3.5 estrelas filmes resenhas

Resenha: Star Wars - O Despertar da Força

18:50neo

Antes de tudo, devo dizer uma coisa: eu não sou fã de Star Wars

Quando eu era mais nova eu assistia muitos filmes com meu pai, e a maior parte deles era ou de guerras medievais com elementos de fantasia ou cheios de naves, androides e similares. Eventualmente nós acabamos vendo O Senhor dos Anéis e Star Wars, mas eu era muito pequena (oito anos, acho?) e hoje não lembro de quase nada da primeira vez que assisti ambos. Anos mais tarde acabei voltando para O Senhor dos Anéis, mas nunca mais tentei assistir Star Wars (e não, eu nem sei o porquê).

Então quando estava entrando na sala de cinema ontem, meu pai teve que me dar um resumo super rápido da história para eu poder entender o que aconteceria no filme. Eu sabia/me lembrava de algumas coisas, claro (impossível não saber algo de Star Wars hoje em dia, né), mas me pergunte o que aconteceu em qual filme e eu não saberei nada

Ou seja, tem muita coisa nesse filme que passou direto por mim, e obviamente eu não tive a mesma experiência de um fã da série. Mas eu gostei de O Despertar da Força, mais pelos personagens do que pela história em si.

Rey e Finn são incríveis. Rey em especial é muito bem construída e tem uma personalidade bem definida, mas os dois são ótimos e foram a melhor parte do filme pra mim. O modo como a amizade de ambos se formou (que pode se desenvolver pra romance??? Sei lá) foi muito bem feito e convincente. Em momento algum pareceu forçado ou desengonçado, como amizade/romance entre homens e mulheres acabam sendo em várias histórias (filme, livro ou série, não importa). Poe também foi um bom personagem, mas como ele não teve muito screen time não deu para estabelecê-lo tão bem quanto Rey e Finn.

Outra coisa que gostei bastante foi o humor do filme. Eu ri, e ri várias vezes, principalmente durante a primeira parte da história. Novamente, graças a Rey e Finn em 90% das vezes, mas a maior parte dos personagens protagoniza um momento engraçado em algum ponto do filme. E, sinceramente, esse aspecto mais engraçado/descontraído foi muito importante para O Despertar da Força, já que o plot, na minha opinião, não é lá essas coisas. 

Quero dizer, é Star Wars. E não, não estou dizendo que o plot dos filmes anteriores era incrível ou algo do tipo (também não estou dizendo que não era - como disse lá em cima, eu não lembro e por isso não faço a menor ideia), mas Star Wars é uma série estupidamente lucrativa. Todo mundo está querendo assistir esse filme. Se não bater recorde de bilheteria, vai chegar muito perto, e de qualquer forma está vendendo como água. 

Indo direto ao ponto: se é algo que vai vender de qualquer jeito, por que escolher um plot tão sem graça? Tão “seguro”, tão mais do mesmo?

Vi alguns fãs dizendo que o plot de O Despertar da Força se parece bastante com o de Uma Nova Esperança, mas como não lembro de nada desse filme não foi isso que me incomodou. O que me incomodou mesmo foi o quão óbvia a coisa toda foi, o quão... lugar-comum, por assim dizer, a segunda parte da história se tornou. Não teve nada de novo, de diferente ou de original em O Despertar da Força, o que é uma pena, já que pra mim esse novo início teria sido uma oportunidade perfeita pra isso. Star Wars pode fazer essas coisas; o risco de dar errado existe, claro, mas de qualquer forma a série vai lucrar tanto que esse risco acaba sendo bem menor.

Por isso acabei achando a primeira parte muito melhor do que a segunda. A segunda foi legal, sim (o filme todo foi), mas menos engraçada, menos espontânea, por assim dizer, e no geral menos interessante. Os personagens continuaram bons, mas com um plot tão mais ou menos nem eles foram capazes de salvar a história de fato.

E falando em personagens, teve um que não me convenceu: Kylo Ren. Não vou falar muito porque spoilers, mas sem saber do background dele, sem saber de como sua relação com seus pais era, sem saber o que o motivou a fazer o que fez... bem, fica difícil entender e/ou simpatizar com o personagem. Foi um aspecto do filme que ficou bem solto, na minha opinião.

Enfim, se fosse pela primeira parte apenas, esse novo Star Wars receberia no mínimo quatro estrelas, mais provavelmente 4.5, mas como a segunda parte sendo meio que uma decepção... 3.5 ou 3.75 para O Despertar da Força

3.0 estrelas fantasia literatura nacional

Resenha: A Liga dos Artesãos, Lauro Kociuba

15:59neo
Alvores: A Liga dos Artesãos | ?
Lauro Kociuba
★★★
Elfos, anões, orcs, trolls, dragões, wargs… E se eles existiram de verdade? E se tudo começou a desaparecer quando a Era dos Homens teve início? E se, ainda hoje, houver remanescentes desses seres entre nós?
Alvores é uma história de realidade alternativa, inspirada principalmente em leituras de Neil Gaiman e suas conexões de fantasia e o mundo real, pelo autor. Imagine o nosso mundo atual, mesclando com ficção fantástica, onde existem cidades subterrâneas sob as capitais brasileiras – mais precisamente Curitiba (PR); elfos que vivem ocultos entre os homens; descendentes de raças lutando entre si e criaturas fantásticas surgindo e desaparecendo em meio a pontos turísticos.
Todo esse universo é chamado de Alvores, os seres que surgiram na alvorada do mundo.
Acompanhe Tales, um filho de encantados, desvendando uma história envolta a uma trama secular: a luta pela sobrevivência de uma raça. Entre batalhas dos descendentes de alvores, a descoberta de existência de uma cidade inteira sob seus pés e a verdade por trás de vários fatos. O leitor irá, junto com o protagonista, conhecer máquinas de guerra incríveis, personagens com habilidades curiosas, tramas e mistérios ocorrendo nas praças, terminais ou mesmo nas ruas onde passamos diariamente. De modo gradativo e embasado, se estreita a fronteira entre a realidade e a fantasia no livro.
Veja o mundo com outros olhos!

Eu tinha o ebook de A Liga dos Artesãos mofando no meu tablet desde 1.500 a.C., mas estava evitando começar a leitura por medo de acabar não gostando. Para vocês terem uma ideia, dos cinco livros nacionais que tentei ler esse ano eu abandonei três e odiei dois, e bem, A Liga dos Artesãos é fantasia nacional. Pode-se dizer, portanto, que eu não estava lá muito confiante quando finalmente decidi iniciar a leitura.


4 estrelas fantasia resenhas

Resenha: The Queen of the Tearling, Erika Johansen

12:14neo
The Queen of the Tearling Trilogy: The Queen of the Tearling | The Invasion of the Tearling | Untitled
Erika Johansen
Harper
★★★★
Em seu aniversário de dezenove anos, a princesa Kelsea Raleigh Glynn, criada em exílio, parte em uma perigosa jornada de volta para o castelo onde nasceu para ascender ao trono que é seu por direito. Simples e séria, uma garota que adora livros e adora aprender, Kelsea não é muito semelhante a sua mãe, a vaidosa e frívola Rainha Elyssa. Mas apesar de não ter experiência e ter crescido protegida de tudo, Kelsea não é indefesa: do seu pescoço pende a safira de Tearling, uma joia de imenso poder mágico; e a acompanhando está a Guarda da Rainha, uma companhia de cavaleiros comandada pelo enigmático Lazarus. Kelsea precisará deles para sobreviver aos inimigos que usarão qualquer arma - de assassinos de capa vermelha à mais escura magia de sangue - para impedi-la de usar sua coroa.
Apesar de seu sangue real, Kelsea se sente bem mais como uma garota insegura, uma garota convocada para liderar um povo e um reino sobre os quais ela não sabe quase nada. Mas o que ela descobre na capital mudará tudo, confrontando-a com horrores que ela nunca imaginou. E um único ato de desafio irá jogar o reino de Kelsea em um tumulto, despertando a vingança de uma governante tirana do reino vizinho de Mortmesne: a Rainha Vermelha, uma feiticeira que comanda a magia mais negra. Agora Kelsea irá descobrir quem entre servos, aristocatas e sua própria guarda é digno de sua confiança.
Mas a missão de salvar seu reino e encontrar seu destino apenas começou - uma jornada maravilhosa de descobrimento e desafios que a tornará uma lenda... se ela conseguir sobreviver.

Esse livro foi uma surpresa bastante agradável já que eu não estava esperando muito dele não.

Bem, minto. À princípio, meses e meses atrás, eu ouvi falar de The Queen of the Tearling através de um post feito pela autora, Erika Johansen. O post falava sobre algo que de vez em quando eu menciono em minhas resenhas: a falta de garotas (ou pessoas no geral) feias/que não sejam lindas de morrer em livros YA. Claro, nós temos as garotas que pensam que são feias, mas que na verdade não são e só descobrem isso quando o garoto-deus-grego-encarnado diz que elas são lindas. Essas nós temos aos montes, mas garotas feias mesmo mesmo? Nope.


2.5 estrelas fantasia resenhas

Resenha: Red Queen, Victoria Aveyard

16:41neo
Red Queen Trilogy: Red Queen | Untitled | Untitled
Victoria Aveyard
Orion
★★½

Os indigentes Reds são plebeus, vivendo sob o domínimo do Silvers, guerreiros de elite com poderes divinos.Para Mare Barrow, uma menina Red de 17 anos de Os Stilts, parece que nada nunca vai mudar.Mare encontra-se trabalhando no Palácio de Prata, no centro daqueles que ela mais odeia. Ela logo descobre que, apesar de seu sangue vermelho, ela possui um poder mortal e único. Um que ameaça destruir o controle dos Silvers.Mas o poder é um jogo perigoso. E neste mundo dividido por sangue, quem vai ganhar?


Esse livro tinha tudo para ser maravilhoso, mas não foi. O motivo? Clichés.
3.5 estrelas fantasia literatura nacional

Resenha: Império de Diamante, J.M. Beraldo

20:53neo
Reinos Eternos: Império de Diamante | ???
J.M. Beraldo
Draco
★★★½
Um Imperador reina absoluto há séculos, mas toda dinastia chega ao seu fim. 
Conheça o Império de Diamante: um reino eterno que conquistou e suprimiu várias culturas de Myambe, o continente original da Humanidade. Protegido por um exército com poderes incríveis, o Imperador governa com sabedoria e há quem diga que possa conceder talentos sobrenaturais a quem desejar.Mas agora sua decadência parece inevitável. Vinte anos após a última conquista, ninguém sabe do Imperador. O governo lentamente abandona as províncias mais distantes à mercê de uma seca avassaladora. O povo implora por socorro, mas não há ajuda.Em meio à crise, quatro indivíduos com objetivos diferentes acabam envolvidos na trama que pode revelar os segredos deste homem tão poderoso. Neste mundo fantástico baseado nas culturas africanas, o autor J. M. Beraldo explora a construção da História e da crença religiosa através da trajetória desse quarteto. Forçados a depender uns dos outros para alcançar seus propósitos, qual será o papel desse inusitado grupo na história do Império de Diamante?

Venho tendo uma má sorte com livros nacionais ultimamente e isso me levou a meio que desistir de ler vários livros lançados aqui esse ano (acho que tem apenas mais dois na minha lista de leitura, mas depois disso estou me dando uma folga). Ler Império de Diamante, portanto, não estava nos meus planos, mas a sinopse, a capa e o fato de ele poder ser lido como volume único me convenceram a lhe dar uma chance. Apesar dos pesares, não me decepcionei.

distopia livros não publicados no brasil resenhas

Resenha: The Summer Prince, Alaya Dawn Johnson

20:54neo
The Summer Prince
Alaya Dawn Johnson
Arthur A. Levine Books
★★★

Uma história de parar o coração de amor, morte, tecnologia e arte que se passa em meio aos trópicos de um Brasil futurista. 
A cidade exuberante de Palmares Três brilha com tecnologia e tradição, com rodinhas de fofocas e políticos experientes. No meio desta metrópole vibrante, June Costa cria a arte que certamente a fará lendária. Mas seus sonhos de fama se tornar algo mais quando ela conhece Enki, o novo Summer King. A cidade inteira se apaixona por ele (incluindo o melhor amigo de June, Gil). Mas June vê mais a Enki do que os olhos de âmbar e um samba letal. Ela vê um colega artista. 
Juntos, June e Enki apresentarão projetos explosivos e dramáticos que Palmares Três nunca vai esquecer. Eles irão adicionar combustível a uma revolta crescente contra os limites do governo sobre nova tecnologia. E June se apaixonará profundamente, e infelizmente, por Enki. Porque como todo Summer King antes dele, Enki está destinado a morrer.
Pulsando com a batida de um Brasil futurista, queimando com as paixões de seus personagens, e transbordando de idéias, este romance ardente vai deixar você ansioso por mais de Alaya Amanhecer Johnson.
Avaliar esse livro é meio difícil. 
Veja bem, quando o peguei para ler já tinha lido algumas resenhas sobre como a cultura brasileira era usada de forma “errada” pela autora, então eu meio que estava esperando odiar The Summer Prince com todas as minhas forças. Mas, surpreendentemente, eu não odiei.

Sim, a cultura brasileira é usada de forma errada. Bem, na verdade, não é nem errada, mas sim estranha. Eu não senti, em nenhum momento, que o livro se passava no Brasil, nem mesmo quando os personagens foram para Salvador, onde eu nasci/moro. Talvez parte disso se deva ao fato de que a história acontece uns 300 anos depois que o mundo - Brasil incluso - entrou em colapso, mas acredito que a verdadeira razão é que o livro foi escrito por uma pessoa que não é brasileira e que, talvez por isso, não conseguiu realmente entender nossa cultura. Alguns aspectos dela - dança, música, uma ou outra comida típica - foram jogados no meio da narrativa meio do nada, e a forma com que o samba foi mostrado me fez revirar os olhos. Alguns estereótipos ficaram bem visíveis; perdi a conta do número de vezes em que alguém dançou como se fosse morrer e/ou o número de vezes em que o dançar foi extremamente romantizado. Alguns nomes também me soaram estranhos (Oreste? Enki? Wanadi? Que?), mas talvez a história ser no futuro justifique isso.

A personagem principal, June (e o nome americano dela me fez torcer o nariz até a autora explicar o porquê dele, e mesmo assim acho que não custava nada ter colocado um nome brasileiro na guria), me irritou um pouco, principalmente no início. Ela não perde uma oportunidade para afirmar e reafirmar que é a melhor artista de Palmares Três e tudo o que ela faz é supostamente em nome da arte. Apesar de achar o desejo dela de ser famosa algo refrescante (não aguento mais protagonistas de YA que se escondem até da própria sombra), isso eventualmente deixou de ser interessante para se tornar um estorvo. Os pensamentos e falas dela me arrancavam um cala a boca, June pelo uma vez a cada três páginas. E nas primeiras 100 páginas, o plot também é meio inexistente. Eu não fazia ideia de para onde o livro estava indo, e mesmo depois ele é, de certa forma, “solto”. 

Por que três estrelas então? Bem, é porque o livro marca pontos onde muitas outras distopias juvenis perdem. Para começar, os temas que a autora propõe são “discutidos” com muito mais complexidade se comparado a outras distopias do tipo que eu já li (Jogos Vorazes, Divergente, Feios), como por exemplo privilégio (na cidade-pirâmide de Palmares Três quanto mais alto você mora, mais rico/bem visto você é + a exclusão dos homens do poder), o papel da arte nas revoluções, o desistir de uma vida fácil para lutar por algo que você acredita, conflitos entre gerações (em Palmares Três as pessoas chegam a viver por um século e tanto, sempre semi-jovens, e os mais novos, com menos de 30 anos, os wakas, têm suas opiniões sempre desconsideradas, enquanto os grandes basicamente mandam em tudo ignorando o resto todo) e até mesmo a questão de quanto de tecnologia é muito ou pouco. Além disso, a escrita é muito boa, e eu gostei de como o relacionamento de June com seus pais e também o com Bebel, que eu pensei que iria ser a típica garota rival de YA, foram tratados pela autora. 

Outra coisa no mínimo interessante é como “rótulos” para sexualidade não existem em The Summer Prince. Depois que o pai de June morre, por exemplo, a mãe dela se casa com outra mulher, e Gil, o melhor amigo dela (sim, um cara) é quem se envolve com Enki de início. Sexo também é visto de modo bem casual (e o poliamor reina em várias ocasiões), o que não me incomodaria nem um pouco se o brasileiro já não fosse visto como extremamente sexual. Aliás, essa liberdade sexual toda causou algumas cenas bizarras que me fizeram questionar o que se passou na cabeça da autora na hora de escrevê-las.

O próprio worldbuilding é legal, mas fica muito vago em vários aspectos. Até agora não entendi porque existem moon years e como diabos o sistema de eleição funciona a cada ano. E não há explicação quase nenhuma sobre o colapso do mundo como o conhecemos hoje, embora um pouco seja dito sobre a criação da cidade sim.

No geral, é um bom livro. Ia dar 2.5 estrelas para ele, mas a escrita me conquistou e o ritmo é ótimo também. Então, né, 3 estrelas para The Summer Prince
fantasia favoritos literatura estrangeira

Resenha: O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien

14:19neo
O Senhor dos Anéis: Volume Único
J.R.R. Tolkien
Martins Fontes
★★★★★
Numa cidadezinha indolente do Condado, um jovem hobbit é encarregado de uma imensa tarefa. Deve empreender uma perigosa viagem através da Terra-média até as Fendas da Perdição, e lá destruir o Anel do Poder - a única coisa que impede o domínio maléfico do Senhor do Escuro. ------ "A Sociedade do Anel" é a primeira parte da grande obra de ficção fantástica de J. R. R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis". É impossível transmitir ao novo leitor todas as qualidades e o alcance do livro. Alternadamente cômica, singela, épica, monstruosa e diabólica, a narrativa desenvolve-se em meio a inúmeras mudanças de cenários e de personagens, num mundo imaginário absolutamente convincente em seu detalhes. Nas palavras do romancista Richard Hughes, "quanto à 'amplitude' imaginativa, a obra praticamente não tem paralelos e é quase igualmente notável na sua vividez e na habilidade narrativa, que mantêm o leitor preso página após página". Tolkien criou em "O Senhor dos Anéis" uma nova mitologia, num mundo inventado que demonstrou possuir um poder de atração atemporal.
Eu já perdi a conta de quantas pessoas já me pediram para fazer uma resenha de LOTR nos últimos quatro anos (sério, foram muitas), mas eu sempre as respondi dizendo que as chances de isso acontecer eram mínimas e o porquê é bem simples: eu adoro O Senhor dos Anéis. Tipo, muito. Para vocês terem uma ideia, minhas amigas brincam que eu não conseguiria ficar com alguém que não goste desse livro e elas estão, feliz ou infelizmente, provavelmente certas. Não por questão de mimimi você não gosta de LOTR, então você está errado e eu estou certa!!!, já que, graças a todos os deuses conhecidos, nunca passei por essa fase, mas sim porque eu não acho possível que uma pessoa que não viu nada de bom em O Senhor dos Anéis veja algo de bom em mim. Sim, esse é meu nível de paranoia com esse diabo de livro. Então, se ainda não deu pra perceber...

//////////!!!!!FANGIRL ALERT!!!!!\\\\\\\\\\\\\\

Eu vou ser piegas, gente. Vai ser vergonhoso. 

Essa é sua última chance de escapar; depois não digam que eu não avisei.

Enfim, eu li LOTR quando era bem mais nova do que a maioria das pessoas que já leram esse livro eram na primeira vez que o leram. Faltava mais ou menos um mês para o meu aniversário de onze anos e eu estava aqui em Salvador de férias (na época eu morava em uma cidade do interior) quando meu pai resolveu arrastar todo mundo para a casa de um amigo dele. A coisa toda foi muito chata; enquanto os adultos bebiam e se divertiam, eu e meu irmão ficamos encarando um ao outro e então encarando a piscina (obviamente que ninguém tinha avisado que tinha piscina, logo a gente não tinha vindo preparado pra isso) e então encarando um ao outro novamente. Ficamos assim por um bom tempo até alguém lembrar que o amigo de meu pai tinha dois filhos que poderiam emprestar uma roupa para meu irmão depois. Ele, sendo o bom irmão que sempre foi (haha), me abandonou sem pensar duas vezes e se jogou na piscina na maior alegria. E eu fiquei lá, sozinha, sentindo muita pena de mim mesma, ressentindo o babaca do meu irmão e torrando no sol. Horas depois (sim, horas) alguém finalmente se apiedou e, sabendo por meio do meu pai que eu gostava de ler, perguntou se eu não queria dar uma olhada nos livros dos filhos do amigo do meu pai. Como eu meio que não tinha mais o que fazer, fui.

No meio de um monte de livros clássicos que na época não me atraíam nem um pouco (bem, ainda não o fazem, mas), acabei encontrando os quatro volumes de As Brumas de Avalon e os três de O Senhor dos Anéis. A mulher do amigo de meu pai me disse que eu poderia pegar uma coleção emprestada, já que passaria as férias todas em Salvador, e depois de pensar por um ou dois instantes acabei escolhendo O Senhor dos Anéis. Eu já tinha assistido aos filmes uma vez, mas para falar a verdade as únicas coisas que eu lembrava deles eram montanhas brancas e um bicho de fogo que mais tarde descobri ser o balrog (bem, eu tinha uns seis anos quando o primeiro filme foi lançado, so...), então peguei LOTR mais pela fama dele do que por qualquer outra coisa. Também já tinha ouvido falar de As Brumas de Avalon, mas acho que desde aquela época eu já tinha uma certa aversão a história e fantasia misturadas. Mesmo assim, às vezes eu me pego pensando no que teria acontecido se eu tivesse escolhido Brumas ao invés de LOTR; meu gênero preferido talvez fosse fantasia histórica e não alta-fantasia hoje em dia. Quem sabe?

Enfim, levei os três livros pra casa e os li em menos de duas semanas, o que foi um feito fantástico para o eu de 10 anos. O único livro "grosso" que eu tinha lido antes de LOTR foi o sexto de HP, O Enigma do Príncipe, e nesse eu levei um ano, duas desistências, longos períodos sem ler e releituras de vários trechos (em minha defesa, eu tinha nove/dez anos), então ler LOTR tão rápido foi tipo um milagre. E eu adorei os livros. Mais do que eu tinha adorado os quatro filmes de HP + o sexto livro (sim, eu li o sexto livro sem ler ou assistir o quinto filme), e até então eu achava isso meio impossível. Mas por que eu adorei tanto esses livros?

Responder essa pergunta é um tanto complicada. Veja bem, quais são as maiores críticas aos livros de O Senhor dos Anéis? Dizem que a narrativa é lenta, muito descritiva, que o mundo é maniqueísta demais e que os personagens secundários não recebem tanta atenção assim, certo? Certo. Mas essas críticas, esses "defeitos" não me afetam. Por quê?

Primeiro, O Senhor dos Anéis foi a primeira série de fantasia que eu li. Sim, eu li um livro de Harry Potter antes, mas de fantasia mesmo, sobre mundo secundários, elfos e a coisa toda, LOTR foi sim o primeiro. E foi justamente por isso que a narrativa lenta e muito descritiva não me incomodou nem um pouco. Como eu nunca tinha lido nada do gênero antes, pensei que aquilo fosse normal, fosse a regra, dei de ombros e segui lendo. E adorei as descrições, adorei a narrativa, adorei a história. Foi só depois, quando fui ler outros livros de fantasia, que percebi que a escrita de Tolkien não era (infelizmente pra mim) a regra. Ler O Senhor dos Anéis antes desses outros livros meio que tirou um pouco da qualidade do gênero para mim, já que até hoje eu não consigo me impedir de comparar a escrita deles à de Tolkien e de me sentir um pouco decepcionada. É meio estranho, mas, inconscientemente, me convenci de que essa narrativa lenta e descritiva era o normal e a considero como tal até hoje. O resultado disso é que 90% dos livros que leio acabam não alcançando essa normalidade. Ficam sempre "abaixo da média".

Em conclusão: eu provavelmente deveria ter lido LOTR agora, com 18 anos, e não com 10/11. Acredito que minha vida literária teria sido bem mais feliz, mas né...

¯_(ツ)_/¯

Então sim, eu sou fã de narrativas lentas e descritivas. Os únicos livros além de LOTR que "chegaram na média" pra mim foram As Crônicas de Gelo e Fogo, A Canção do Sangue e O Nome do Vento. O resto volta pra casa com nota baixa, infelizmente.

Segundo, eu não gosto de livros maniqueístas em 95% das vezes que leio um assim. E O Senhor dos Anéis, meu livro preferido de todos os tempos, é pra lá de maniqueísta. O bem e o mal são muito bem definidos em Arda, e poucos são os personagens que sequer tentam se aproximar de um equilíbrio entre esses dois pólos. É tudo muito preto no branco, quase o tempo todo. Então por que diabos eu gosto dessa história?

Pode parecer um tanto estranho, mas acho que gosto tanto de O Senhor dos Anéis porque o próprio mundo parece ser o personagem principal da história. É como se os personagens dos livros fossem apenas manifestações desse personagem maior. Sabe aqueles desenhos animados em que os personagens ficam com um anjinho e um diabinho em cada ombro e ambos tentam convencer o personagem a fazer as coisas certas/erradas? É nessa linha de pensamento. Nunca me incomodei com o maniqueísmo de O Senhor dos Anéis porque para mim ele nunca foi apenas uma questão de mal x bem externa, mas sim uma espécie de "metáfora" para a disputa interna que cada um enfrenta diariamente. Podemos ver uma amostra dessa disputa em Boromir, uma pessoa boa que acaba tomando uma decisão errada, Gollum, uma criatura gananciosa e egoísta que ainda assim mostra alguns sinais de simpatia/bondade, e até mesmo em Frodo, que, como Boromir, é uma pessoa boa e determinada a fazer o bem, mas que acaba sendo também corrompida pelo Um Anel. 

Vale comentar que Tolkien odiava alegorias. Ele diz isso já no prefácio de LOTR, e se não me engano foi esse o motivo de ele ter brigado com C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, seu amigo, já que Nárnia é basicamente uma alegoria ao cristianismo. Tolkien mesmo era cristão, e há alguns elementos que podem ser associados ao cristianismo em LOTR, mas diferentemente de Nárnia, esses elementos se resumem mais a valores e não são uma "recontagem" da história cristã. 

(Não gente, eu não odeio Nárnia. Na verdade adoro os livros e filmes também).

Tolkien também lutou na Primeira Guerra Mundial e teve que ver um de seus filhos lutando na Segunda (O Senhor dos Anéis foi inclusive escrito durante ela), então, para mim, muito do que ele presenciou nesses períodos acabou personificado na figura do Um Anel. O Um Anel representa poder, mas um poder perverso, que corrompe e que causa o mal; até mesmo alguns dos personagens mais poderosos da história, como Galadriel e Gandalf, se recusam sequer a tocá-lo por medo de cederem a tentação. Uma boa parte da obra de Tolkien é justamente sobre ter poder, desejar poder e ser corrompido pelo poder, tanto aqui em LOTR quanto em O Silmarillion. E, para quem não sabe, Tolkien não era lá muito a favor da tecnologia, talvez justamente por ter presenciado a Primeira e a Segunda Guerra Mundial; para ele, a tecnologia que a humanidade estaria desenvolvendo, principalmente a tecnologia de armas, acabaria trazendo sofrimento para todos nós, mesmo se usada para o bem. Exatamente como o Um Anel (e as Silmarils, até certo ponto) que, como eu disse, é sim poderoso, mas que mesmo se usado pensando no bem acaba provocando o mal. Muitos até pensaram que o Um Anel seria uma alegoria à bomba atômica na época em que LOTR foi lançado, mas, como já dito, Tolkien meio que odiava alegorias e negou com veemência que O Senhor dos Anéis fosse a história das Grandes Guerras contada de outro modo. O Um Anel seria, portanto, apenas o mal. Ou melhor, a possibilidade de qualquer um se tornar mal se lhe for dada a oportunidade de ceder a uma tentação, seja ela qual for. E em LOTR essa tentação é justamente o poder. Ou, nas palavras do próprio homem, do já mencionado prefácio:
Mas eu cordialmente desgosto de alegorias em todas as suas manifestações, e sempre foi assim desde que me tornei adulto e perspicaz o suficiente para detectar sua presença. Gosto muito mais de histórias, verdadeiras ou inventadas, com sua aplicabilidade variada ao pensamento e à experiência dos leitores. Acho que muitos confundem “aplicabilidade” com “alegoria”; mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda na dominação proposital do autor. É claro que um autor não consegue evitar ser afetado por sua própria experiência, mas os modos pelos quais os germes da história usam o solo da experiência são extremamente complexos, e as tentativas de definição do processo são, na melhor das hipóteses, suposições feitas a partir de evidências inadequadas e ambíguas.
Ou seja, o Um Anel pode ser basicamente o que você quiser que ele seja. Tada.

Concluindo, o maniqueísmo de LOTR não me incomoda porque não o vejo presente apenas como personagens do bem que nascem do bem e morrem do bem ou personagens maléficos que nascem maléficos e morrem maléficos. Vejo-o mais como uma luta interna constante entre ceder ou não a algo ruim, e talvez uma amostra de que é possível sim "vencer" sem se voltar para tais meios maléficos e que tempos de horror, como as Grandes Guerras para Tolkien e qualquer outro momento para qualquer outra pessoa, sempre acabam passando. E esse é um pensamento pra lá de reconfortante, certo?

Terceiro, os personagens secundários que não recebem tanta atenção quanto os principais. Sim, isso é verdade, mas acho que o tópico anterior (personagens sendo manifestações de um personagem maior e coisa e tal) ameniza esse defeito para mim, assim como o fato de que muitos e muitos desses personagens de LOTR aparecem em O Hobbit, O Silmarillion e em Contos Inacabados, livros que na maior parte das vezes lhes dão maior profundidade. Não deixa de ser algo que poderia ter sido explorado mais, mas é uma falha pequena diante do resto da história para mim.

Agora que já "respondi" porque as "falhas" de O Senhor dos Anéis não são falhas para mim (talvez apenas a última), posso explicar melhor porque gosto tanto dessa história. Boa parte desse porquê já está nas entrelinhas do que escrevi aí em cima, mas vamos lá.

Um dos motivos de eu gostar de LOTR é Arda. Arda é, para mim, o mundo imaginário mais complexo e bem feito que eu já li (sinto muito, Martin, mas nem mesmo seu mundo chega perto de Arda para mim). Como eu disse lá em cima, Arda parece um personagem de verdade. Arda é um mundo que tem suas próprias características e não, não estou falando de lagos, rios, continentes, ou do modo como o clima funciona ou qualquer outra coisa física, mas sim de personalidade mesmo. Há uma sensação de perda enorme no mundo de O Senhor dos Anéis, presente nos elfos, que sabem que seu tempo na Terra-média acabou, nos anéis, grandes fontes de poder que acabam definhando, nas Silmarils, que se perderam para sempre, e em vários personagens, principalmente nos hobbits, que perdem a "inocência" que tinham antes da guerra e que passam a carregar suas marcas após seu término. Grandes reinos, dos elfos ou dos homens, já existiram, mas tiveram fins horríveis. Vários heróis encontraram morte trágicas, e os que não o fizeram não viveram de todo felizes. Coisas belas e maravilhosas, como as já citadas Silmarils, os anéis, as árvores que iluminavam o mundo no início, acabam morrendo ou desaparecendo para sempre. Arda é simplesmente melancólica, e nela tudo tem um fim.

Mas mesmo assim há alguns indícios de um novo começo, de superação dessa perda, tanto no Condado quanto em Ithilien e na era dos homens que se inicia nas últimas páginas de O Senhor dos Anéis. Arda é interessante por sua melancolia, mas também o é por essa esperança de algo novo ou de uma nova chance. 

O único mundo que chega perto de ter tanta personalidade quanto Arda, para mim, é o de As Crônicas de Gelo e Fogo. Gosto mais de O Nome do Vento do que de ASOIAF, mas o mundo de Martin é sinceramente melhor. Outros mundos de outros livros de fantasia sequer me causam impressão o suficiente para que eu me lembre deles após terminar a leitura.

Gosto dos personagens (embora meus preferidos estejam mais em O Silmarillion e em O Hobbit do que em LOTR), gosto dos lugares, do plot e do que ele representa, gosto da história de Arda e adoro a escrita. Mas O Senhor dos Anéis é meu livro preferido justamente por ser tão sombrio e tão difícil, muitas vezes simplesmente triste, e mesmo assim ser divertido e alegre. A aventura de Frodo e da Sociedade e os próprios acontecimentos de Arda sempre vão me deixar mais amarga do que qualquer cena de violência, estupro ou egoísmo presente nas fantasias de hoje em dia. Ao contrário do que esses livros atuais parecem pensar, eu já sei que o mundo no geral é um lugar ruim, com violência, estupro e egoísmo, então são os personagens e como eles reagem e lidam com esse mundo o que realmente importa para mim. O melhor jeito de conquistar o leitor, na minha opinião, não é lhe mostrar o que ele já sabe e esperar que isso o choque, mas sim mostrar como pessoas, importantes ou não, boas ou não, ainda assim sobrevivem e vivem em um mundo assim. Então sim, não há cenas terríveis de violência em LOTR, muito menos de estupro e há poucas de egoísmo, mas Frodo e Sam se arrastando até a montanha para destruir o Um Anel, completamente ferrados, feridos, sem comer, sem beber e sem dormir, totalmente desesperados e no final de suas forças sempre vai me chocar mais do que qualquer cena banal de violência por aí, porque, adivinha!, eu leio o jornal e já vi coisas feias demais em manchetes para ser abalada por uma cena de tortura aleatória. Essa é a realidade normal de qualquer pessoa normal que preste o mínimo de atenção no nosso mundo normal. Tada.

Além disso, como eu já disse, Arda é um mundo excepcional, e isso torna fácil mergulhar completamente na história. O Senhor dos Anéis é o tipo de história que realmente te transporta para outro lugar por completo. O efeito, pelo menos em mim, é tão grande que sempre que me interrompem quando o estou lendo eu sinto como se estivessem me puxando para fora d'água. Enquanto o leio, fico "submersa" e o resto do mundo desbota e parece distante, exatamente como quando estamos dentro de uma piscina ou dentro do mar. Poucos livros me dão essa impressão além de LOTR; na verdade, só consigo pensar em ASOIAF, O Nome do Vento, Aprendiz de Assassino e Captive Prince

Mas, acima de tudo, O Senhor dos Anéis tem significado. Esse é um assunto meio polêmico porque cada livro tem um significado diferente para cada pessoa, mas O Senhor dos Anéis, pra mim, é mais do que plots intricados, personagens bem construídos e um mundo bem feito, e é por isso que eu nunca fui muito fã da ideia de fazer essa resenha. Eu adoro O Senhor dos Anéis porque dou valor às mesmas coisas que a história dá e acredito no que ela diz (ou no que eu acredito que ela diz, ao menos), e falar disso acaba sendo, você sabe, too close for comfort e coisa e tal. A situação só piora porque foi LOTR quem me fez começar a escrever de verdade, e apesar do meu livro hoje ser (eu espero) bem diferente de LOTR, pretendo escrevê-lo seguindo a fantasia tradicional de Tolkien e não essa moderna, que eu espero sinceramente que morra em breve.

Ironicamente, muito da minha relação com O Senhor dos Anéis pode ser explicado em uma própria cena do filme de O Senhor dos Anéis, mais especificamente em As Duas Torres, pra mim uma das melhores já feitas em adaptações de livros. É essa aqui, com um tico de spoiler, e que eu até pensei em transcrever, mas olha minha cara de quem vai escrever mais depois dessa Bíblia inteira. Nem rola.

Em conclusão: O Senhor dos Anéis sempre será meu livro preferido por todos esses motivos aí e um dia eu ainda queimarei certos livros dessa nova fantasia Grimdark em uma fogueira enquanto canto a canção que Bilbo fez para Aragorn. Apenas observem.

E que tal falar sobre as mulheres, hm? Ia me esquecendo disso. Sim, LOTR tem poucas mulheres (Galadriel e Éowyn basicamente, nos livros, e Arwen também nos filmes), mas elas são incríveis. Quem se lembra de Celeborn se Galadriel é a mulher dele? Quem luta contra o sistema, contra a ideia de que mulher só serve para ficar em casa, se não Éowyn? Isso sem falar nas mulheres de The Silmarillion, que continuam poucas se comparadas aos homens, mas que são igualmente incríveis e bem construídas. LOTR tem uma sociedade medieval onde mulheres não são muita coisa, como centenas de livros por aí, e ainda assim consegue mostrar que esse sistema está errado e que mulheres incríveis são capazes de existir nele. LOTR foi escrito há mais de 60 anos. Livros de hoje, século XXI, não conseguem e/ou não querem fazer o que um livro escrito por um cara que nasceu no final do século retrasado fez. Ha.

LOTR não tem nenhuma diversidade sexual (dá pra entender um pouco porque foi lançado há 60 anos, mas ainda assim, né, não deixa de ser um defeito na minha opinião) e a diversidade de etnia/raça existe, mas essas pessoas de cor sempre são vistas como o inimigo. Não faço a menor ideia se Tolkien era racista ou não, mas mesmo se ele não fosse não é muito legal associar toda pessoa de cor de sua história ao inimigo terrível que destruir o mundo.

Apesar disso, no entanto, não consigo dar nada menos do que a nota máxima para O Senhor dos Anéis. Há defeitos nesse livro e nunca irei negá-los, mas essa história significou (e significa) muito para mim como pessoa e como escritora, então, né. 5.0 estrelas. 
a batalha dos cinco exércitos o hobbit resenhas

Resenha: A Batalha dos Cinco Exércitos

17:53neo

Ao contrário de muitos, eu não me decepcionei com Uma Jornada Inesperada (AUJ), mas A Desolação de Smaug (DOS) fez uma parte da minha expectativa por A Batalha dos Cinco Exércitos desaparecer. Não vou entrar em detalhes (essa não é uma resenha de A Desolação de Smaug, né), mas os elfos de Mirkwood, reino de Thranduil e Legolas (e Tauriel), são meus preferidos dentre os povos élficos criados por Tolkien e eu estava esperando algum foco neles e na história da própria Mirkwood, o que não aconteceu por motivos de Tauriel e Kíli. Um tanto desanimada, esperei por A Batalha dos Cinco Exércitos (BOTFA) mais por ser O Hobbit e por ser Tolkien e pra ver o exército élfico caindo pra cima de todo mundo, com uma fraca esperança de que talvez Peter Jackson se redimisse. O que ele de certa forma fez, mas não o suficiente para mim.

BOTFA peca por ter sido mal planejado. Aliás, a trilogia toda peca nesse sentido. Não estou falando de todas as coisas extras que Jackson enfiou na história, até porque gosto da maior parte delas, mas sim da falta de habilidade na hora de organizar o roteiro. [SPOILER] Desde o filme um foi criada uma grande expectativa sobre como Smaug morreria e ter deixado sua morte para BOTFA ao invés de fazê-la acontecer logo em DOS meio que acabou com uma parte do clímax da história. Veja bem, Jackson nos mostrou o quão poderoso Smaug era em DOS, mas em BOTFA a gente não vê isso de novo, então a grandiosidade de Smaug se perde por agora estar há um ano de distância. A queda do temível dragão que reinou durante décadas no antigo lar dos anões deveria ter sido o clímax do segundo filme, e não um acontecimento solto nos primeiros 20 minutos de BOTFA. Mas sim, a cena em si é linda e muito bem feita, apesar de meio corrida. [FIM DO SPOILER].

BOTFA também peca ao ser superficial e durante boa parte do filme, sem emoção. Quando assisti AUJ uma das coisas que me lembro de ter pensado foi, meu Deus, eu vou me tornar uma cachoeira humana quando certos personagens morrerem no último filme, mas ao assistir BOTFA nada me atingiu. Na verdade, enquanto observava um dos personagens que mais gosto do filme morrer a única coisa que passava pela minha cabeça era, o fandom de Tolkien no Tumblr vai explodir quando ver que X não morreu como no livro, porque ali estava X, morrendo justamente do jeito que todo mundo estava temendo que ele morresse. 

Devo muito dessa superficialidade ao fato de que o filme está incompleto. Sim, incompleto. Aposto meu fígado que a versão estendida vai trazer muita coisa que ficou de fora de BOTFA, até porque esse é o filme mais curto da trilogia. Houve momentos em que eu praticamente vi onde as cenas estendidas estão, justamente porque tudo parecia feito pela metade. Nem preciso falar que isso é uma sacanagem com quem compra o ingresso, né? Ninguém deveria pagar para assistir três quartos de filme. E, é claro, muita coisa acaba não sendo explicada para quem não leu o livro e está ali só para se divertir, e que obviamente não vai pagar os olhos da cara pela versão estendida. O que aconteceu com o povo da Cidade Lago? Como o tesouro do dragão foi dividido, quem vai reinar? O que vai acontecer com certos personagens que simplesmente ficaram lá, meio que soltos na narrativa?

Essas falhas não chegam a tornar o filme ruim, porém. As cenas de guerra são estupendas, os efeitos visuais são incríveis (apesar de um ou outro ficar meio ridículo) e dá pra dar risada, ainda que bem menos do que deu em AUJ e DOS. As cenas em Dol Guldur, com Elrond, Galadriel, Saruman e Gandalf (e brevemente Radagast) são maravilhosas (apesar da luta em si parecer saída de um jogo). Quando vi o trailer quase senti meu estômago se revirar ao ver Galadriel meio se arrastando e Saruman e Elrond chegando para ajudá-la, porque, sinceramente, colocar Saruman ou Elrond (e eu adoro o Elrond) para resolver algo que a Galadriel não conseguiu simplesmente não faz sentido e nunca fará, mas meus temores foram infundados. Galadriel tem pouco tempo de filme, mas ainda assim consegue ser uma das melhores coisas de BOTFA.

É um filme bonito que não emociona e que vale a pena por ser O Hobbit e pelas cenas de guerra e luta. Até o desenvolvimento dos personagens achei corrido, como se Jackson estivesse com pressa, e Deus sabe que pressa foi tudo o que ele não teve durante os dois primeiros filmes. Para falar a verdade, acho que vou gostar bem mais de BOTFA quando o ver completo com as cenas estendidas e tudo mais. Vou esperar um box com os três filmes estendidos ser lançado e vou pagar minha vida por ele, e é claro que vou assistir O Hobbit e O Senhor dos Anéis em sequência (parando pra dormir, provavelmente) e ainda fazer minha família toda assistir comigo, porque por mais que essa nova trilogia não seja nem de longe perfeita, ainda é, você sabe, a Terra-média. 

AUJ conseguiu quatro estrelas de mim, DOS três e meio e BOTFA fica com três e meio também. 
  • Considerações sobre a trilogia como um todo (spoilers!)
O Hobbit é uma trilogia que era para ser, mas não foi.

Vou falar mais aqui sobre as coisas que mais me incomodaram e que, por isso, tem mais a ver com Mirkwood e os personagens de lá. Eu vou ser biased, gente, vou logo avisando.

Quando anunciaram que haveria uma guerreira elfa em DOS, eu fiquei bem feliz. Se não tivessem trazido a Galadriel e criado a Tauriel, O Hobbit não teria mulher alguma, e acho que a essa altura do campeonato vocês provavelmente já sabem que isso não é uma coisa que me faz muito feliz. Mas incluir uma personagem feminina e logo em seguida lhe dar uma plotline amorosa sendo ela uma elfa e ele um anão é dar um tiro no próprio pé por basicamente dois motivos.

Primeiro, o óbvio. Se você vai criar uma personagem feminina que é supostamente independente e forte fazer da única plotline dela um pseudo amor proibido não é a decisão mais esperta. Há uma tentativa de mostrar outros motivos para as ações de Tauriel que não o simples fato de ela estar apaixonada por Kíli, que consistem nela ser contra o isolamento dos elfos e a favor de ajudar os humanos (e anões) na luta contra Sauron, mas a força motivadora dela ao tomar a decisão que a leva a ser banida continua sendo seu amor por Kíli. Quando ela parte de Mirkwood em DOS para acompanhar os anões ela pode até acreditar que está fazendo algo certo, mas o que a faz ter coragem de abandonar seu reino, seu povo e seu rei é o que ela sente por Kíli apenas. Resumindo: ela pode até ter desejado partir tendo como base seus ideais, mas ela não o faria se não sentisse nada pelo anão. Ela continuaria obedecendo a Thranduil e servindo Mirkwood mesmo que insatisfeita. Esses ideais de Tauriel ficaram parecendo apenas uma desculpa para ela sair por aí correndo atrás do Kíli, o que também acontece durante BOTFA.

Segundo, anões e elfos não se gostam muito no mundo criado por Tolkien, como vocês provavelmente já sabem, e é por isso que a amizade de Gimli e Legolas em O Senhor dos Anéis é tão importante. Colocar uma elfa e um anão se apaixonado em O Hobbit tirou muito da importância da amizade de Gimli e Legolas e até mesmo da admiração que Gimli passa a ter por Galadriel na trilogia original. Quem iria se lembrar da amizade entre um elfo e um anão ou da admiração que um anão sentiu por uma rainha élfica se ambas coisas aconteceram após o amor proibido que terminou em tragédia entre uma elfa e um anão? O esforço de Tolkien em acabar ou pelo menos diminuir o preconceito existente entre elfos e anões em O Senhor dos Anéis foi jogado nas sombras diante do romance entre Kíli e Tauriel criado por Jackson.

Outra coisa que me incomodou bastante foi a falta de informação sobre Mirkwood e tinha tanta coisa para falar que daria mais profundidade tanto a Legolas quanto Thranduil e a relação de pai e filho entre os dois que pensar nas oportunidades perdidas me deixa meio irritada até hoje. Oropher, pai de Thranduil, lutou na guerra contra Sauron junto aos homens, mas tomou algumas decisões erradas que resultaram na sua própria morte e na perda de grande parte do seu exército. Coube a Thranduil reconstruir o reino de seu pai e, ao contrário de Valfenda e Lothlórien que tinham anéis de poder para se proteger (Elrond e Galadriel respectivamente), Mirkwood nunca teve ajuda nenhuma. Para melhorar a situação, o reino de Thranduil é próximo de Dol Guldur e por isso sempre recebeu ataques constantes. E ninguém de nenhum canto da Terra-média jamais tentou ajudá-los.

Então, não, eu não culpo Thranduil nem um pouquinho por não querer ajudar ninguém e preferir ficar entocado em seu reino cuidando dos seus problemas. E é aqui que Tauriel perde ainda mais pontos comigo, principalmente por causa da cena de BOTFA onde ela chega a ameaçar Thranduil - seu rei - porque ele não quer ir atrás dos anões que se encaminham para uma emboscada. E, desculpe, mas não consigo não pensar que Tauriel estava tão desesperada para salvar os anões por outro motivo que não Kíli.

Nada disso - Oropher, os ataques constantes de Dol Guldur, o fato dos elfos de Mirkwood terem tido que se virar sozinhos por muito tempo, etc - foi mencionado no filme. Escolheram lotar as cenas em Mirkwood com o pseudo desenvolvimento do romance entre Kíli e Tauriel, e além disso ter desviado a atenção da história do reino, também serviu para transformar Legolas em um personagem ciumento que, assim como Tauriel, também deixa seu reino, seu povo e seu pai (e rei) por estar apaixonado. Em BOTFA ele chega a se recusar a voltar para Mirkwood porque Thranduil baniu Tauriel, mesmo ele tendo toda a razão do mundo para ter feito isso. E sim, Legolas se redime um pouco no aspecto ciumento em BOTFA, mas o filme acaba com ele ainda se recusando a voltar a Mirkwood.

E nem mortinha que eu engulo um personagem que deixa não só sua família, mas todo o seu povo - porque né, Legolas é um príncipe - primeiro para seguir alguém por quem o personagem está apaixonado e depois por guardar mágoa por esse mesmo alguém ter sido banido por razões completamente lógicas. O Legolas de O Hobbit é um Legolas completamente diferente do de O Senhor dos Anéis, que tinha ido a Valfenda apenas para pedir um conselho, mas que acaba embarcando em uma jornada que pode facilmente levá-lo a sua morte por achar que aquilo era o certo a se fazer.

Em BOTFA Legolas conta a Tauriel como sua mãe morreu em Angmar, o que é completamente criado por Jackson, mas que o fandom não vai ter dificuldade alguma em aceitar porque é o que todo mundo pensa que aconteceu de qualquer jeito. Gostei de terem mencionado a mãe dele, mas não gostei de como todo o resto foi apresentado. Primeiro, como diabos Tauriel não sabia que sua rainha tinha sido assassinada por orcs e que seu corpo jamais foi recuperado? Foi um modo de revelar o que aconteceu com ela meio estúpido, já que não faz sentido nenhum Legolas ter que contar isso para Tauriel. Poderia ter sido para qualquer outro personagem que não Thranduil ou, talvez, Gandalf, mas ainda assim Tauriel foi escolhida. Muito provavelmente porque Legolas a segue o filme inteiro.

Há um ou dois meses atrás vi um rumor de que Jackson faria Thranduil ir até a Montanha para pegar algo de sua esposa - supostamente as joias apresentadas no filme por 3 segundos. Quando vi Thorin zombar que Thranduil adoraria ter aquelas joias, fiquei bastante animada. Pensei que ia haver alguma menção à mãe de Legolas - e teve, como eu já disse - por aquelas joias serem dela de acordo com o rumor, mas a coisa ficou nisso mesmo. Sim, Thranduil queria aquelas joias. Sim, a mãe de Legolas morreu em Angmar. Não, ninguém vai explicar a relação entre as duas coisas e sim, vai ficar tudo jogado na narrativa mesmo. O público que se vire para entender, ué. 

Junte isso ao fato de que houve uma tentativa de mostrar o efeito que a morte da mãe de Legolas teve na relação entre Thranduil e Legolas e que essa tentativa foi extremamente mal-feita que vão entender porque eu acredito que esse filme foi para os cinemas com pelo menos um quarto faltando.

Outras duas coisas me incomodaram: Thorin e sua doença do ouro, que aconteceu de modo muito desajeitado e apressado, e principalmente as mortes de Kíli e Fíli.

Thorin teve uma morte mais digna que Kíli e Fíli. Fíli, desde o segundo filme bem ignorado graças à história amorosa de seu irmão, morre de um jeito que deveria ter sido chocante se não tivesse acontecido tão sem emoção. Kíli parte então atrás do cara que o matou, mas no meio do caminho encontra Tauriel e, adivinhe!, morre tentando salvá-la. Uma das coisas que sempre gostei em O Hobbit é justamente a ironia - meio amarga, sim - de que Thorin, Kíli e Fíli, os herdeiros do trono de Thrór e os mais interessados na recuperação de Erebor, são os únicos anões que morrem. Thorin morre quase que como para se redimir de ter caído nas garras da doença do ouro e Kíli e Fíli morrem para ilustrar que mesmo que quando se consegue seu objetivo - ter Erebor de volta - se algo for feito errado - Thorin recusando-se a ajudar as pessoas que haviam perdido suas casas graças a ele por pura ganância - o pior vai acontecer. O Hobbit com seu ouro de Smaug, assim como O Silmarillion com suas Silmarils e O Senhor dos Anéis com o Um Anel, sempre mostrou como a ganância causa coisas terríveis, na minha opinião. O Hobbit também acaba sendo a história de Thorin e seus herdeiros, Fíli e Kíli. Ver Fíli morrendo de modo aleatório e desajeitado e ter que assistir Kíli morrendo por outra pessoa que não seu irmão ou tio era justamente tudo o que eu - e não estou sozinha nisso, pode acreditar - não queria. 

Jackson teve a ideia absurda - pra mim, claro - de colocar relacionamentos amorosos acima de relacionamentos entre pessoas da mesma família e acima da lealdade para com um reino e seu povo. Isso acontece com Tauriel, que abandona Mirkwood por Kíli, com Legolas, que abandona Mirkwood e seu pai por Tauriel, e com sua escolha de isolar Fíli, Kíli e Thorin só para fazer Kíli morrer por Tauriel. E, como se não bastasse, Legolas salva Tauriel após Kíli ter morrido. Ou seja, Tauriel é uma guerreira incrível, mas ainda assim acaba sendo salva por dois caras que a amavam e que praticamente ditaram - Kíli bem mais que Legolas - tudo que acontecia com ela nos dois filmes.

Não sei se é porque sou tudo menos romântica nessa vida, mas eu odeio - e odeio mesmo - ver coisas como relações entre pai e filho, ou irmão e irmão, ou a lealdade a alguém ou alguma coisa, sendo colocadas de lado por causa de romance, sendo este correspondido ou não. É um dos meus maiores pet peeves com qualquer tipo de história que eu leio, não importa o gênero.

A única coisa que gostei nessa história toda de Kíli-Tauriel foi como houve uma brecha, em uma das cenas finais, para a relação entre Thranduil e Tauriel melhorar. Acredito que Tauriel passou a entender mais Thranduil após perder Kíli, já que Thranduil perdeu sua esposa, e isso o torna de certo modo parecidos. Houve algum entendimento/identificação entre os dois nessa cena, e isso me agradou bastante, mas como o resto do filme, foi algo completamente solto na narrativa.

Resumindo, muitos aspectos de O Hobbit poderiam ter sido muito melhores e dado muito mais profundidade aos personagens e à história se houvesse tido alguma habilidade na hora de colocá-los no roteiro ou na hora de construir os personagens. Ainda gostei do filme, mas sim, a coisa toda me deixou bem desapontada. Os três filmes juntos não ficam com mais de 3.5 estrelas, na minha opinião.
editora generale fantasia resenhas

Resenha: A Traição ao Imperador, Michael Moorcock

14:33neo
Elric de Melniboné: A Traição ao Imperador | The Sailor on the Seas of Fate | The Weird of the White Wolf | The Vanishing Tower | The Bane of the Black Sword | Stormbringer | Elric at the End of Time | The Fortress of the Pearl | The Revenge of the Rose | +
Michael Moorcock
Generale
A história de 'Elric de Melniboné', o imperador albino e feiticeiro, é uma das grandes criações de fantasia moderna. Um fraco e introspectivo escravo de sua espada, Stormbringer, ele é também um herói cujas aventuras e andanças sangrentas levam-no, inevitavelmente, a intervir na guerra entre as forças da lei e do caos. Um clássico do gênero espada e feitiçaria, Elric de Melniboné é um ícone excepcional da fantasia de violência, poder, política e guerra. Neste livro, Elric enfrentará a ameaça ao império de Melniboné e transitará entre o uso da magia e seus princípios morais, que o impedem de tomar algumas decisões. Além disso, sua amada Cymoril encontra-se em perigo, e ele não medirá esforços para salvá-la. Pela primeira vez, a editora Generale traz para os leitores brasileiros a tradução dos textos originais da Saga de Elric de Melniboné, sendo este o primeiro livro.

Esse livro só não é a encarnação do tédio em forma de história porque é curto demais.

Ele simplesmente... Não faz sentido.

Nada em Elric de Melniboné faz sentido. 

Sabe, acho que clássicos da fantasia simplesmente não são pra mim. Sim, eu sei que O Senhor dos Anéis é um clássico (e Nárnia também), e acho que a essa altura do campeonato todo mundo aqui já sabe que eu adoro O Senhor dos Anéis e coisa e tal, mas acho que o resto dos clássicos não funciona comigo. MagoA Espada de Shannara e agora Elric de Melniboné... Nenhum deles me convenceu. Na minha opinião são mal escritos, com péssimos personagens, sem nenhum senso de ritmo ou worldbuilding. Mas a fantasia de hoje em dia é dominada pelo grimdark, subgênero que eu também odeio, então o que fazer?

Mas né, voltemos para Elric de Melniboné e para o motivo pelo qual escolhi dar uma nota baixa pra ele.

Bem, as ideias do livro são boas. Temos um país, Melniboné, lar de um tipo de criatura (humanos??) que governou o mundo durante dez milênios, mas que nos últimos quatro ou cinco séculos perdeu a força. Melniboneanos são diferentes; eles não se importam em ser do bem ou do mal, e praticamente são a favor de fazer tudo para se conquistar a satisfação deles próprios. Eles não sabem o que é compaixão ou misericórdia ou qualquer outra coisa do tipo, e é por isso que Elric, o atual Imperador de Melniboné, é visto como estranho e até mesmo fraco. Elric costuma "negar" as tradições melniboneanas e pensa em ter "consciência" e "morais". Acho que o plano era fazer o leitor simpatizar com esse cara que, diferente de todos de seu povo, consegue ter o mínimo de hm, bondade, para ser considerado humano.

Mas não funcionou. Sabe por quê? 

Porque Elric é um hipócrita. E burro. Um hipócrita burro. 

Melniboné tem escravos. Elric está sempre perdoando Deus e o mundo (mas principalmente seu primo que quer 1) roubar seu trono, 2) roubar a guria que ele gosta e 3) matá-lo) e falando sobre ter "morais" e "consciência", mas em NENHUM momento do livro este nosso projeto de humano e de pessoa supostamente boa gasta uma vírgula de energia para considerar o fato de que o país onde ele é rei/imperador tem escravos e que, hey, talvez isso não seja algo correto. Os escravos servem a ele, mas não, ele vai ficar todo mimimi morais mimimi pra cima de outros melniboneanos ou com humanos de outros reinos. Ter morais e consciência para se tocar que ter escravos não é algo certo??? Pra quê???

É por isso que ele é um hipócrita. As morais e a consciência dele só servem para quem ele considera como igual. O resto que se dane, ué.

Ele também é burro. Muito burro. Sabe, Elric nasceu doente. Ele não tem muita energia e sempre tem que tomar umas poções aí para recuperar a força, e tem que tomá-las todo dia. O que você faria se tivesse que tomar um remédio todo dia para continuar vivendo? Carregaria-o por aí o tempo todo, certo? 

Elric não faz isso. Ele vai pra batalhas o tempo todo sem ter tomado a poção e sem tê-la por perto. Isso é burrice, gente. Ou melhor, isso acontece porque o plot said so. E não faz sentido.

Como eu disse lá em cima, nada nesse livro faz sentido.

Nenhum personagem convence. Mas nenhum mesmo. São todos tipo NPCs de jogos online; só estão ali para dizer a coisa certa no momento certo para que o protagonista possa seguir para a próxima missão e fim. Nenhum tem personalidade e voz própria. E a Cymoril, a amada do nosso querido personagem principal, bem, ela é a clássica princesa sequestrada que precisa ser salva. No início eu até tive esperanças de que ela seria uma boa personagem e cheguei a concordar com ela várias vezes no momentos em que ela tentava colocar um pouco de senso no cabeça dura do Elric, mas no final ela só serviu mesmo para esperar o príncipe não tão encantado quietinha no covil do maligno primo do mal.

Mas, sabe, até que a sociedade de Melniboné não foi tão sexista quanto poderia ter sido. Não tem nenhuma mulher na história além da Cymoril e a própria Cymoril é ruim e coisa e tal, mas poderia ter sido bem pior, levando em conta como alguns livros de hoje em dia escolhem construir suas sociedades. Continua sendo muito ruim de qualquer jeito.

E a escrita... Uma tragédia. O ápice do tell e a completa morte do show. O autor conta tudo para o leitor. Tudo. Temos infodumps a cada quatro frases e a biografia praticamente toda de cada personagem no momento em que ele aparece. As descrições são sofríveis, as cenas são corridas e o livro todo se passa num tapa sem causar emoção alguma além de enfado. 

A parte triste é que Elric de Melniboné poderia ter sido uma ótima história. Algumas ideias me chamaram a atenção: os dragões adormecidos, os Senhores do Caos, os Elementais, as espadas com consciência própria e como os personagens teriam que lidar com elas, etc. Elementos que seriam incríveis em uma história bem escrita e com bons personagens, mas que aqui são tipo agulhas perdidas no palheiro. 

Conclusão: esse livro não tem qualidade nenhuma. Zero. Neca. None.

Mas é curto e a edição da Generale é muito linda (encontrei uns dois erros na revisão, porém). Então é um livro ruim, mas pelo menos acaba cedo. 1.0 estrela.

5 estrelas fantasia fantasia lgbtq

Resenha: Captive Prince, C.S. Pacat

17:58neo
The Captive Prince Trilogy: Captive Prince | Prince's Gambit | Captive Prince #03
C.S. Pacat
Penguin Books
★★★★★
Damen é um herói para seu povo e o verdadeiro herdeiro do trono de Akielos, mas quando seu meio-irmão toma o poder, Damen é capturado, despojado de sua identidade e enviado para servir o príncipe de uma nação inimiga como um escravo de prazer.Bonito, manipulador e mortal, seu novo mestre príncipe Laurent simboliza o pior da corte de Vere. Mas na teia política letal da corte veretiana nada é o que parece, e quando Damen se vê preso em um jogo pelo trono, ele deve trabalhar em conjunto com Laurent para sobreviver e salvar seu país.Para Damen, há apenas uma única regra: nunca, jamais, revelar sua verdadeira identidade. Porque o homem que Damen precisa para escapar é o único com mais motivos para odiá-lo do que qualquer outra pessoa…*

Eu estava tão pronta para odiar esse livro.

É sério. Encontrei-o no Goodreads na mesma ocasião em que achei Luck in the Shadows, quando estava procurando por livros de fantasia com diversidade (tanto de sexualidade quanto de raça), e a sinopse me fez ficar meio ew. Veja bem, como comentei na resenha de Luck in the Shadows, a literatura de fantasia LGBTQ é voltada principalmente para o romance, coisa que eu não aprecio muito por não gostar de livros só de romance, mas outro aspecto também contribui para esse “desgosto” meu: o fato de que a maior parte desses livros sempre acaba sendo de erótica.

Nope, eu não tenho nada contra quem lê ou escreve histórias assim, mas quando 90% dos livros de fantasia LGBTQ (mais os que falam de romance entre homens) é assim isso é sinal de que há um problema, e esse problema se chama fetish. Sabe a cena lésbica protagonizada por mulheres heterossexuais em O Festim dos Corvos, quarto livro de ASOIAF? Aquilo é um presente para os homens heterossexuais que leem esses livros. É fetish, e é banalizar e rotular esse tipo relacionamento apenas para satisfazer um grupo entre os leitores, porque, bem, alguns homens acham mulheres lésbicas sexy (mas apenas se forem bonitas, do contrário é feio e repugnante). E isso também acontece com algumas mulheres, que também acham homens gays sexy (novamente, apenas se forem bonitos). Como são os homens que mandam na mídia mainstream, a “fetishzação” (?) de relacionamentos lésbicos aparece na TV e nos livros de sucesso, e como mulheres geralmente não têm vez, a “fetishzação” de relacionamentos gays fica restrito a nichos literários minúsculos se comparados ao tamanho do mercado.

É o que acontece muito com a literatura de fantasia LGBTQ. Estou dizendo que todos são assim? Não. Alguns são eróticos porque são eróticos e acabou, do mesmo modo que romances heterossexuais o são, mas enquanto alguns têm uma qualidade ótima, muitos não se preocupam muito com construção de personagem ou de plot, e dão a impressão de que é o sexo apenas pelo sexo. O que, na minha opinião, não é problema (acredito que se tem público é válido, mas uma não “fetishzação” de relacionamentos LGBTQ seria uma maravilha, sabe); o problema é a total falta de histórias de fantasia LGBTQ que não são assim.

Tem gente que não gosta de livro com sexo ou que não se importa se este não for um elemento frequente, e que gostaria muito de ler histórias LGBTQ que se parecessem mais com as mainstream heterossexuais, que (normalmente) são mais sobre o desenvolvimento do relacionamento do casal ou que possuem um plot não voltado para o romance. (cof eu cof). Acredito inclusive que a literatura de fantasia LGBTQ acaba afastando o público mainstream por ser tão dominada por livros mais sexuais.

Então, sim, mais livros com mais desenvolvimento de personagem/plot para a literatura fantástica LGBTQ, por favor (sexuais ou não, mas de preferência não sexuais e tal).

(Tipo Luck in the Shadows, saca).

Enfim, voltando para Captive Prince, pensei que esse livro se encaixaria totalmente na categoria “‘fetishzação’ de relacionamentos homossexuais”, mas resolvei lhe dar uma chance porque o tanto de resenha dando 5 estrelas para essa história não está no gibi. Baixei os livros e comecei a ler o primeiro volume quando já era de tarde. O resultado? Já era umas 3 da matina quando terminei o livro 2 e lembrei que o mundo existia e que, hey, eu tinha que acordar em três horas para ir pra faculdade. Oops.

(Claro que não dei a mínima pra isso e fui atrás do livro 3 apenas para descobrir que ele ainda não foi lançado) (imaginem minha agonia).

Os personagens, o worldbuilding e a escrita foi o que me fizeram gostar tanto de Captive Prince, tanto que os dois volumes da série foram os únicos a receber 5 estrelas de mim esse ano além de Aprendiz de Assassino da Robin Hobb. 

O mundo de Captive Prince não é muito abrangente. A história se passa quase completamente em Vere, e só recebemos muitas informações mesmo da própria Vere e de Akielos, país de Damen (cujo nome de verdade é Damianos), onde os nomes das pessoas e lugares meio que soam gregos (coisa que não tinha visto antes em livros de fantasia, o que me surpreende porque é uma ideia tão óbvia???). Os dois países praticam a escravidão, mas de modos bem diferentes. Enquanto em Akielos os escravos são tratados com respeito e até mesmo afeto, em Vere eles são vistos como menos que animais. Aliás, Vere é o país mais “diferente” da história, e como o vemos através de Damen, as diferenças culturais entre as duas nações ficam bem evidentes. Homossexualidade não é visto como algo horrível em nenhuma delas, porém, e em Vere relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são muitas vezes preferidos entre pessoas solteiras, já que os veretianos abominam a ideia de filhos bastardos, então relacionamentos entre homem/homem e mulher/mulher são extremamente aceitos e a sociedade os vê como algo normal.

(Um mundo de fantasia sem homofobia??@#$@!!!! Que milagre, hein?)

Há sexo (e estupro) nos livros também, graças à cultura de Vere. Sim, a maior parte desse tipo de violência é direcionada aos escravos (a coisa toda me deixou meio horrorizada e meio ew, mas o Damen também fica completamente horrorizado, então é aquela velha história de choque cultural). [SPOILER PEQUENO] Não há nenhum tipo de interação romântica/sexual entre os personagens principais no primeiro livro, e no segundo isso só acontece lá pro final, o que achei absolutamente fantástico, porque yay, desenvolvimento do relacionamento dos personagens!!!! [FIM DO SPOILER].

A escrita também é ótima. Não é do nível de descrição que eu gosto geralmente, mas é rápida e envolvente, e fez com que eu lesse os dois livros tão sem perceber que nem parecia que eu estava lendo em outra língua. 

Mas o que conquistou mesmo foram os personagens. Captive Prince é interessante porque não se encaixa em fantasia voltada para o plot ou em fantasia voltada para o romance, mas sim em fantasia voltada para os personagens. Todos, dos principais aos secundários, possuem objetivos e personalidades próprias, e isso torna difícil de decidir quem é confiável ou não; não lembro de um sequer que foi reduzido a uma trope ou estereótipo, aliás. 

Apesar de adorar o Damen (os comentários dele são sempre a+), Laurent é de longe, muito longe, o meu preferido. De início pensei que ele fosse ser o já manjado príncipe frio e blá blá blá, mas Laurent é bem mais profundo e bem desenvolvido, e todos os seus relacionamentos com outros personagens são muito interessantes (destaque para o com o Damen, lógico, mas também para o com seu irmão, Auguste, que morreu em uma guerra entre Akielos e Vere e que, hm, foi morto pelo Damen, e o com seu tio, o rei, que se tornou regente e que supostamente deveria governar até que Laurent se tornasse de maior idade, mas que agora meio que não quer devolver o trono). Como eu disse, Captive Prince é mais sobre os personagens, então as intrigas e jogos pela coroa de Vere derivam justamente da relação entre Laurent e seu tio (e por isso eu classificaria essa história como baixa-fantasia).

O relacionamento entre Laurent e Damen, aliás, é incrível e se desenvolve de uma forma totalmente verdadeira. Já cansei de ver essas histórias em que o casal (hetero, homo, não importa) se odeia no início e depois se apaixona, já que na maior parte delas essa transição é feita de modo completamente sem sentido. Em Captive Prince não. O romance é maravilhoso não pelas cenas em que há alguma interação romântica (praticamente inexistentes durante 90% dos dois livros juntos), mas sim porque podemos ver (e sentir) que a coisa toda é real. E uma boa parte disso se deve à caracterização dos personagens, que se mantém consistente durante toda a história. Falando nisso, acho que muitas pessoas não se dão conta de caracterização é a chave para tudo, e se tratando de romance é essencial. Uma caracterização pobre e mal-feita teria feito alguma coisa rolar entre Laurent e Damen no início do livro um, porque muitos escritores pensam que ao escrever romance tem que se colocar interações românticas/sexuais logo de cara, já que supostamente é isso que o leitor quer (é, mas não desse jeito). E se algo tivesse mesmo acontecido entre Laurent e Damen no início isso iria total e completamente contra suas personalidades, o que tornaria a coisa toda irreal, fraca e sem importância. Não faria sentido. Um leitor mais atento acabaria pensando, ei, isso não tem nada a ver com o modo com que o Laurent e o Damen agem e ele estaria certo.

Felizmente, a caracterização da Pacat é uma das melhores que eu já vi. No blog dela há alguns posts sobre como ela estruturou algumas cenas, os dvd commentaries, e nossa, como também sou (uh, quero ser) escritora me bateu até o desânimo ao perceber o quanto de caracterização ela considera antes de escrever uma linha de diálogo, porque eu não me importo tanto com isso, mesmo sabendo que é essencial. Então, né, uma no meio da minha cara pra ver se aprendo.

E para finalizar, os plot twists são ótimos e realmente inesperados. Eu não estava esperando nenhum deles em um livro desse gênero, porque geralmente não há muito cuidado com plot (ou personagem), mas né, eu estava enganada.  

Aliás, tudo nesses livros foi ótimo e eles próprios foram bem inesperados. Nunca mais julgo um livro pela sinopse (tá, julgo, mas pelo menos me comprometo a lhes dar uma chance). Captive Prince foi uma surpresa tão boa que mal posso esperar para comprar os livros de verdade, mas isso só ano que vem (Captive Prince era postado na internet, depois publicado de modo independente e agora foi escolhido por uma editora, que vai lançá-lo de novo, so yay, mal posso esperar para ter minhas edições uwuwuwuwuwu) (e mal posso esperar pelo livro 3, acelera aí por favorzinho, Pacat).

Indico Captive Prince para quem está procurando uma fantasia mais diversa, com personagens excelentes, worldbuilding interessante e escrita envolvente. 5.0 estrelas.

*tradução livre
fantasia leya literatura estrangeira

Resenha: A Canção do Sangue, Anthony Ryan

19:34neo
A Sombra do Corvo: A Canção do Sangue | Tower Lord | Queen of Fire
Anthony Ryan
Leya
★★★★½
Quando Vaelin Al Sorna, um garoto de apenas 10 anos de idade, é deixado por seu pai na Casa da Sexta Ordem, ele é informado que sua única família agora é a Ordem. Durante vários anos ele é treinado de forma brutal e austera, além de ser condicionado a uma vida perigosa e celibatária. Mesmo assim, Vaelin resiste e torna-se líder entre seus irmãos. Ao longo de sua jornada, Vaelin também descobrirá de quem foi o verdadeiro desejo para que ele fosse entregue à Ordem o objetivo sempre foi protegê-lo, mas ele não tem ideia do quê. Aos poucos, indícios de uma esquecida Sétima Ordem e questões acerca das ações do Rei Janus fazem Vaelin Al Sorna questionar sua lealdade. Destinado a um futuro grandioso, ele ainda tem que compreender em quem confiar. Neste primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo, Anthony Ryan estreia de maneira promissora na literatura com uma aventura repleta de ação.
Faz uns bons 20 minutos que estou encarando a página de A Canção do Sangue no Goodreads, indecisa entre dar cinco ou quatro estrelas para esse livro. Já li outras resenhas, pensei sobre a história, a escrita e os personagens, encarei a página mais um pouquinho e refleti sobre os outros livros que já receberam essas notas altas de mim. Veja bem, esse ano só dei cinco estrelas para três livros. Seria, então, A Canção do Sangue o há muito esperado quarto?

Depois de pensar muito, decidi que não. Mas admito que ele chegou muito, muito perto.

Antes de mostrar os motivos que me levaram a não dar a nota máxima para esse livro, vou falar dos que quase me fizeram fazer isso. Em primeiro lugar, A Canção do Sangue faz parte do tipo de livro que eu mais gosto; sólido, bem escrito e envolvente. Histórias assim parecem te sugar para dentro das páginas com tanta força que quando algo te interrompe você tem que piscar algumas vezes para se desvencilhar do que está acontecendo com os personagens antes de se virar para o mundo real. Infelizmente, não costumo achar muitos livros assim, mas alguns exemplos são O Nome do Vento, As Crônicas de Gelo e Fogo, Aprendiz de Assassino, Captive Prince e A Passagem. Por mais que alguns defeitos irritantes estejam sim presentes em algumas dessas obras (cof As Crônicas de Gelo e Fogo cof), elas estão, na minha opinião, em um nível completamente diferente das demais.

Segundo, A Canção do Sangue tinha absolutamente tudo para dar errado. Ela é sim uma daquelas histórias de "coming of age", com o protagonista, Vaelin, tendo que passar por anos e anos de treinamento durante boa parte do livro. Eu estava esperando, com toda sinceridade, ficar muito entediada ao ler sobre esse treino todo, mas nope, eu não fiquei entediada em momento algum de A Canção do Sangue. O treinamento de Vaelin não foi enfadonho; muito pelo contrário, é durante essa parte do livro que vemos o desenvolvimento da amizade entre Vaelin e seus irmãos da Sexta Ordem, Barkus, Dentos, Nortah, Caenis e depois Frentis, e somos apresentados aos primeiros mistérios que envolvem tanto Vaelin quanto as Ordens da Fé. Não preciso nem dizer que a coisa toda é sim pra lá de interessante.

Terceiro, os personagens. A maior parte é muito bem desenvolvida (destaque para os já citados irmãos da Sexta Ordem; cada um tem personalidade e voz própria, e não estão na história apenas para ocupar espaço como sidekicks do protagonista) (sim, essa é uma indireta para você, Prince of Thorns) e é muito fácil simpatizar a maioria deles, até mesmo com os antagonistas.

Quarto, boa representatividade. Sim, isso é possível em livros de fantasia (amém!). E sim, as mulheres continuam em menor número (deve ter uma mulher para cada 50 homens nesse livro, sério), mas as que aparecem são muito bem construídas. Elera, uma Aspecto e portanto uma das pessoas mais importantes das Ordens, Lyrna, a princesa, bonita e muito inteligente (e manipuladora), Sella, uma Negadora poderosa (e muda, o que é uma novidade com toda certeza), Sherin, o par romântico do protagonista, que faz muito mais do que só se apaixonar por ele e tem sua própria história, e também a mãe de Vaelin, que sequer aparece de verdade na história, mas foi uma mulher incrível ao seu próprio modo. Tem até mesmo uma menção a uma mulher simplesmente maléfica e poderosa (porque mulheres podem ser vilãs e, acreditem, podem fazer isso sem serem sexualizadas apenas para indicar que o poder da mulher pode ser expresso apenas pela sedução) (outra indireta para você, Prince of Thorns), e a outra, mestre em uma arte que Vaelin sequer sabe como dominar.

Enfim, não são muitas, mas as mulheres de A Canção do Sangue têm poder, mesmo vivendo em uma sociedade tipicamente medieval que em alguns aspectos considera sim a mulher como um ser inferior ao homem. Então, como eu já disse várias e várias vezes em várias resenhas e posts, um mundo sexista não te impede de criar personagens femininas boas. A preguiça e a comodidade é que faz.

E, antes que eu me esqueça, há não-brancos e eles não são só para enfeitar. Há negros, morenos/mulatos e até mesmo asiáticos (não tem Ásia no mundo, mas) que vivem em uma parte distante do mundo. Um personagem importante (embora não principal) é "asiático" e ele tem sua própria história e suas próprias motivações. Ou seja, ele é um personagem de verdade e não apenas uma trope, como muitos não-brancos geralmente são em histórias de fantasia (olá pela terceira vez, Prince of Thorns).

Há até mesmo um indício de personagens não-heterossexuais (pasmem). É um indício bem fraco, mas né, pelo menos o livro admite que essas pessoas existem, ao contrário de tantos outros.

O próprio plot de A Canção do Sangue é também muito interessante. Desde o início nos são apresentadas perguntas que vão, pouco a pouco, sendo respondidas, mas que ainda assim só causam mais perguntas e mais mistério. Eu teria terminado esse livro bem mais rápido se a faculdade não estivesse sugando minha vida, porque é simplesmente difícil largar a história antes de terminá-la. E mesmo ao terminá-la você ainda é deixado com várias perguntas que provavelmente só podem ser respondidas ao ler o volume dois, que, infelizmente, você ainda não tem (=[). Além disso, gostei muito do fato de que foi o reino de Vaelin que causou a guerra principal do livro por interesses que podem ser considerados egoístas. Gostei de que foi o protagonista quem invadiu uma nação vizinha e matou o herói dela, tornando-se assim o vilão para seu povo. Uma mudança muito bem vinda do velho reino do protagonista como do bem x reino invasor do mal.

E, por último, eu gostei muito do worldbuilding. Não tem nada de inovador (na verdade, o mundo chega a ser bem genérico em vários aspectos), mas o modo como o autor apresentou e construiu tudo me agradou bastante. Gostei da Fé e das outras religiões, e de como a intolerância religiosa foi mostrada (e condenada). Gostei de como o autor apresentou personagens que acreditavam completamente estarem fazendo algo de bom para o mundo ao cometer atos horríveis em nome de sua crença ou de seu rei e de como alguns desses personagens acabaram percebendo o que tinham feito ou finalmente notando que rei algum é perfeito ou mesmo bom. Enfim, acho que o autor foi muito feliz ao mostrar tantos temas que são importantes (e polêmicos) no mundo real de uma forma clara e sem precisar ofender nenhuma religião (já que nenhuma de A Canção do Sangue pode ser considerada como inspirada em alguma real). É bem raro fantasias mostrarem tais coisas com habilidade ou até mesmo chegarem a tratar delas (e olha que a maioria é inspirada no nosso período medieval, bem conhecido por sua total intolerância religiosa), então esse é um diferencial da obra de Ryan.

Concluindo: A Canção do Sangue é um livro excelente que merece (e merece muito) a fama que tem. É até difícil de acreditar que esse foi o livro de debut do autor, mas ao lê-lo entendi perfeitamente porque, mesmo tendo sido lançado de modo independente apenas como ebook, ele conquistou o sucesso que tem hoje. Por que, então, não o dei cinco estrelas?

Porque sou chata. Sim, essa é a mais pura verdade. Só dou cinco estrelas para livros que me deixam completamente fascinada, para aqueles que se tornam meus favoritos para tipo, todo o sempre. A Canção do Sangue chegou muito perto de fazer isso, mas não rolou. Ao terminá-lo eu estava sim muito curiosa para saber o que acontece no próximo volume, mas não pude ignorar a sensação de que havia algo fora do lugar. Depois de pensar muito, descobri que a coisa fora do lugar era nada mais nada menos do que o próprio Vaelin e os mistérios que o cercam.

É meio difícil não comparar A Canção do Sangue à O Nome do Vento. Ambas as histórias são sobre garotos que se tornam lendas, e ambas são com o garoto em questão contando sua história para um escriba/cronista/historiador. O Nome do Vento tem as partes no presente em terceira pessoa e as do passado em primeira, A Canção do Sangue tem o relato do escrita em primeira e o passado em terceira, Kvothe é famoso por ser incrível em quase tudo que faz, Vaelin é igualmente famoso, mas só é incrível mesmo com a espada, e ambos estão fora de circulação por algum tempo no início da história, Kvothe por ter se tornado Kote e Vaelin por ter sido preso. Enfim, as semelhanças são muitas, mas as duas obras se diferenciam tanto que acabam tornando essas semelhanças bem superficiais. Cada série tem seu próprio tom e seu próprio estilo, apesar de parecerem tão iguais à primeira vista.

Por que comparo as duas então? Bem, porque eu acho que o que fez O Nome do Vento se tornar um dos meus livros favoritos é exatamente o que faltou em A Canção do Sangue para que ele também chegasse a ter esse status. Em ambas as histórias há o mundo normal, onde a magia é visto como algo diabólico/de contos de fada ou com uma magia bem científica no caso de O Nome do Vento, mas nas duas o leitor vai, pouco a pouco, descobrindo que existe sim uma magia além, algo maior e mais poderoso, de onde todos os mistérios do livro acabam surgindo. O que me encantou em o O Nome do Vento foi o mundo dos Fae, as lendas de Lanre e do Chandriano, e a ideia dos nomes verdadeiros das coisas, o mistério das Portas de Pedra e assim por diante. O que poderia ter me encantado e que chegou bem perto de fazê-lo em A Canção do Sangue foi os mistérios sobre a Sétima Ordem, os dons e a canção do sangue de Vaelin, os poderes de Sella e o lobo que está sempre por perto quando Vaelin precisa, e todo suspense envolvendo o Além e todas as religiões. Mas nada o fez, pelo simples fato de que não houve o suficiente disso tudo para que eu realmente ficasse interessada de verdade.

Se esses mistérios todos sobre Vaelin estivessem mais presentes na história, eu provavelmente teria gostado dela bem mais. O próprio Vaelin, apesar de ser um bom protagonista, não apresenta um desenvolvimento muito grande com o passar dos anos (Nortah e Frentis, por exemplo, o apresentam bem mais). Então sim, A Canção do Sangue é um livro incrível, mas faltou esse "algo mais" para que eu realmente chegasse a adorá-lo. Mesmo assim, ele é bom demais para apenas quatro estrelas. Entende meu dilema?

Enfim, sem mais delongas, 4.5 estrelas para A Canção do Sangue.

PS: Leya, qual foi a da revisão???? Vi interrogações em lugares errados, pensamentos juntos de fala, falas do mesmo personagem dispostas como se fossem de personagens diferentes, e até alguns erros de ortografia. ????

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