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Dicas de Escrita: estrutura 3 - ato I: personagens e riscos

12:56neo


Como mencionei na última matéria, o primeiro ato toma, mais ou menos, 25% do livro e nele podemos encontrar o gancho - as primeiras linhas/parágrafos da sua história, que servem para “capturar” o leitor -, o primeiro plot point (incidente instigante ou cena chave) e o que é talvez mais importante, os personagens e o que eles têm a perder. 

E é sobre isso que falarei hoje: personagens e o que exatamente esses personagens têm a perder durante a história.
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Dicas de Escrita: estrutura 2 - ato I: o gancho

15:06neo

No segundo post da série (e basicamente o primeiro com conteúdo de verdade), falarei um pouco sobre algo que estressa bastante nós escritores: o gancho.

O gancho é um dos elementos que deve estar presente no primeiro ato da história. O primeiro ato ocupa mais ou menos 25% da história e, como eu mostrei no primeiro post, nele temos:
  • O gancho
  • Personagens sendo apresentados
  • Riscos/coisas a se perder sendo apresentados
  • Primeiro plot point (incidente instigante ou cena chave)
O gancho é, como seu nome deixa implícito, aquilo que fisga os leitores. É o que faz com que eles fiquem interessados na sua história e curiosos sobre o que vai acontecer e com quem tais coisas vão acontecer. Obviamente, o gancho vem nas primeiras páginas do livro e é por isso que o primeiro capítulo - ou o prólogo - é tão importante. Sem um bom gancho nele, é bem difícil que continuem lendo sua história. Ou que sua história seja publicada.

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Dicas de Escrita: estrutura 1 - o que é?

16:12neo

Iniciando a série de posts sobre estrutura, comecemos com algo bem básico: o que é estrutura?

Já falei um pouco sobre isso nessa matéria, onde apresento as estruturas mais comuns (e que na verdade são uma só, divididas de modo diferente), mas em seu sentido mais básico a estrutura de uma história são seus ossos. O plot, seguindo a metáfora, seriam os músculos, e obviamente sem o osso músculo nenhum se sustenta. Ou seja, no fim das contas plot e estrutura estão extremamente ligados.

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Dicas de escrita: preparação - planejando o plot de uma série

16:00neo

(Na época em que escrevi esse post estava determinada a escrever minha série principal, A Canção da Fúria, antes de qualquer coisa, mas faz um tempo que a deixei de lado para me dedicar a um projeto mais simples. Ou seja, deixarei A Canção da Fúria para quando eu for uma escritora melhor).

Ou: como planejei o plot de sete livros em uma semana.

Todo mundo sabe que eu venho tentando escrever um livro desde 1.500 a.C, né? Se sabem, provavelmente se lembram do fato de eu nunca ter terminado o diabo do livro, sempre desistindo mais ou menos na metade. Obviamente não sou a única a passar por esse tipo de coisa, e as causas desse “bloqueio” podem ser várias, mas na maior parte das vezes ela é simples: falta de planejamento. 

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Dicas de Escrita: preparação - estrutura do plot

14:20neo


Plot é algo de extrema importância no mundo das histórias. É ele que atrai os leitores e é ele que pode carregar sua história se você falhar na hora de criar seus personagens. Ou seja, o plot é a espinha dorsal da sua história, mas como exatamente ele é estruturado?

MÉTODO DOS CINCO PONTOS

Esse é o método mais básico e o mais famoso dentre os métodos que buscam explicar a estrutura de um plot. Como o nome diz, ele é dividido em cinco pontos que você pode encontrar abaixo:

lembrando que apicedepandora = chimeriane

  • Exposição
É na exposição que você apresenta seu personagem e o lugar onde sua história se passa, provendo ao leitor as informações necessárias para que ele possa entender os acontecimentos que virão. A exposição também serve de contraste, já que mostra a “vida normal” do protagonista antes que seu mundo seja virado de cabeça pra baixo. Se bem aproveitado, esse contraste pode ser bastante útil na hora de desenvolver o personagem
  • Ação crescente
É onde sua história realmente começa. É aqui que seu personagem sai do status quo e encara o conflito ou problema apresentado a ele, e onde provavelmente o seu leitor ficará interessado na história. É na ação crescente que boa parte do seu livro acontece, e seu papel como escritor é deixar o leitor curioso para saber o que os eventos aqui mostrados acarretarão no final.
  • Clímax
O clímax é o ponto alto de qualquer livro. É o resultado dos elementos que você apresentou na exposição e na ação crescente, onde tudo passa a fazer sentido ou onde tudo é resolvido. O clímax é a parte mais instigante e acelerada da história, e, teoricamente, isso significa que é também onde o leitor prestará mais atenção/ficará mais grudado ao livro. Sabe a parte bam! do livro? Ela deve acontecer aqui.
  • Ação decrescente
Aqui é onde você amarra os últimos nós da história. A parte tecnicamente mais importante já passou; a ação decrescente serve para você fechar os últimos buracos e dar as últimas explicações antes do fim do livro.
  • Resolução
O fim da história, onde tudo volta ao “normal” (ou quão normal pode ser possível agora) e, se for uma série, onde o conflito para o próximo livro é apresentado com mais clareza (claro que esse conflito já pode ter sido mencionado antes, mas aqui ele é mostrado como um objetivo mais imediato, obviamente). Basicamente o “e todos viveram felizes para sempre (ou não)” do seu livro.

MÉTODO DOS OITO PONTOS 

O método dos oito pontos é uma evolução do método dos cinco pontos, por assim dizer. É mais detalhado e por isso mais organizado, mas a essência é basicamente a mesma:


  • Estase

Como a exposição no método dos cinco pontos, a estase é onde você apresenta seus personagens principais e a vida que eles levam antes que a história comece de verdade. Usando O Senhor dos Anéis como exemplo (oops), é a vida que Frodo costumava levar no Condado antes de toda a confusão do Anel, mostrada na história através da festa de aniversário de Bilbo.
  • Incidente instigante 
É o problema ou desafio que seu personagem tem que enfrentar. Em O Senhor dos Anéis é a ameaça dos Nove do Anel, aqueles cavaleiros medonhos que ficam zanzando pelo Condado no início do livro/filme.
  • A missão
É o que seu personagem decide fazer (ou é forçado a fazer) depois do incidente instigante, o que faz a história começar a se mover. Em O Senhor dos Anéis isso acontece quando Frodo decide/é convencido a deixar o Condado e fugir para Valfenda, onde o Anel (e ele) estará mais seguro.
  • Surpresa
É o que acontece quando seu personagem tenta consertar os problemas que apareceram graças ao incidente instigante e graças à missão. Acontece mais ou menos na metade da história e é onde você meio que joga mais alguns problemas nas caras dos seus personagens ou faz com que eles aceitem mais problemas, tanto faz. Em O Senhor dos Anéis, isso acontece quando Frodo decide levar o Anel até Mordor para acabar de vez com a ameaça de Sauron.
  • Escolha crítica
É quando seu personagem toma uma decisão que basicamente ou muda o rumo da história inteira ou pelo menos o da história dele, além de mostrar de vez para seus leitores quem seu personagem é de verdade. Pense em Frodo negando o Anel a Boromir em O Senhor dos Anéis ou mesmo em Boromir tentando convencer Frodo a lhe dar o Anel. Essas escolhas - negar dar o Anel, tentar pegar o Anel - mostraram que tipo de pessoa ambos são, e também mudaram o curso da história por completo.
  • Clímax

O resultado da escolha crítica e por isso o ponto mais alto da história. Em O Senhor dos Anéis, isso acontece quando Boromir tentar tirar o Anel de Frodo a força e, como bônus, quando os orcs atacam a Sociedade. 
  • Reversão
A consequência tanto da escolha quanto do clímax que faz com que o protagonista mude de algum modo. Graças ao ataque de Boromir, Frodo percebe que tem que concluir sua missão sozinho, já que o Anel é um perigo mesmo para as pessoas que estão do seu lado. Se contarmos os personagens secundários, Aragorn, Legolas e Gimli desistem de ajudar Frodo e decidem salvar Merry e Pippin, e todos nós sabemos (ou quase todos, vai que né) o que acontece com Boromir graças a suas ações na escolha crítica e no clímax. Em um livro único, a reversão serviria apenas para mostrar o quanto o protagonista mudou, mas em uma série ela praticamente faz com que ele mude de objetivo (além de mudar de verdade, claro).
  • Resolução 
O fim da história. Em um livro único, é quando as coisas voltam ao “normal”, e em uma série é quando as novas decisões tomadas na reversão começam a ser colocadas em prática (Frodo fugindo, Aragorn, Legolas e Gimli partindo em busca de Merry e Pippin, etc).

A ESTRUTURA DE TRÊS ATOS

A estrutura de três atos é geralmente usada em roteiros, mas também serve para livros (geralmente). Gosto de pensar nesse método como um resumo dos métodos dos cinco e oito pontos:



  • Ato I - Set Up

É o estase, o acontecimento instigante e a missão, ou seja, basicamente o autor apresentando o personagem e o conflito principal.

  • Ato II - Confrontação
É a surpresa e a escolha crítica. Aqui o personagem enfrenta mais problemas e faz a decisão que o levará ao clímax da história.

  • Ato III - Resolução
O clímax, a reversão e a resolução. É o ato final, e portanto o ápice e a conclusão da história.

Bem, é isso. Esses são os três tipos de estrutura mais usados em histórias e os que você provavelmente já reproduziu inconscientemente em seus livros. Tente alinhar qualquer ideia sua que tenha um plot com qualquer um desses métodos ou teste filmes e livros. Te garanto que boa parte vai se encaixar certinho nessas estruturas. Aqui no ocidente esse tipo de história (apresentação - conflito - resolução) é a maioria esmagadora, e praticamente o que todos nós fazemos em qualquer meio de contar histórias. Lá no oriente há algumas que se diferem, mas aí é campo desconhecido pra mim.

Conhecer a estrutura do plot pode te ajudar muito na hora de estabelecer o ritmo e o rumo da sua história. Com o caminho iluminado, por assim dizer, fica mais fácil encaixar os acontecimentos e até mesmo planejar seu livro com mais eficiência. Espero que tenham gostado e qualquer coisa é só deixar um comentário.
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Dicas de Escrita: criando personagens - personagens femininas

16:31neo

Se eu fosse escolher o top 3 de tópicos mais polêmicos da comunidade de escrita, a criação e o desenvolvimento de personagens femininas com certeza estaria entre eles. A cada livro lançado e a cada ano que se passa, esse debate vai aos poucos se modificando, mas uma coisa é certa: ele nunca perde a intensidade, jamais deixando de mastigar tudo sobre aquilo que foi o motivo de seu surgimento. Que motivo é esse? Simples: a péssima representação das mulheres nos livros, filmes e seriados de ficção.

A Donzela em Perigo

Tudo começou com a famosa donzela em perigo. Regra nos livros mais antigos, ela, apesar de ser linda, geralmente da realeza e descrita como inteligente, servia apenas para... Bem, estar em perigo. Ou seja, apenas para fazer o herói sair de seu estado de conforto, lançando-se assim em uma grande e intensa aventura para resgatá-la.

Em outras palavras, esse tipo de personagem feminina servia apenas para desenvolver o personagem masculino principal, sendo, obviamente, não um ser completo por si só, mas sim um plot device sem profundidade ou personalidade própria. O foco não era a mulher como pessoa, mas a mulher como um meio para o protagonista mudar e entrar em ação, continuando assim a história dele e não a dela. Além disso, a donzela em perigo frequentemente acabava como “prêmio” para o herói, que em 90% das vezes terminava a história se casando com ela.

Um exemplo de donzela em perigo é Mary Jane, o par romântico do Homem-Aranha (e aqui falo apenas dos filmes, já que sei bulhufas dos comics).
Se você já assistiu aos filmes do Homem-Aranha, já deve ter notado que Mary Jane acaba sendo sequestrada algumas vezes, mas quantas dessas vezes realmente impactam Mary Jane como personagem? Nenhuma. Por quê? Bem, todos esses sequestros aconteceram para desenvolver Peter Parker, o próprio Homem-Aranha, então ela foi usada apenas como plot device (todo mundo sabe que Peter é apaixonado por ela, né? Quem melhor para ficar em perigo?). Mary Jane jamais teve reação alguma a esses acontecimentos; não teve traumas, não deixou de acreditar ou fazer algo, não passou a acreditar ou fazer algo diferente, etc. Ou seja, ela não mudou. Os vilões (todos, hm, homens) ganham bem mais desenvolvimento do que o par romântico do protagonista. Mary Jane poderia ser substituída por um abajur que o Peter gostasse muito e o resultado seria o mesmo.

É claro que personagens como Mary Jane não satisfizeram o público (principalmente o feminino, obviamente) por muito tempo. As pessoas começaram a exigir mulheres que não precisassem ser resgatadas o tempo todo, que pudessem defender a si próprias e ser independentes dos homens. O rebuliço foi tão grande que as coisas começaram a mudar, mas essa primeira tentativa foi, sinceramente, trágica.

A Personagem Feminina Forte

Na ânsia de satisfazer os pedidos dos leitores, os escritores – na época os homens eram a maioria na literatura mainstream – transformaram a donzela em perigo na Strong Female Character, ou personagem feminina forte, e ela se tornou uma dor de cabeça ainda maior para quem desejava (e deseja) ver as mulheres bem representadas na ficção.

Você pode perguntar algo como, mas se ela é forte, qual o problema?

O problema está justamente na definição de “forte” criada por esses escritores. Forte aqui não significa ser uma pessoa completa e bem desenvolvida, com medos, objetivos, qualidades e defeitos únicos, não significa ser um personagem independente e que não existe apenas para servir de plot device para o protagonista. Não, a força da personagem feminina forte é aquela vista e considerada como força masculina. É por isso que essas mulheres são praticamente homens no modo de pensar (aka são misóginas); elas consideram coisas “de mulherzinha” como maquiagem, roupas, etc, uma fraqueza, sabem muito bem se defender sozinhas e não aceitam ajuda de ninguém, muito menos de homens. São duronas e muitas vezes possuem língua afiada para lançar palavras de desprezo e desdém para mulheres femininas ou para homens que não são “machões”. Ou seja, esse conceito de “mulher forte” serve apenas para dizer que a força que geralmente atribuímos ao homem é a única válida.

O que até outras mulheres às vezes deixam de perceber é que ser feminina não significa ser fraca. Se importar com maquiagem, com festas, com roupas e não gostar de lutar fisicamente não é sinônimo de ser fútil ou de ser covarde. E, do mesmo modo, um homem não é só “um homem de verdade” se for o machão. Qualquer pessoa, de qualquer gênero, pode ser forte – ou fraca –, mas não são esses aspectos que a definem como um ou outro.

Quantas vezes você já não leu um livro em que a protagonista se considerasse “diferente das outras garotas” por não ser feminina? Ou quantas vezes já não viu sinopses com “fulana não é uma garota como as outras”? Aposto que várias e várias vezes. Por um segundo, pare e pense: o que essa diferença, esse “não é como as outras garotas”, quer dizer?

Se você pensou, essa protagonista é uma mulher ou garota forte e forte significa não apresentar características femininas, ou seja, lembrar um homem, que é o único que tem características dignas de serem consideradas fortes sinto em dizer que você está completamente certo.

Pera aí, Neo, vocês está me dizendo que é errado uma mulher ser mais durona e não usar maquiagem? Claro que não. O que estou dizendo é que é errado considerar uma mulher forte somente quando ela abdica de traços “femininos”, como a já citada maquiagem e outros aspectos tão discriminados por essas protagonistas da nova geração YA. Qual o problema em ser vaidosa? Por que a mulher tem que desistir de seu gosto por roupas, esmaltes e a coisa toda em ordem de ser “forte”?

E para registrar, é assim que as personagens femininas fortes são representadas muitas vezes:
A mulher acima está prestes a entrar em combate com uma armadura que não protege absolutamente nada e que deixa muito do corpo à mostra, o que, para qualquer um que tenha dois neurônios, é estúpido de se fazer quando se está prestes a lutar por sua vida. Mas quantas e quantas vezes mulheres em jogos, filmes e até séries não são retratadas com armaduras que revelam muito e são completamente inúteis? Por que isso acontece se usar uma dessas é obviamente burrice?

Ora, porque essas personagens femininas fortes, além de usarem características masculinas e serem consideradas fortes por isso, são escritas e retratadas para que homens heterossexuais as aproveitem. Elas estão praticamente nuas enquanto vão para uma batalha (!!) porque homens heterossexuais acham isso sexy. A coerência e o realismo nessas ocasiões são completamente esquecidos apenas para agradá-los.

Essas personagens femininas não existem como personagens independentes e muito menos como pessoas bem desenvolvidas e completas. Elas existem para reafirmar que o homem é quem deve ser exaltado e que tudo – até mesmo o corpo de mulheres lutando – deve servir a eles. Simples, né?

Como uma armadura feminina deveria ser representada:

Virgin x Whore

Outra coisa que acontece muito com personagens femininas e que deveria ser deixada definitivamente de lado é a ideia de que a menina pura, virgem e casta é melhor do que uma com vida sexual ativa. É muito comum ver essa dualidade (virgin versus whore) em livros de YA, onde a protagonista é virgem e a ex-namorada maléfica do par romântico é descrita de um modo que claramente indica que ela é sexy ou sexual de alguma forma. A protagonista, obviamente, é vista como boa; a ex-namorada, como ruim.

Essa ideia de que ser virgem = bom e ter uma vida sexual ativa = ruim é antiga e, sem dúvida, uma das consequências da nossa sociedade patriarcal. Mulheres sempre tiveram que esperar até o casamento para ter sexo, enquanto homens poderiam sair por aí com quantas mulheres quisessem sem serem vistos de modo ruim (na verdade, o contrário é bem mais provável). Logo, as mulheres que não fossem mais virgens eram frequentemente desconsideradas como boas esposas (mesmo que fosse óbvio que elas não eram mais virgens justamente porque surpresa!, os homens que saíam por aí precisavam de mulheres para conseguirem o que queriam) e as que fossem eram as esposas ideais. É por isso que até hoje mulheres com vida sexual ativa não são “material para casar” e são mal vistas por aqueles que sabem que ela não é mais virgem.

Olhar para uma mulher assim com desprezo é parte de um conceito chamado slutshaming que significa basicamente tentar fazer com que ela se sinta mal – se sinta envergonhada – por fazer sexo. Isso é, obviamente, estúpido; ter ou não ter sexo não interfere em nada no caráter de uma pessoa ou na sua possibilidade de ser boa ou não. O slutshaming é usado para tentar controlar a mulher e impedi-la de ser tão livre quanto o homem, já que esse tipo de pensamento acaba com a ideia de igualdade entre os sexos.

A mulher pura como a única boa é algo tão entranhado no nosso modo de pensar que em praticamente todo livro YA a protagonista é virgem, mas o par romântico, no entanto, raramente o é. Ele sempre pode ser experiente; ela, nunca, e cabe a ele ser o “primeiro homem de sua vida”. É como se estivéssemos repetindo “tradições” de mais de 50 anos atrás de um modo sutil e assim as perpetuamos, as mantemos vivas, mesmo que elas sejam extremamente nocivas para a liberdade e independência da mulher.

Não estou dizendo para erradicar todas as virgens da literatura. Não, longe disso. Estou dizendo que não se deve, de modo algum, demonizar a vida sexual de uma mulher ou santificar a virgindade de uma. Como eu disse lá em cima, isso não tem nada a ver com o caráter de um personagem.

Romance e personagens femininas

Eu adoro romance. Muita gente acha que não, já que eu geralmente odeio os romances que leio, mas na verdade acredito que essa é uma parte essencial de qualquer história, e que raramente deve ser deixada de lado (há alguns livros que simplesmente não comportam romances, e isso eu entendo). Meu problema, portanto, não é o romance em si; é o modo como ele é desenvolvido (e disso tratarei em outra matéria) e o modo como a personagem feminina é retratada neles.

Sendo bem sincera, muitos e muitos romances dos livros de hoje me perdem no momento em que a garota para a vida dela inteira por causa do garoto (cof Crepúsculo cof). Em várias histórias, a vida da protagonista não tem sentido nenhum até o par romântico aparecer, e a partir do momento em que ele aparece, ela não consegue pensar em mais nada. Ele se torna o centro da vida dela; família, amigos, objetivos, sonhos, tudo isso é esquecido em favor de se jogar nos braços do mocinho. Isso, é claro, em livros ditos “para mulheres”. Você já deu uma olhada em livros ditos “para homens”? Se não, deixe-me lhe dizer que o papel do par romântico neles (geralmente uma mulher) é infinitamente menor do que o do par romântico nos livros “para mulheres”, onde o já citado par romântico geralmente é um homem. Você por acaso já viu alguma sinopse com “fulano era um garoto normal até que fulana apareceu na sua vida”? O único que vem à minha mente Dezesseis Luas, mas fora esse, quais outros? Garanto que é bem difícil encontrar obras assim, mas e aquelas cujas sinopses dizem “fulana era uma garota normal até que fulano apareceu na sua vida”? Quão frequente essas são?

O que quero dizer ao dar essas voltas todas é que os romances estão sendo retratados DEMAIS com o aparecimento do garoto sendo a coisa mais importante na vida da protagonista. É claro que o papel de uma pessoa que você ama na sua vida é enorme, mas você ainda tem, bem, a sua vida. E quando essa pessoa começa a afeta-la de um modo ruim, é um sinal de que o relacionamento não é saudável e que deveria ou ser consertado ou finalizado. Construir um romance onde tudo na vida da garota gira em volta do garoto é o caminho mais rápido para ter seu livro rotulado como uma obra que prega e promove relacionamentos abusivos. E aposto que não você não quer nada disso.

E mesmo que seu livro narre um romance sem mais nenhum outro elemento, é essencial se lembrar disso: mulheres possuem uma vida além do seu relacionamento com o mocinho, e ignorar isso é fatal para sua história.

Trinity Syndrome

Hoje em dia muitos filmes, livros, séries, etc, possuem sim personagens femininas interessantes, mas muitos deles cometem um pecado: a falta do que fazer da tal personagem feminina desenvolvida e complexa.

Essas personagens são mais inteligentes, mais habilidosas e mais sábias do que os homens, mas na hora de realmente fazer a diferença elas saem do palco, dando espaço para que o homem, o protagonista, salve o dia mesmo quando literalmente todo mundo sabe que elas são melhores. Um bom exemplo disso é a Valka de Como Treinar o Seu Dragão 2. Valka é a mãe de Soluço e passou anos e anos estudando os dragões e resistindo sozinha ao vilão do filme. Mas na hora da batalha final ela é jogada nas sombras e Soluço, mais inexperiente, menos habilidoso, é quem faz tudo.

Ou seja, essas personagens são sim boas, são sim bons exemplos de mulheres bem construídas na ficção, mas no fim das contas elas continuam sem importância, continuam meio “extra” na história. Como corrigir isso? Bem, é só encontrar um bom motivo para a mulher mais habilidosa, inteligente e sábia não poder salvar o dia - ou deixar que ela o faça de uma vez por todas.

Mulheres no refrigerador 

Quantas vezes você já não viu um filme ou leu um livro sobre um homem atormentado pela morte de sua mulher/namorada? Ou sobre um homem buscando vingança por algo que foi feito contra alguma mulher especial em sua vida? Ou sobre um homem começando a fazer algo graças ao sofrimento de alguma mulher? Dezenas de vezes, aposto.

Esse hábito de atacar, machucar e matar mulheres para que os homens possam sofrer e entrar em ação é muito, muito velho. Teoricamente, não há nada de errado com isso; é claro que é normal buscar vingança por sua namorada morta ou tirar satisfações com a pessoa que machucou sua filha ou qualquer coisa do tipo. O problema começa apenas quando a mulher se torna um plot device para o homem - seu sofrimento, sua história, tudo pelo qual ela passou é irrelevante se não estiver em relação ao homem, ao personagem principal. A dor dela serve apenas para desenvolver ele, e não para avançar sua própria história. 

Um jeito muito fácil de evitar colocar sua personagem feminina no refrigerador é simplesmente dar uma história para ela. Faça da dor dela o desenvolvimento dela, e não de um homem. Se ela morrer, faça com que ela tenha sido uma pessoa completa e não apenas mais um caixão sobre qual seu personagem masculino possa chorar. Ou seja, é só se lembrar que: mulheres não existem apenas para fazer homens terem seu momento angst, seu momento de fraqueza, de choro; elas têm seus próprios objetivos, seus próprios medos e sonhos, e sua personagem os deveria ter também.

O mito do instinto materno 

O mito do instinto materno é aquele tipo de mito que não morre de jeito nenhum, não importa quanto tempo se passe (para meu horror). Em pleno século XXI ainda existe gente de todos os gêneros que insiste que uma mulher que não tenha filhos é uma mulher frustrada ou que toda mulher quer ter filhos, e que aquelas que não querem agora vão querer no futuro. O mesmo não acontece com homens; eles podem passar a vida inteira sem casar ou ter filhos e ninguém sequer pisca, mas uma mulher já de idade sem marido ou crianças? Pff, deve ser uma infeliz encalhada que ninguém quis, é claro.

Essa pressão toda para que mulheres tenham filhos e se casem é um elemento de nossa sociedade patriarcal que, apesar de os tempos terem mudado, ainda vê a mulher como a pessoa que deve cuidar da casa, do marido e das crias. Há esse miticismo todo na maternidade que não existe na paternidade, e muita gente adora apontar que o instinto materno é algo animal e portanto impossível de se evitar - gente que obviamente escolhe esquecer que a mamãe tubarão gosta de comer os próprios filhos ou que boa parte das fêmeas do reino animal vai expulsar ou abandonar suas crias no momento que elas provarem já ser independente o suficiente pra se virar sozinhas.

Ou seja, esse ~instinto materno~ é mito sim. Não há nenhuma força sobrenatural empurrando as mulheres para a maternidade. Algumas querem, outras não, e isso é normal. A única coisa que esse diabo de mito faz é simplificar as mulheres que são mães, que, acreditem ou não, são complexas, cheias de defeitos e qualidades, com seus próprios sonhos e objetivos. A mãe perfeita não existe simplesmente porque a pessoa perfeita não existe. 

Logo, não é uma boa ideia fazer tudo de sua personagem mamãe ser sobre os filhos dela ou retratar toda a força, inteligência, blá blá blá, dela como existente apenas por causa dos filhos. Retratar a falta de filhos como o fim do mundo então, é quase pior (a não ser, é claro, que a personagem queira tê-los de verdade e não somente porque mulher = fazedora de filhos por ordem da mãe natureza).

Demonização da sexualidade da mulher 

Vocês sabem que adoro Dragon Age, né? Pois bem, no jogo há alguns tipos de demônio, entre eles o demônio do desejo, que sempre, sempre mesmo, aparece na forma de uma mulher seminua. Nunca é um homem seminu. Por quê?

Como eu disse lá em cima, mulheres com vida sexual ativa são mal vistas pela sociedade, mas não é só isso. O próprio corpo da mulher é demonizado. Lembra de como na idade média a mulher era considerada a entrada do demônio na família? Então, essa mentalidade ainda persiste hoje. De modo bem mais subliminar, claro, mas não é a toa que a ideia da mulher ter que se vestir de tal modo para não estar ~pedindo para ser estuprada~ existe. O homem quer a mulher, mas a culpada é ela por, hm, ter um corpo e coisa e tal. Ela (como acontecia na idade média) é que é a tentação do pobre homem santo e não ele que é um tarado sem controle, claro.

É por isso que Dragon Age não tem demônios do desejo na forma de homens. O corpo nu de um homem é... o corpo nu de um homem, ué. O corpo nu da mulher, por outro lado, é muito, muito mais sexualizado. É a tentação, literalmente a porta do inferno. Ou seja, essa sexualização é associada a coisas ruins em boa parte do tempo. Quantas personagens femininas maléficas andam por aí seminuas e têm grande parte de sua maldade associada ao fato de elas serem sexy? Quantas vezes a beleza delas é vista como mais um obstáculo para o homem superar e resistir? 

Isso não quer dizer que mulheres sexy não podem ser vilãs ou que elas não podem usar sua beleza como arma. Elas podem claro, mas o corpo delas não deve ser demonizados no processo. A maldade deve vir da sua personalidade, dos seus atos, e não do fato de que ela por acaso tem seios e vagina.

Escrevendo personagens femininas

Se certa personalidade ou história parece chata com um personagem masculino, ela também vai ser chata em uma personagem feminina. E, antes de tudo, personagens femininas devem ter a capacidade de influenciar o plot. Se sua personagem é super interessante, complexa e bem construída, mas ainda assim não faz suas próprias escolhas e não muda a história de algum modo, ela é, bem, uma péssima personagem de qualquer jeito. Isso também se aplica a personagens de todos os gêneros, óbvio, mas são as mulheres que sempre acabam de escanteio e um pouco de atenção nesse aspecto só faz bem.

E aqui finalizo a matéria. Qualquer dúvida é só comentar. Fui.
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Dicas de escrita: criando personagens - heróis e anti-heróis

17:14neo

Foi-se o tempo em que heróis eram os únicos protagonistas que víamos por aí; os anti-heróis estão se tornando cada vez mais comuns e mais aclamados, ganhando a simpatia e a preferência de muitos leitores. Mas, ainda assim, o herói continua como o tipo de personagem mais usado e, quando bem escritos, amado pelo público. Com ambos sendo tão popular, às vezes fica difícil decidir qual deve ser o protagonista de sua mais nova história.

Heróis e anti-heróis são, como seus próprios nomes dizem, bem diferentes. Heróis são personagens indiscutivelmente bons, frequentemente movidos pela honra ou por morais convencionais, e por isso são considerados os verdadeiros “mocinhos”. Fazem de tudo para superar seus defeitos e são vistos como exemplos, e quando cometem erros ou desviam do “caminho certo” são consumidos pela culpa. Já os anti-heróis não são tão “perfeitos”; na verdade, eles possuem sua própria moral, são ambíguos e seus defeitos são bem mais marcantes. Anti-heróis fazem coisas que muitas vezes não são vistas como certas – como beber demais, usar drogas, xingar e ser o típico cafajeste. Para resumir, enquanto o herói é movido pela vontade de fazer o bem/o certo, o anti-herói pensa bem mais em manter a si próprio vivo, sendo, portanto, mais egoísta. O herói serve aos outros; o anti-herói serve apenas a si mesmo.

Mas espere aí, heróis não são simplesmente os protagonistas então?
antagonistas dicas de escrita vilões

Dicas de escrita: criando personagens - antagonistas e vilões

20:17neo

Assim como a maior parte dos personagens de uma história, o vilão ou o antagonista é extremamente importante para a construção do livro e do plot como um todo. Raras são as histórias que não precisam do famoso “cara mau” para se desenvolverem e conquistarem o leitor. Um vilão ou antagonista mal caracterizado pode tirar – e tirar muito – a qualidade de um livro, e um bem construído, obviamente, tem a capacidade de tornar qualquer história uma leitura inesquecível. Mas qual, exatamente, é a diferença entre um vilão e um antagonista?

Sabe quando você lê uma história e ao invés de cair de amores pelo protagonista acaba se apaixonando pelo “cara mau” e se identificando mais com ele? Ou quando esse tal “cara mau” é tão mau, mas tão mau que você não pode evitar sentir uma espécie de fascínio por ele, embora não goste de sua personalidade e nem o perdoe pelos seus atos maléficos? Se você respondeu sim para essas duas perguntas, já encontrou pelo menos um antagonista e um vilão, respectivamente, em livros que você já leu.

O antagonista não é mau por natureza. Ele tem seus medos, seus sonhos, seus entes queridos e até mesmo seus atos bondosos, e é justamente por isso que o leitor é capaz de se identificar mais com ele. O antagonista é uma pessoa normal que acabou do lado do mal da história, mas não é nem de longe aquela criatura maléfica e sem coração que vemos tantas vezes em histórias por aí e que já está tão enraizada em nossa mente como a única forma do “cara mau” ser. Seu antagonista pode até mesmo pensar que é o herói e que está fazendo algo bom, por exemplo, mesmo que coisas ruins tenham que acontecer para se alcançar esse bom objetivo.

Já o vilão é mau por ser mau mesmo. O vilão sabe que seus atos são errados e ele não se importa com isso; sua única preocupação é alcançar seus objetivos custe o que custar. Ele também possui seus medos e provavelmente seus sonhos (em alguns casos até seus entes queridos, embora seja raro), mas seus defeitos são tão marcantes que o leitor se sente incapaz de simpatizar com ele.

Ou, para resumir, antagonistas cometem atos ruins, vilões são ruins. Percebe a diferença?

Usando O Senhor dos Anéis como exemplo, temos Gollum, Sauron e o Um Anel como os “caras maus”: Gollum é um antagonista; apesar de cometer atos ruins – como assassinar Déagol para roubar o Um Anel e trair Frodo e Sam –, ele não é necessariamente mau. Muitas vezes nos encontramos até sentindo pena dele, já que reconhecemos que o Um Anel o transformou no que ele é durante a série; em alguns momentos até temos vislumbres do velho Sméagol, que não é, nem de longe, verdadeiramente maléfico. Sim, podemos desprezá-lo e achá-lo fraco, e isso é normal. Nem todo antagonista é criado para despertar o amor do público.

Já Sauron é um caso completamente diferente. Sauron era um dos “deuses” menores de Arda, o mundo de O Senhor dos Anéis, que foi corrompido por Melkor – ou Morgoth – um dos “deuses” maiores, simplesmente por desejar ter mais poder e por querer controlar os demais seres viventes. Sauron é um vilão por ter deixado para trás seu povo e seu mestre para satisfazer suas próprias ambições, agindo sem se importar com quem pode sair prejudicado. Ele não comete atos ruins somente; Sauron é pura e verdadeiramente mau.

O Um Anel consegue ser diferente tanto de Sauron quanto de Gollum. Enquanto Gollum é um antagonista ativo, o Um Anel é um antagonista passivo; o que isso significa na prática veremos em breve.
  • Antagonistas

Como eu disse ali em cima, antagonistas são pessoas normais e não seres completamente maléficos. Eles podem cometer atos maldosos e possuir defeitos realmente ruins, mas não são maus apenas pelo prazer de ser mau; o antagonista vê seu próprio objetivo como algo certo, algo que mesmo causando sofrimento a várias pessoas vale a pena ser alcançado. São eles que, geralmente, conquistam a simpatia e o amor dos leitores, ao contrário do vilão, que no máximo causa fascínio e se torna o personagem que todos amam odiar.

Porém, nem todos os antagonistas são desse jeito.

Como assim?

Para simplificar, existem basicamente dois tipos de antagonistas: os passivos e os ativos. Os ativos são esses que possuem as características que dei até agora como sendo dos antagonistas no geral, e os passivos... Bem, eles não agem de propósito para se colocar contra o protagonista. Vejamos a definição de antagonista no dicionário:
Antagonista
an.ta.go.nis.ta
Que é oposto ou contrário a alguém ou alguma coisa. Pessoa que é contra alguém ou alguma coisa; adversário.
Como podem ver, essa definição traz novamente a ideia de que o antagonista não é mau e sim somente um adversário. Alguns, como Gollum, são ativos; saem do seu caminho para agirem contra o protagonista e assim atingir seus objetivos. Outros, como o Um Anel, são passivos; eles são opostos ao personagem principal somente por serem do jeito que são, e não por agirem desse ou daquele jeito. O Um Anel, por exemplo, não tenta consumir Frodo para impedi-lo de alcançar seu objetivo – jogar o dito cujo na Montanha da Perdição e, portanto, destruí-lo –, mas sim porque é de sua natureza tentar consumir qualquer pessoa que o possua que não seja seu mestre verdadeiro, Sauron. Ou seja, o Um Anel não é mau; ele apenas se opõe a quem quer que o use, coisa que, sim, em boa parte das vezes acaba desencadeando algo ruim. Mas o mau de verdade é Sauron – um vilão.

Simpatizar com um antagonista passivo se torna algo bem difícil na maior parte das vezes e por isso alguns até acreditam que o antagonista passivo esteja entre o antagonista de verdade – no caso, o ativo – e o vilão, não sendo nem amado e nem odiado. Ele está ali apenas, cumprindo seu papel na história, sem ser especialmente maléfico, mas ainda assim atrapalhando os planos do protagonista.

Como escrever um bom antagonista?

Antes de qualquer coisa, antagonistas são personagem normais e devem ser tratados como tal. Por isso, é uma boa dar uma lida na matéria sobre como criar personagens antes de prosseguir com essa matéria.

A regra de ouro dos antagonistas – dos ativos, ao menos – é simples: eles devem ser capazes de ser compreendidos. Seu leitor pode condenar e desaprovar suas ações, mas lá no fundo deve ser capaz de entender o que o levou a fazer tal coisa, mesmo que não concorde. Isso é essencial para despertar a tal de simpatia, e não é algo que você, autor, pode deixar de lado. Abaixo estão mais algumas dicas para se escrever um bom antagonista:
  • Não transforme seu antagonista em um plot device. Sabe aqueles personagens que só aparecem para cumprir um papel e depois somem ou não recebem mais atenção? Então, esse é um personagem sendo usado como plot device; eles não possuem vozes próprias e se resumem a algo que você como escritor pode usar para fazer o plot se desenvolver. Embora em alguns casos isso seja perdoado, nunca, jamais, em hipótese alguma, faça de seu antagonista um plot device.
  • Mostre os defeitos de seu antagonista, mas mostre também suas qualidades. Isso torna o surgimento da simpatia algo mais fácil de se acontecer e o diferencia do típico vilão maléfico incapaz de fazer coisas boas.
  • Faça com que alguns desses defeitos sejam “conectáveis”. Todos nós temos defeitos, não é mesmo? É justamente por isso que conseguimos nos conectar com um personagem não apenas por suas qualidades, mas também por suas falhas; conseguimos enxergar traços semelhantes em nossa própria personalidade e, com isso, compreender o personagem melhor. Não cometa o erro de pensar que o leitor se identifica apenas com as qualidades de um personagem; os defeitos também são muito importantes.
  • Dê um objetivo sólido ao seu antagonista. Esqueça a ideia de dominar o mundo apenas por dominar o mundo. Esse é um objetivo – e uma justificativa – característica de alguns vilões e não de um antagonista. Dê um objetivo mais específico, algo mais pessoal. Lembre-se de que, ao contrário de um vilão típico, seu antagonista agirá não só com lógica (mesmo que uma deturpada), mas também com emoção. Ele sente tanto quanto seu protagonista, e merece uma atenção tão especial quanto a do mocinho da história.
  • E, com o objetivo, dê ao seu antagonista também um motivo e um passado. Por que seu antagonista quer fazer o que está fazendo contra seu protagonista? O que o levou a isso? Em que seu passado, incluindo as pessoas com quem conviveu, influenciou na tomada dessa decisão? Vingança, ódio, medo… Procure algo que consiga ser o suficiente forte para impulsionar seu antagonista, afinal, ele é o protagonista de sua própria história. Tome cuidado, no entanto, com o já citado passado. Tentar justificar tudo o que seu antagonista faz baseado em coisas horríveis que aconteceram com ele torna sua história forçada. Lembre-se que vontade também existe, e que seu antagonista poderia ter se tornado uma pessoa boa mesmo tendo um passado terrível (é aqui que a matéria sobre criação de personagens se encaixa).
  • Seu antagonista também deve ter algumas dúvidas. Não muitas, na minha opinião, mas uma ou outra o fazem parecer mais humano. Muitos antagonistas sabem que o que fazem é errado, mas se apegam àquela frase que diz que os fins justificam os meios, mesmo que esses fins signifiquem assassinar uma família ou exterminar um povo. Ainda assim, de vez em quando, eles podem se pegar perguntando se realmente vale a pena ou se é um modo certo de se conseguir o que quer.
  • Seu antagonista também gosta e odeia coisas normais. Talvez ele abomine salada e adore ter uma biblioteca toda à sua disposição. Seus leitores com certeza conseguem se identificar um pouco com alguém assim. Ele parece uma pessoa normal. Ele é uma pessoa normal. E pessoas normais também possuem paixões e coisas que a assustam, livros que idolatram e séries de TV que lhe parecem a pior ideia já filmada. Não faça de seu antagonista um ser completamente fora da terra ou ninguém conseguirá sentir nada por ele.

Finalizando, seu antagonista deve sim ser capaz de despertar simpatia no leitor, mas ele ainda é um antagonista. Ele ainda comete atos ruins e ainda está no caminho do seu protagonista; se identificar tanto a ponto de se importar mais com ele pode indicar que você está contando a história da pessoa errada. Seu antagonista pode muito bem se tornar o anti-herói protagonista da história que você quer contar.
  •  Vilões

Como já foi dito, os vilões se diferem dos antagonistas por serem ruins como pessoas, e não somente por estarem do lado errado da história. Vilões são mesquinhos, vaidosos, gananciosos, egoístas e manipuladores, o que não impede de outros personagens (como o já citado antagonista) de o serem também.

Como escrever um bom vilão?
Vilão
vi.lão
Descortês, grosseiro malcriado. Abjeto, baixo, desprezível. Pessoa vil, desprezível, que comete ações más ou baixas. Avarento, sórdido.
Como dá para ver pela definição, a regra de ouro é simples: vilões devem ser temidos e/ou odiados.
  • E para isso, ele tem que ser esperto. Ninguém leva a sério um vilão que só comete erros e tem a inteligência de uma porta. Isso, aliás, pode até mesmo fazer seu protagonista perder um pouco do respeito do seu leitor; afinal, com um vilão obtuso e lerdo, qualquer um poderia ser o herói, então seu protagonista não se destaca em nada.
  • Ele tem que ter um motivo. Sim, até mesmo os vilões possuem suas razões, mesmo sabendo que o que fazem é errado (ou não). Ao contrário dos antagonistas, essas razões, na maior parte das vezes, dizem respeito ao próprio interesse do vilão; a mais comum, por exemplo, é a vontade de possuir mais poder, ou seja, a ganância. Vingança também é um motivo comum para vilões.
  • E, para fazer o leitor compreender esse motivo, é preciso entrar na mente do seu vilão. Mostre a quem está lendo como ele vê as pessoas à sua volta e como sua mente funciona. Faça-o parecer real, uma pessoa que poderia muito bem viver entre nós, ao dar-lhe um passado bem construído. Faça o leitor conhecer a lógica por trás dos atos do seu vilão.
  • Seu vilão tem que agir. Seu protagonista pinta o sete, salva o mundo três vezes e o causador do problema só fica sentado em seu covil remoendo seus planos infalíveis. Não dá, né? Seu leitor tem que ver seu vilão tentando acabar com as esperanças do protagonista para acreditar que ele é uma ameaça real e que pode sim estragar tudo. Deixar seu vilão na inércia nunca dá certo.
  • Seu vilão tem que possuir comparsas/servos. Não, eles não precisam venerar seu vilão; na verdade, sequer precisam saber que são usados. Um vilão esperto é um vilão manipulador, e que impõe respeito aos seus subordinados.
  • Mesmo sabendo que faz coisas erradas, seu vilão pensa que está acima do certo e do errado. Talvez por se achar muito mais inteligente do que a maioria, um ser superior, por exemplo, ou por qualquer outra razão que você encontrar. Às vezes, porém, o vilão pode achar que tudo o que ele faz está certo, como boa parte dos antagonistas. Isso simplesmente significa que ele é tão mau que sua própria lógica já se tornou deturpada; é o caso de Voldemort, o vilão de Harry Potter.
  • Faça seu vilão ter chance de ganhar. Todos nós sabemos que a chance de seu protagonista vencer no final é de 99,9%, então o que queremos é saber o que custará a ele essa vitória ou como quantas vezes ela esteve tão perto de não existir. Um vilão que nunca teve uma chance real de ganhar é um vilão incompetente, e um vilão incompetente pode fazer sua história ficar chata.

Para resumir, seu vilão é o personagem que você ama odiar. É aquele que faz seu leitor pensar coisas como espero que esse filho da mãe arda no mármore quente do inferno, mas que é tão fascinante que não se pode não se falar sobre ele. Para isso você também pode usar diálogos, manias e, é claro, a primeira aparição do seu vilão, que, se todos souberem quem ele é, obviamente, deve ser memorável.

Bem, é isso. Espero que tenha ajudado e qualquer coisa é só deixar um comentário.
dicas de escrita

Dicas de escrita: criando personagens - sobre mary sues e gary stus

21:14neo

Mary Sue – ou Gary Stu na sua versão masculina – foi um termo criado há anos e anos atrás inicialmente para personagens característicos de fanfics que acabou se espalhando também para livros completamente originais. Nos últimos tempos, encontrar uma Mary Sue ou um Gary Stu está se tornando, infelizmente, cada vez mais fácil.

OBS: Na matéria irei usar apenas a Mary Sue, mas tudo pode ser aplicado ao Gary Stu também. E, devo avisar, boa parte do que está aqui é minha opinião e há quem pense diferente. Se você é muito sensível a seus personagens preferidos de livros como Crepúsculo e Academia de Vampiros ou de filmes de super-heróis serem criticados, é melhor não continuar lendo.

Antes de tudo, o que é uma Mary Sue?

Inicialmente, a Mary Sue era uma personagem impossivelmente perfeita; incrivelmente bonita – mesmo que ela própria não admita isso –, boa em tudo que faz, centro da atenção de quase todos os personagens masculinos da história e sem defeitos que lhe tragam algum tipo de consequência. Ou seja, a Mary Sue – que lembro a vocês, surgiu com as fanfics, onde fãs escrevem sobre seus livros e filmes preferidos – servia para o autor basicamente se colocar no livro. E, não, isso não significa que a Mary Sue seria então uma personagem de verdade, bem construída, que lembrasse uma pessoa real; na maior parte das vezes, o escritor a faz como uma idealização sua, uma versão melhor – perfeita – dele mesmo.

Um bom exemplo da Mary Sue clássica é a Bella Swan, protagonista de Crepúsculo. Bella se acha sem graça e atrapalhada, praticamente invisível, mas mesmo assim mais de dois garotos se apaixonam ou se interessam por ela durante a história. Bella não é exatamente boa em tudo que faz, mas é considerada inteligente por boa parte dos personagens e seus “defeitos” – ser, hm, desastrada – não lhe trazem nenhuma consequência durante os quatro livros da série, a não ser, é claro, quando a fazem cair nos braços de Jacob ou Edward. 

O lançamento e o sucesso de Crepúsculo meio que popularizou a Mary Sue mais uma vez, e ela se tornou muito comum em livros voltados para o público jovem. Nos últimos tempos, porém, houve uma espécie de movimento anti-Sue que (infelizmente) não deu muito certo.

Essas novas Mary Sues não são mais invisíveis, admitem sua beleza, possuem novos defeitos – ser teimosa e ter um temperamento ruim – e várias vezes não precisam que os mocinhos venham salvá-la. O que, portanto, as fazem Mary Sues? Simples: elas ainda são extremamente boas em tudo que fazem, ainda atraem 90% dos personagens masculinos da história e os tais defeitos ainda não trazem consequências – e quando o fazem, nunca é por muito tempo e nunca colocam a Mary Sue em perigo de verdade.

O exemplo dessa vez é Rose Hathaway, a protagonista de Academia de Vampiros. Há muita gente que não considera ela uma Mary Sue, já que ela decididamente não é invisível, sabe muito bem que é bonita e qualquer um que já tenha passado das 60 páginas do primeiro volume da série sabe que Rose é bem capaz de dar uma surra em boa parte dos personagens de VA. Então, por que eu – e você pode discordar de mim – a considero uma Mary Sue?

Mais uma vez, é simples.

Primeiro, Rose passou dois anos longe da Academia e não recebeu treinamento algum durante esse período. Ao retornar, começou a ter aulas particulares e em menos de um ano não só igualou suas habilidades com as de seus colegas como também as superou e as superou de modo esmagador. Com o passar dos livros, Rose se torna uma máquina de matar Strigoi com uma rapidez absurda e sim, ela treinou, mas o suficiente para chegar praticamente ao nível do seu mestre em menos de um ano? Nope. Não me convence.

E, é claro, temos os personagens masculinos da série se apaixonando por ela a torto e a direito. Eu até perdoaria ela atrair a atenção dos Moroi por ser uma dampira (na história, dampiros são mais “musculosos” e possuem um corpo mais bem modelado do que os Moroi, vampiros extremamente magros, e por isso se destacam), mas dois dos três caras que se apaixonam por Rose são dampiros como ela. Devo lembrar também que aparência não faz ninguém se apaixonar de verdade, e quem já leu VA sabe bem que Mason, Dimitri e Adrian realmente a amam e não a querem somente por seu corpo.

Por último, a teimosia e o temperamento ruim de Rose não a colocam em problemas, não de verdade (e quando colocam não é por muito tempo e nada que a prejudique mesmo). Para ser sincera, muitas vezes essa teimosia e esse temperamento ruim são os responsáveis por torná-la mais apaixonável, por assim dizer. São “defeitos” que a fazem mais atraente para os personagens masculinos da trama, basicamente, e não traços verdadeiros de um personagem bem planejado.

Porém, há mais uma coisa que personagens como Rose e Bella tem em comum (além da síndrome da Mary Sue): são personagens mal escritos e não possuem praticamente nenhum desenvolvimento durante a série. Compare a Bella do início de Crepúsculo com a do final de Amanhecer: são elas realmente diferentes? Houve alguma evolução pessoal (não estou falando do romance, mas da Bella como pessoa)? Há algo que as diferencie (tirando o fato óbvio de que agora ela é uma vampira) de verdade? Algum hábito diferente, algum modo de pensar novo, um jeito de agir que ela não possuía no início da série?

Hm, nope.

Rose, por outro lado, teve algum desenvolvimento, embora ele não seja nem de longe tão grande ou tão bom quanto Richelle Mead quer fazer você acreditar. Muito desse desenvolvimento, aliás, é mais dito – muitas vezes pela própria Rose – do que mostrado. Ela, para mim, é uma personagem que poderia ter escapado da síndrome da Mary Sue se tivesse sido construída de um modo melhor, mas, infelizmente, isso não aconteceu.

Resumindo, Mary Sues:
  • Possuem características extremamente previsíveis – técnica usada para tornar a inserção do leitor e/ou escritor muito mais fácil.
  • São boas em praticamente tudo e não possuem defeitos que lhe tragam consequências reais.
  • São o par romântico de boa parte dos personagens masculinos da história sem motivos aparentes.
Caso você esteja se perguntando, é óbvio que existem personagens femininas que são boas em muitas coisas e que possuem vários caras atrás delas que não são Mary Sues. O que diferencia as Mary Sues dessas personagens é, portanto, o modo com que elas são desenvolvidas durante a história. As Mary Sues são boas em tudo porque são boas em tudo, são o par romântico perfeito porque são o par romântico perfeito e são especiais porque são especiais. Fim. Não há motivo. Não há um porquê. Elas são assim porque são assim e fim de papo.

O problema, portanto, não é o fato de elas serem extremamente habilidosas e etc, e sim o fato de o escritor não dar razão alguma para elas serem assim. A Viúva Negra (de Os Vingadores), por exemplo, tem o porquê de ela ser tão boa bem encaixado no seu passado e tem defeitos que lhe trazem consequências reais. Muitas das personagens que eu pessoalmente não considero Mary Sues, como Katniss Everdeen, Éowyn, Xena, Lisbeth Salander, Sansa Stark, Daenerys Targaeryen, etc, são extremamente habilidosas com, por exemplo, o uso de armas (algumas delas). E nem por isso são Mary Sues.

E por que você não iria querer uma Mary Sue na sua história?

Porque elas não existem.

Tada.

Lembra que eu mencionei que personagens são pessoas na última matéria? É simplesmente por causa disso; pessoas perfeitas não existem, logo Mary Sues não podem existir.

A maior parte dos leitores abre um livro esperando encontrar personagens que façam com que ele se sinta representado e não procurando um personagem oco para fingir que a história está acontecendo com ele. O oposto acontece? Sim, acontece. Todos nós sabemos disso e há dezenas de histórias que provam a existência de casos assim. Mas, como eu já disse, a maioria das pessoas que vier a ler sua história vai farejar uma Mary Sue já nas primeiras páginas e imediatamente virará as costas. Uma Mary Sue é basicamente uma faixa com o aviso “escrita de má qualidade – personagem mal desenvolvido” colado sobre o título do seu livro.

Para concluir, leitores querem apenas se importar com seus personagens. E para se importar com seus personagens eles precisam se identificar com eles – com suas dores, medos, sonhos, defeitos e sim, qualidades também. É justamente por isso que você vai querer uma Mary Sue bem longe da sua história. Ela é perfeita, e seus leitores não são, e isso impede qualquer chance de fazer com que eles se identifiquem e se importem com ela. Ou seja, corra para cortar qualquer Mary Sue da sua história pela raiz.

Mas como fazer isso?

Primeiro, aprenda a encontrar as possíveis Mary Sues na sua história. Essa pode não ser uma tarefa fácil, mas os pontos abaixo podem acabar te ajudando a ver se algum personagem seu se encaixa.
  • O personagem é bonito e em boa parte do tempo não admite isso.
  • O personagem tem uma característica física que o diferencia dos demais (olho ou cabelo de cor não-usual, como o vermelho é para os olhos humanos) sem explicações para isso.
  • O personagem é muito inteligente.
  • Outros personagens frequentemente querem ajudá-lo sem terem motivos fortes o suficiente para isso.
  • A maior parte dos personagens gosta dele.
  • O personagem possui muitos traços seus. E não, ter traços seus não é algo necessariamente ruim; o exagero na semelhança entre você e seu personagem é.
  • O personagem aprende coisas novas muito rápido, superando outros no mesmo nível que ele sem esforço e chegando até mesmo a derrotar o mestre em um curto espaço de tempo.
  • O personagem poderia ser caracterizado como o/a namorado/a perfeito/a.
Se um de seus personagens se encaixou em muitas das afirmações acima, aconselho dar uma reformulada no seu personagem.

Você também pode usar esse “teste” abaixo para tentar identificar as possíveis Mary Sues na sua história, se os pontos ali de cima não forem suficientes para lhe tirar essa dúvida.
  • Seu protagonista muda durante a história?
Se não: Conserte isso, com urgência. Boa parte do que faz um personagem bom é sua capacidade de mudar, tanto para melhor quanto para pior, diante dos acontecimentos do plot. Afinal, pessoas também mudam graças aos eventos que acontecem na sua vida.

Se sim: \o/
  • Seu personagem possui defeitos?
Ser apenas teimoso e de temperamento ruim não conta. Muito menos desastrado. Dê defeitos reais que tragam consequências reais para seus personagens. Como eu já disse, eles não podem, sob hipótese alguma, ser perfeitos.
  • Seu personagem falha?
Se não: Meh. Como seu leitor vai se identificar e simpatizar com um personagem que está sempre certo?

Se sim: \o/
  • Os outros personagens gostam do personagem em questão sem motivos?
Se não: \o/

Se sim: Nenhuma pessoa consegue ser amada por todos sem motivo. Seu personagem não é exceção.
  • Seu personagem é especial de alguma forma sem explicação alguma?
Se não: \o/

Se sim: Mude isso. É sério.

Ou seja:
  • Se muitos personagens se apaixonam por ele, dê motivos para isso e desenvolva bem o “se apaixonar” deses interesses românticos.
  • Dê ao seu personagem defeitos que realmente causem impacto na sua vida e no plot.
  • Não faça com que ele aprenda tudo muito rápido.
  • Dê explicações para eventuais características diferentes.
  • Dê motivo aos outros personagens se for preciso que eles o ajudem de alguma forma.
Não falei muito de Gary Stus, mas aqui vão alguns exemplos do que eu considero um: Edward Cullen, Dimitri Belikov, Batman (há controvérsias, e aqui falo baseando-me apenas nos filmes), Superman e muitos dos protagonistas de anime shounen por aí (Seiya de Saint Seiya/Cavaleiros do Zodíaco – bônus por Atena/Saori também ser uma Mary Sue, Goku de Dragon Ball e até mesmo Sasuke de Naruto, que iniciou como Gary Stu, mas hoje felizmente não o considero mais como um).

Finalizo essa matéria gigante dizendo que não, eu não odeio Crepúsculo. Não concordo com muito do que a história passa, mas não chego a ter algo contra ela, não de verdade. Mas fatos são fatos e eu estou longe de ser a única a considerar Bella uma Mary Sue e Edward um Gary Stu. Cada um com sua opinião, é claro.

Também não odeio Batman, nem Superman, nem Saint Seiya e nem Dragon Ball.

Quanto a Academia de Vampiros…Bem, eu odeio Academia de Vampiros. Sinto muito, mas nope.

Espero ter ajudado e qualquer coisa é só deixar um comentário.

criando personagens dicas de escrita

Dicas de Escrita: criando personagens - o básico

14:39neo

Não é segredo nenhum que personagens são a alma de toda história. Sempre digo isso, mas devo repetir: nem mesmo o melhor plot do mundo vai ser capaz de prender seu leitor se seus personagens forem mal construídos, simples estereótipos sem profundidade. Então ter bons personagens é uma das melhores tácticas para conseguir – e manter – leitores.

Mas como criar personagens satisfatórios? Não há uma resposta certa, infelizmente. O que apresentarei nessa matéria é apenas minha opinião e funcionou comigo, mas há muitos outros métodos que você pode tentar usar e que podem se adequar melhor a você e a seus personagens. Porém, tenho quase certeza que as dicas que listarei aqui servem para a maioria dos escritores, mesmo que não para todos.

Personagens são pessoas, mesmo quando não são humanos. É por isso que nos interessamos por eles; somos praticamente programados para nos importar com os outros e nos conectar com eles, formando famílias, grupos de amigos, comunidades e sociedades. É o que viemos fazendo por milhões de anos, e o que continuaremos fazendo pelos milhões que hão de vir. Portanto, se seu personagem falhar em ser uma pessoa, o leitor não conseguirá se manter interessado por muito tempo, já que não estará emocionalmente envolvido com as lutas, sonhos e medos do seu protagonista (e também de seus secundários).

Então, para resumir, criar um bom personagem é criar uma pessoa. E pessoas são “criadas” através de três coisas: seu passado, seu presente e seu futuro.
  • Passado
Muito do que somos hoje devemos ao nosso passado; o modo com que nos relacionamos, nos comportamos e principalmente nossos valores vieram de eventos que aconteceram durante nossa formação como indivíduo. E com personagens isso funciona do mesmo jeito; sua infância e adolescência definem uma boa parte de quem eles são no momento em que o livro começa, mas é bom lembrar que não definem tudo. Por exemplo, digamos que A e B tiveram uma infância muito difícil, tanto econômica como emocionalmente. A se tornou recluso e negativo, enquanto B acabou sendo extrovertido e otimista apesar de tudo. Pessoas diferentes reagem de modo diferente a situações, e seus personagens o devem fazer também. Decidir que se seu personagem será como A ou B (ou C ou D e assim por diante) é um dos primeiros passos para começar a desenvolver sua personalidade.

Para te ajudar nesse processo, você pode usar o seu próprio passado como teste. Pense na sua personalidade de agora e em seus objetivos, e reflita sobre o quanto disso veio de acontecimentos ou pessoas do seu passado. Você também pode tentar escrever tudo como se você mesmo fosse um personagem, falando da sua relação com seus pais, amigos e familiares, e em como isso te influenciou. Esses “efeitos” são o motivo do passado do seu personagem ser tão importante; são eles que determinam quem ele é e quem ele quer se tornar.

Então escreva tudo que lhe vier à mente sobre o passado do seu personagem. Tente cobrir a maior parte de sua vida, de seus relacionamentos e dos eventos que marcaram seus anos de vida, mas não se desespere se não conseguir descrever tudo. É quase impossível pensar em todos os aspectos da sua própria vida, então com um personagem a coisa não seria tão diferente.
  • Presente
O seu personagem de agora define como sua história irá se desenvolver. Ele é o ponto de partida; uma junção das coisas que aconteceram em seu passado com suas expectativas do futuro, algo como o meio termo entre tudo o que o levou a ser como ele é hoje e o que você quer que ele seja ao fim do seu livro ou série. E, também, é o que vai ser apresentado aos seus leitores, sendo assim o link entre eles e a história que você quer contar.

Não há um modo certo de se fazer um personagem, mas há, com certeza, o modo errado. Como eu disse lá em cima, personagens são pessoas, e não existe ninguém que tenha agradado todo mundo; seu personagem, portanto, não irá satisfazer gregos e troianos, mas se bem construído pode conquistar ou um ou outro. Se mal construído, porém, ele acabará se tornando uma Mary Sue ou um Gary Stu, sendo tão irreal que nenhum leitor será capaz de se identificar ou de torcer por ele.  E se seu personagem do presente der a impressão de ser assim, as chances de continuarem lendo sua história caem significativamente.

Como impedir que isso aconteça então? Em teoria, é algo simples: dê defeitos reais aos seus personagens, faça com que eles errem e tenham que lidar com as consequências disso, não os torne o queridinho de todos se não houver uma razão boa para tal coisa e jamais os coloque acima de outros personagens em questão de habilidades se eles forem iniciantes ou inexperientes. Afinal, pessoas reais são assim, não são? Temos defeitos e temos que arcar com as consequências dos nossos atos, e ser o queridinho de todos sem esforço e mérito é muito difícil. Se tratando de habilidades então, não há nem o que discutir. Suponhamos que você faça karatê; seria você capaz de vencer seu mestre que tem anos e anos de treino e dedicação após apenas alguns meses estudando e treinando?

Não, não seria. E seu personagem também não.
  • Futuro
Sabe aquele plot mal desenvolvido que você tem há milênios e que não escreve por não saber o que diabos vai acontecer de verdade? Existe uma chance de 90% de que seu problema pode ser resolvido com nada mais, nade menos que o futuro do seu personagem. É por isso que considero essa a parte mais importante da matéria.

Veja bem, sua história não pode ir a canto algum se seus personagens não tiverem algo que eles querem para seu futuro. Usemos o primeiro livro de Percy Jackson como exemplo: mesmo sendo levado ao Acampamento Meio-Sangue por acontecimentos que estavam além de seu controle, a história de O Ladrão de Raios só aconteceu porque Percy queria resgatar sua mãe e limpar seu nome. Se ele tivesse decidido aguentar a ira de Zeus quieto no seu canto e tivesse desistido da sua mãe, nenhum dos eventos narrados no livro existiria. Ou seja, todo o plot veio dos objetivos de Percy.

Quando eu comecei a escrever minha história, há mais de sete anos, confesso que não fazia a menor ideia de para onde o livro estava indo. Eu só ia escrevendo e escrevendo enquanto rezava por um milagre que me indicasse o que fazer, e esse milagre, obviamente, não aconteceu. A falta de planejamento fez com que a primeira versão do meu projeto chegasse a apenas cinco capítulos, e só dois anos depois, quando peguei o (suposto, quase inexistente) plot foi que percebi o que havia de errado. Por mais que sim, eu tivesse o início do que hoje é a ideia central da história, minha protagonista não tinha um objetivo. Ela tinha sido literalmente arrastada para a “aventura” pela vontade de outras pessoas. Foi só depois que eu arranjei um motivo para ela querer se enfiar no que estava acontecendo com esses outros personagens que consegui desenvolver o plot. Aliás, o objetivo dela transformou o livro por completo, fazendo com que eu criasse mais personagens e mais subplots.

Ou seja, ignorar os motivos do seu protagonista (e de todos os seus personagens em geral) é o mesmo que assassinar sua própria história. Seus personagens têm que ter objetivos: são eles que moldam o seu plot porque seu plot só existe e só desenvolve se seus personagens agirem. É por isso que você deve usar esses objetivos na hora de planejar sua história. Se você acabou de ter uma ideia, por exemplo, escreva tudo o que puder sobre ela e em seguida passe a trabalhar nos personagens mais necessários e só depois passe para o planejamento de verdade. Nunca se esqueça de que plot e personagens estão intimamente interligados.

Porém, não é apenas de passado, presente e futuro que bons personagens são feitos. Bons personagens são ativos na história; eles tomam decisões e não apenas seguem as ordens do plot. Eles possuem medos – geralmente interligados com os objetivos, como, por exemplo, um personagem que tem como objetivo ser rico provavelmente morre de medo de acabar falhando e se tornar pobre –, hobbies, coisas que o desagradam, manias e um modo de falar próprio.

Toda essa matéria, porém, serve basicamente apenas para te ajudar a construir seu personagem de antes da história começar, moldando também seus objetivos para que esses ajudem a formar o plot. Um bom personagem não se faz nem mesmo com os itens citados no parágrafo anterior; um bom personagem muda ao longo da história, se desenvolvendo junto a ela e a outros personagens. Mas isso já é assunto para outra matéria.

Espero ter ajudado e qualquer coisa é só comentar.

como lidar com muitas ideias dicas de escrita ideias

Dicas de escrita: como lidar com muitas ideias

12:21neo
Como eu disse na última matéria, ter muitas ideias era um problema bem comum para mim, e um que já me impediu muito de continuar escrevendo minha história no passado. Hoje, felizmente, não sofro mais disso, e usarei essa matéria para tentar passar um pouco do que me ajudou a deixar essa “síndrome” para trás.
  • Muitas ideias para histórias diferentes
Entre ter muitas ideias para histórias diferentes e ter muitas ideias para a mesma história, o primeiro caso sempre me deu mais trabalho. Achava incrivelmente difícil escolher um plot entre os que eu tinha na minha pastinha, e sempre que começava um acaba me distraindo com a ideia de que talvez eu estivesse perdendo tempo com A enquanto deveria estar me concentrando em B. Muito disso vinha justamente do que eu achava que os leitores iriam gostar; cheguei até a deixar minha história principal de lado por quase um ano e meio por achar que ninguém iria querer ler fantasia na comunidade de escrita da qual eu participava. Resultado: depois que postei, muitos outros escritores de fantasia também tomaram coragem, e por um tempo esse foi o gênero mais popular do fórum.

Ou seja, escreva o que diabos você quer escrever. Esqueça da existência dos leitores na hora de decidir qual história deve ser seu foco; primeiro você tem que, obviamente, escrever para si mesmo. Do contrário seu livro corre o risco de ficar muito “tentei agradar todo mundo” e, confie em mim, você realmente não quer isso para sua história (vai que você acaba sem agradar ninguém no final?).

Se mesmo fingindo que os leitores não existem você ainda tem dificuldade em escolher qual plot escrever, se afaste um pouco do computador/caderno que você costuma usar e reflita sobre qual história significa mais para você. Pode ser por ela mostrar opiniões ou crenças suas ou ainda por causa de um personagem que você gosta muito, não importa. Analise qual vai lhe deixar empolgado para terminar por mais tempo ou qual você gostaria de ler primeiro se ambas as histórias fossem livros de outras pessoas, e, no último caso, decida na sorte e esconda as outras opções da sua vista. Sua vida será muito longa e mesmo que você foque no projeto A agora, o B não irá fugir da sua gaveta. Portanto, sem pânico.
  • Muitas ideias para a mesma história
Ter muitas ideias para a mesma história pode passar rapidamente de benção para maldição. Felizmente, nunca tive muitos problemas com isso, mas sei que muita gente passa uma vida tentando decidir qual usar. Minhas dicas nesse caso são bem simples: divida as ideias em grau de importância, descarte sem pena e planeje. Só.

Dividir as ideias em grau de importância serve para te ajudar a decidir quais manter e quais descartar sem pena e planejar torna mais fácil jogar fora o que não é necessário. Veja bem, usar uma ideia que altera muito do seu plot pode ser bom, mas somente se você tem como lidar com as “consequências” dela depois. Escolher uma só por ela ser muito boa vai fazer você quebrar a cara; muitas vezes uma menos incrível se encaixa muito melhor com seus personagens e com a história que você tinha planejado, além de poder oferecer um final mais satisfatório. Então na hora de decidir qual usar, pense no futuro de toda sua história, e não apenas nos acontecimentos imediatos. Lembre-se que você pode usar ideias maiores que não se encaixem com a história A para a história B ou para a C, que pode estar carecendo de um plot mais forte. Juntar histórias também pode ser uma boa opção.

Resumindo, não vá somente por “ah, essa ideia é muito boa, mas essa outra também”. Considere todos os efeitos que elas podem ter no plot da sua história, levando em conta coisas como desenvolvimento dos personagens e ritmo. Do contrário, você pode prejudicar sua história, mesmo ao adicionar uma ideia excelente.

Bem, é isso. Espero ter ajudado.

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