a “fetishzação” de relacionamentos gays fica restrito a nichos literários minúsculos se comparados ao tamanho do mercado.

É o que acontece muito com a literatura de fantasia LGBTQ. Estou dizendo que todos são assim? Não. Alguns são eróticos porque são eróticos e acabou, do mesmo modo que romances heterossexuais o são, mas enquanto alguns têm uma qualidade ótima, muitos não se preocupam muito com construção de personagem ou de plot, e dão a impressão de que é o sexo apenas pelo sexo. O que, na minha opinião, não é problema (acredito que se tem público é válido, mas uma não “fetishzação” de relacionamentos LGBTQ seria uma maravilha, sabe); o problema é a total falta de histórias de fantasia LGBTQ que não são assim.

Tem gente que não gosta de livro com sexo ou que não se importa se este não for um elemento frequente, e que gostaria muito de ler histórias LGBTQ que se parecessem mais com as mainstream heterossexuais, que (normalmente) são mais sobre o desenvolvimento do relacionamento do casal ou que possuem um plot não voltado para o romance. (cof eu cof). Acredito inclusive que a literatura de fantasia LGBTQ acaba afastando o público mainstream por ser tão dominada por livros mais sexuais.

Então, sim, mais livros com mais desenvolvimento de personagem/plot para a literatura fantástica LGBTQ, por favor (sexuais ou não, mas de preferência não sexuais e tal).

(Tipo Luck in the Shadows, saca).

Enfim, voltando para Captive Prince, pensei que esse livro se encaixaria totalmente na categoria “‘fetishzação’ de relacionamentos homossexuais”, mas resolvei lhe dar uma chance porque o tanto de resenha dando 5 estrelas para essa história não está no gibi. Baixei os livros e comecei a ler o primeiro volume quando já era de tarde. O resultado? Já era umas 3 da matina quando terminei o livro 2 e lembrei que o mundo existia e que, hey, eu tinha que acordar em três horas para ir pra faculdade. Oops.

(Claro que não dei a mínima pra isso e fui atrás do livro 3 apenas para descobrir que ele ainda não foi lançado) (imaginem minha agonia).

Os personagens, o worldbuilding e a escrita foi o que me fizeram gostar tanto de Captive Prince, tanto que os dois volumes da série foram os únicos a receber 5 estrelas de mim esse ano além de Aprendiz de Assassino da Robin Hobb. 

O mundo de Captive Prince não é muito abrangente. A história se passa quase completamente em Vere, e só recebemos muitas informações mesmo da própria Vere e de Akielos, país de Damen (cujo nome de verdade é Damianos), onde os nomes das pessoas e lugares meio que soam gregos (coisa que não tinha visto antes em livros de fantasia, o que me surpreende porque é uma ideia tão óbvia???). Os dois países praticam a escravidão, mas de modos bem diferentes. Enquanto em Akielos os escravos são tratados com respeito e até mesmo afeto, em Vere eles são vistos como menos que animais. Aliás, Vere é o país mais “diferente” da história, e como o vemos através de Damen, as diferenças culturais entre as duas nações ficam bem evidentes. Homossexualidade não é visto como algo horrível em nenhuma delas, porém, e em Vere relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são muitas vezes preferidos entre pessoas solteiras, já que os veretianos abominam a ideia de filhos bastardos, então relacionamentos entre homem/homem e mulher/mulher são extremamente aceitos e a sociedade os vê como algo normal.

(Um mundo de fantasia sem homofobia??@#$@!!!! Que milagre, hein?)

Há sexo (e estupro) nos livros também, graças à cultura de Vere. Sim, a maior parte desse tipo de violência é direcionada aos escravos (a coisa toda me deixou meio horrorizada e meio ew, mas o Damen também fica completamente horrorizado, então é aquela velha história de choque cultural). [SPOILER PEQUENO] Não há nenhum tipo de interação romântica/sexual entre os personagens principais no primeiro livro, e no segundo isso só acontece lá pro final, o que achei absolutamente fantástico, porque yay, desenvolvimento do relacionamento dos personagens!!!! [FIM DO SPOILER].

A escrita também é ótima. Não é do nível de descrição que eu gosto geralmente, mas é rápida e envolvente, e fez com que eu lesse os dois livros tão sem perceber que nem parecia que eu estava lendo em outra língua. 

Mas o que conquistou mesmo foram os personagens. Captive Prince é interessante porque não se encaixa em fantasia voltada para o plot ou em fantasia voltada para o romance, mas sim em fantasia voltada para os personagens. Todos, dos principais aos secundários, possuem objetivos e personalidades próprias, e isso torna difícil de decidir quem é confiável ou não; não lembro de um sequer que foi reduzido a uma trope ou estereótipo, aliás. 

Apesar de adorar o Damen (os comentários dele são sempre a+), Laurent é de longe, muito longe, o meu preferido. De início pensei que ele fosse ser o já manjado príncipe frio e blá blá blá, mas Laurent é bem mais profundo e bem desenvolvido, e todos os seus relacionamentos com outros personagens são muito interessantes (destaque para o com o Damen, lógico, mas também para o com seu irmão, Auguste, que morreu em uma guerra entre Akielos e Vere e que, hm, foi morto pelo Damen, e o com seu tio, o rei, que se tornou regente e que supostamente deveria governar até que Laurent se tornasse de maior idade, mas que agora meio que não quer devolver o trono). Como eu disse, Captive Prince é mais sobre os personagens, então as intrigas e jogos pela coroa de Vere derivam justamente da relação entre Laurent e seu tio (e por isso eu classificaria essa história como baixa-fantasia).

O relacionamento entre Laurent e Damen, aliás, é incrível e se desenvolve de uma forma totalmente verdadeira. Já cansei de ver essas histórias em que o casal (hetero, homo, não importa) se odeia no início e depois se apaixona, já que na maior parte delas essa transição é feita de modo completamente sem sentido. Em Captive Prince não. O romance é maravilhoso não pelas cenas em que há alguma interação romântica (praticamente inexistentes durante 90% dos dois livros juntos), mas sim porque podemos ver (e sentir) que a coisa toda é real. E uma boa parte disso se deve à caracterização dos personagens, que se mantém consistente durante toda a história. Falando nisso, acho que muitas pessoas não se dão conta de caracterização é a chave para tudo, e se tratando de romance é essencial. Uma caracterização pobre e mal-feita teria feito alguma coisa rolar entre Laurent e Damen no início do livro um, porque muitos escritores pensam que ao escrever romance tem que se colocar interações românticas/sexuais logo de cara, já que supostamente é isso que o leitor quer (é, mas não desse jeito). E se algo tivesse mesmo acontecido entre Laurent e Damen no início isso iria total e completamente contra suas personalidades, o que tornaria a coisa toda irreal, fraca e sem importância. Não faria sentido. Um leitor mais atento acabaria pensando, ei, isso não tem nada a ver com o modo com que o Laurent e o Damen agem e ele estaria certo.

Felizmente, a caracterização da Pacat é uma das melhores que eu já vi. No blog dela há alguns posts sobre como ela estruturou algumas cenas, os dvd commentaries, e nossa, como também sou (uh, quero ser) escritora me bateu até o desânimo ao perceber o quanto de caracterização ela considera antes de escrever uma linha de diálogo, porque eu não me importo tanto com isso, mesmo sabendo que é essencial. Então, né, uma no meio da minha cara pra ver se aprendo.

E para finalizar, os plot twists são ótimos e realmente inesperados. Eu não estava esperando nenhum deles em um livro desse gênero, porque geralmente não há muito cuidado com plot (ou personagem), mas né, eu estava enganada.  

Aliás, tudo nesses livros foi ótimo e eles próprios foram bem inesperados. Nunca mais julgo um livro pela sinopse (tá, julgo, mas pelo menos me comprometo a lhes dar uma chance). Captive Prince foi uma surpresa tão boa que mal posso esperar para comprar os livros de verdade, mas isso só ano que vem (Captive Prince era postado na internet, depois publicado de modo independente e agora foi escolhido por uma editora, que vai lançá-lo de novo, so yay, mal posso esperar para ter minhas edições uwuwuwuwuwu) (e mal posso esperar pelo livro 3, acelera aí por favorzinho, Pacat).

Indico Captive Prince para quem está procurando uma fantasia mais diversa, com personagens excelentes, worldbuilding interessante e escrita envolvente. 5.0 estrelas.

*tradução livre
fantasia fantasia lgbtq literatura estrangeira

Resenha: Luck in the Shadows, Lynn Flewelling

13:52neo
The Nightrunner Series: Luck in the Shadows | Stalking Darkness | Traitor's Moon | Shadows Return | The White Road | Casket of Souls | Shards of Time
Lynn Flewelling
Bantam Spectra
★★★★
Quando o jovem Alec de Kerry é feito prisioneiro por um crime que não cometeu, ele tem certeza de que sua vida está chegando ao fim. Mas uma coisa que ele jamais esperava era seu companheiro de cela. Espião, ladino, ladrão e nobre, Seregil de Rhiminee é muitas coisas - e nenhuma delas é previsível. E quando ele oferece tomar Alec como seu aprendiz, muitas coisas podem nunca mais ser as mesmas para ambos. Logo Alec se vê viajando por estradas que ele nunca soube que existia, em direção a uma guerra que ele nunca suspeitou estar se aproximando. Em pouco tempo ele e Seregil acabam entranhados em uma trama sinistra que corre mais fundo do que eles podem imaginar, e que pode custá-los muito mais do que suas vidas se ambos falharem. Mas a fortuna é tão imprevisível quanto o novo mestre de Alec e dessa vez pode apenas ser... Sorte nas Sombras.
Eu estava em dúvida entre dar 3.5 ou 4 estrelas para esse livro, mas o fato de eu ter o terminado após penar para acabar O Poder da Espada me fez perceber algumas qualidades da história e dos personagens que antes eu não tinha notado. Então sim, Luck in the Shadows merece e muito essas quatro estrelas.

Vou monologar um tanto mais nessa resenha, então paciência comigo, certo? Certo.

Bem, eu acho que, geralmente, há dois tipos de livros, ao menos quando se trata de fantasia; existem, primeiro, aqueles que prometem sacudir o gênero com seu worldbuilding original, seus personagens complexos e seu plot incrível. Esses são, na minha opinião, os mais perigosos, mas também os que mais vale a pena arriscar uma leitura. Se bem feitos, eles podem facilmente se tornar seu livro preferido ou pelo menos ficar bem alto no seu top 10, mas se a coisa desandar... Bem, aí é decepção em dobro.

O outro tipo é aquele que não promete muito. Nada de plot ou worldbuilding que vá mudar a fantasia que a conhecemos, mas se tivermos sorte talvez encontremos personagens cativantes e uma história divertida. É claro que esses também podem acabar sendo rasos, infantis e vagos demais; cada um dos dois tipos, obviamente, oferece suas qualidades e seus defeitos.

Eu amo o primeiro tipo de livro. Adoro worldbuildings elaborados e plots cheios de voltas e mais voltas, com personagens tão complexos que imaginá-los como pessoas reais não é difícil. Na maior parte do tempo, leio fantasia por livros assim e, infelizmente, me decepciono vezes demais para se contar. Acho que o maior problema desses tipos de história é justamente o que elas prometem e o que entregaram, que muitas acabam sendo coisas bem diferentes e, portanto, quase me matam de frustração. É como se o autor tentasse dar um passo maior do que a própria perna (o que ocorre principalmente quando é um livro de estreia) e acabasse tropeçando e quebrando a cara. Acontece toda hora e, apesar de, como já disse, eu amar esse tipo de livro, muitas vezes me vejo mais satisfeita ao ler o segundo. Repetindo, é um problema de prometer e não entregar, e geralmente essas histórias mais simples entregam o que prometem com mais frequência. É por isso que eu adoro livros como Rangers - Ordem dos Arqueiros e até mesmo Percy Jackson e os Olimpianos, mesmo que muitos os achem infantis e simples demais, e odeio ou desgosto de obras tão consagradas quanto O Poder da Espada, TiganaMistborn, Prince of Thorns  ou A Espada de Shannara. Promessas não cumpridas fazem toda diferença.

Luck in the Shadows pertence ao segundo grupo e, felizmente, entregou quase tudo do que prometeu. Peguei esse livro porque o GoodReads indicou como fantasia com personagens LGBT, e, como já mencionei várias vezes, ando garimpando obras assim por aí, geralmente me decepcionando bastante. Veja bem, na maior parte das vezes livros de fantasia LGBT são basicamente romance com fantasia como pano de fundo, e eu odeio isso com a intensidade de mil sóis em combustão. Romance nunca é meu foco nos livros que leio, não importa o gênero e não importa se é hétero/homo ou o diabo que for, eu simplesmente quase nunca pego um livro para ler se romance for indicado como a coisa mais importante da história. Não é meu tipo de leitura, apesar de eu adorar um romance como subplot de vez em quando, e talvez por serem mais voltados para garotas (desculpem, meninos, mas meninas geralmente aceitam personagens - ou pessoas - LGBT melhor), essas fantasias LGBT sempre acabam focando demais no romance. Então não é muita surpresa eu não ter conseguido passar da página 50 da maior parte dos livros desse tipo que tentei ler.

Uma coisa: ao contrário do que o GoodReads quer fazer você acreditar, Seregil e Alec não são gays; são bissexuais, já que ambos mostram interesse em algumas mulheres durante a história. Só esclarecendo esse detalhe mesmo.

Enfim, o romance de Luck in the Shadows é praticamente inexistente. Há umas poucas pistas de que algo pode vir a acontecer em volumes posteriores, mas mesmo assim estas são bem raras e só começam a aparecer bem no final, quando o livro já está pra lá de adiantado. O plot, graças aos deuses, os antigos e os novos, é o foco do livro, e é um plot melhor do que eu esperava, para ser bem sincera. Aqui no primeiro volume ele parece ser algo até simples, mas há algumas indicações de que algo muito maior está por vir. Afinal, Luck in the Shadows Ã© o primeiro de uma série de, surpresa, sete livros, então ele é mais uma introdução mesmo.

Como eu disse lá em cima, Luck in the Shadows pertence aos livros que não prometem tanto, e essa é a mais pura verdade. Não tente começar a ler esse livro esperando coisas muito inovadoras quanto a worldbuilding não, por exemplo. O mundo da série apresenta a já conhecida sociedade medieval com magia, possíveis dragões, elfos (Aurenfaie é o nome que a autora dá para os "elfos" dela, mas cacete, eles são elfos e ponto final) e um inimigo ainda não identificado que pode ou não ser algum bicho das trevas. Temos um ainda mais conhecido mestre/orientador, que é obviamente um mago (e não, não estou falando de Seregil), temos um objeto amaldiçoado, temos um grupo viajando por aí, etc, etc, etc. Como podem ver, nada diferente do usual; o que me conquistou mesmo foi o modo com que a Flewellyng usou essas tropes.

O mago/mestre, por exemplo, o Nysander, tem uma amante que não é, nem de longe, a primeira e provavelmente não vai ser a última. O relacionamento dele com ela é bem livre e eles não se esquentam muito com isso de compromisso não. Seregil, o suposto aprendiz de Nysander, é uma tragédia com magia, mas uma tragédia tão grande que acabou tendo que desistir da ideia de ser um mago, e hoje trabalha com Nysander por outros motivos. Um dos reinos dessa sociedade medieval, Skala, só pode ser ser governado pelos herdeiros de seu primeiro rei, o que já é algo bem batido, mas surpresa!, esses herdeiros só podem ser mulheres e, portanto, o reino só pode ter rainhas. Nesse reino várias mulheres - incluindo as princesas - são guerreiras, mas em quase momento algum isso é apontado ou destacado como algo diferente. Skala não é lá tão neurótico com relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo também não, ao contrário dos países do norte, que meio que não admitem a existência disso (culturas diferentes é uma benção em livros de fantasia, sabe?). O amuleto amaldiçoado serve para algo além de tornar um certo personagem uma pessoa perigosa por um certo período de tempo; uma boa parte do que acho que vai acontecer nos próximos volumes veio das "visões" que esse amuleto provocou, e ele serviu também para desenvolver melhor o personagem e contar um pouco sobre seu passado. O grupo viajando por aí não está exatamente em uma missão - pode-se dizer que estão querendo voltar para casa e, após alguns acontecimentos, fugir. Então, como dá pra perceber, há muito do "mesmo de sempre" nesse livro, mas é um mesmo de sempre diferente, e eu adorei esse aspecto.

Luck in the Shadows foi como uma brisa fresca após o mormaço que foi O Poder da Espada (vou continuar mencionando esse livro de vez em quando nas minhas resenhas. O bicho me traumatizou, sinto muito). Primeiro porque o romance de Luck in the Shadows Ã© muito melhor e boa parte disso se deve ao fato de que, tada!, ele ainda não existe. Sinceramente, ando meio cansada de romance em qualquer tipo de livro (fantasia e YA são os grandes culpados), já que eles acontecem super rápido e sem qualquer base, só para o autor poder dizer, olha, romance!, mas, novidade, gente, relacionamentos demoram para se desenvolver! Principalmente quando vocês tentando salvar ou sua pele ou o mundo! Sei que é difícil de acreditar, mas é verdade, te garanto. (Autores por favor parem de incluir romance só porque vocês acham que livro sem romance não vende, por Deus. Tirem o romance de vez, se vocês verem que não vai dá pra fazer a coisa direito. Cristo.).

Segundo, três vivas para mulheres bem representadas em um livro de fantasia! Li nove livros de fantasia fantasia (sem ser YA) esse ano e Luck in the Shadows Ã© o segundo a ter mulheres bem representadas. O segundo (!!!). O livro foi publicado em agosto de 1996 (oops, sou quase seis meses mais velha que ele apenas), há 18 anos, e mesmo assim representa mulheres melhor do que a maior parte dos livros publicados hoje em dia. Autores que estão lançando livros agora, acordem.

Geralmente fantasias mais antigas me decepcionam muito com relação à construção dos personagens, mas os de Luck in the Shadows são ótimos, mesmo que nesse volume a autora tenha focado bem mais no Seregil e no Alec, o que é uma pena já que alguns personagens secundários parecem ser bem interessantes. Meu preferido acabou sendo o Seregil mesmo, que é bem engraçado e tem umas tiradas ótimas.

Por que então você deu quatro estrelas e não cinco para esse livro, se gostou tanto?, vocês podem estar se perguntando. Bem, é porque há alguns defeitos em Luck in the Shadows. Alguns diálogos, principalmente no início, foram meio que infodumps, o que, por mais que talvez tenha sido necessário, me irritou um pouco. Muitos poderiam ter sido evitados ou pelo menos feitos de modo mais sutil, na minha opinião.

E o meio... Jesus, o meio é muito, muito lento. Foi um momento de transição na história e por isso é meio compreensivo ele ter sido assim, mas a coisa estava andando a passo de tartaruga e por um momento eu até considerei por a leitura de lado por uns tempos antes de continuar. Não era exatamente chato, mas não era empolgante, sabe? Eu imaginava que a diversão voltaria em algum momento das próximas páginas, mas me arrastar até lá se provou uma tarefa e tanto. Depois de alguns capítulos, porém, as coisas voltaram a ficar interessantes, mas né, o meio foi um leão que precisei matar e não dá para não mencionar. E, como eu disse, os personagens secundários ficaram um pouco negligenciados durante boa parte do livro, e mesmo que eu tenha gostado deles o suficiente isso ainda é uma falha na história, mas não estou tão preocupada assim com esse aspecto não. Luck in the Shadows foi o primeiro livro da Flewelling, lançado há 18 anos, mas o último da série, Shards of Time, saiu ano passado, então a autora deve ter tido muito tempo para melhorar as poucas falhas de sua escrita e para desenvolver os outros personagens. Pelo menos foi o que vi o pessoal dizendo em várias resenhas, então tenho esperanças.

Enfim, Luck in the Shadows foi uma leitura agradável e divertida, portanto recomendo para quem não está procurando a saga mais incrível do gênero e quer apenas se descontrair um pouco. Pretendo começar o segundo volume após ler alguns livros da minha lista, mas não tenho tanta pressa porque, bem, sete livros, e eu sou uma maria preguiça para séries longas. Se o livro 2 for tão bom quanto o primeiro, porém, terminarei a série sem dúvida alguma. Pelo menos por enquanto ela vale a pena. 4.0 estrelas.

*arte por raerae

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